sábado, 4 de fevereiro de 2012

SOMBRA DA ALEMANHA SOBRE A EUROPA AMEDRONTA CONTINENTE

Poder da Alemanha está provocando medo na Europa
David Crossland - Der Spiegel
A sugestão feita por autoridades de Berlim na semana passada no sentido de submeter a política orçamentária grega ao controle de um comissário da União Europeia foi criticada como sendo impraticável e desrespeitosa. Mas, tendo em vista a contribuição da Alemanha para os pacotes de auxílio econômico, o país tem o direito de insistir na implementação de disciplina fiscal, dizem analistas da imprensa alemã.
A reunião de cúpula da União Europeia na última segunda-feira foi eclipsada por uma nova onda de temores relativos ao domínio alemão, após a divulgação de notícias, durante o fim de semana, de que Berlim estaria propondo o envio de um comissário da União Europeia a Atenas para assumir o controle sobre o orçamento grego.
A chanceler Angela Merkel desejava que a reunião de cúpula transmitisse uma mensagem positiva a respeito de um compromisso para a criação de empregos e a promoção de crescimento econômico, mas isso não foi capaz de acabar com a impressão de que a Alemanha está usando o seu poder na crise do euro.
O jornal grego “Ta Nea” publicou uma charge de Merkel segurando a Grécia como se fosse um marionete com a legenda “Nein! Nein! Nein! (“Não! Não! Não!”). E o primeiro-ministro italiano Mario Monti advertiu neste mês que a Alemanha precisa fazer mais no sentido de ajudar os seus parceiros da zona do euro caso não queira correr o risco de presenciar uma reação de cidadãos frustrados com as medidas de austeridade.
Dados econômicos divulgados na última terça-feira (31) deixaram claro que a Alemanha está se saindo bem melhor do que os seus colegas europeus. O índice de desemprego alemão caiu para um nível recorde de 6,7% em janeiro, enquanto que o desemprego na zona do euro subiu para 10,4% em dezembro do ano passado, o índice mais elevado desde junho de 1998.
Analistas da imprensa alemã dizem que a Alemanha tem o direito de insistir na implementação de disciplina fiscal na Europa, mas afirmam que o país precisa ter mais cuidado com a sua retórica, e deve evitar propostas que insultem os seus colegas da União Europeia. Segundo eles, a sugestão de instituir um comissário de austeridade econômica é insensível e impraticável.
O jornal conservador “Die Welt” manifestou a seguinte opinião: “Independentemente daquilo quanto ao qual a conferência de cúpula da União Europeia concordar agora ou depois, não haverá nenhum comissário europeu de austeridade econômica dotado de poderes de autoridade.
Países em crise não podem ser transformados em protetorados. Um comissário fiscal da União Europeia não seria capaz de obter muitos resultados, a menos que ele contasse com os poderes de um estatuto de ocupação.
A conclusão soa quase que paradoxal: para recuperar o seu Estado e a sua soberania, os gregos precisam deixar a zona do euro. Eles devem isso a si próprios. Eles têm que seguir o próprio caminho com a liberdade possibilitada por oscilações da taxa monetária e com um forte estímulo para o crescimento econômico”.
O “Frankfurter Algemeine Zeitung”, jornal de centro-direita, opinou: “A Alemanha é de longe a economia mais poderosa da União Europeia, e a sua liderança está aumentando. Ela é também o país com a maior população, o que não é algo insignificante sob o ponto de vista da democracia. Portanto, ninguém deveria se surpreender com o fato de o governo alemão estar usando a sua influência. Essa ação é legítima.
Mas a Alemanha não tem hegemonia sobre a Europa. Ela não é uma potência hegemônica nem hesitante nem arrojada que passa por cima dos outros membros da União Europeia e/ou da zona do euro. A união dos europeus não funciona dessa maneira. Ela não foi formulada para resultar em dominação ou subordinação sistemática. Essa é a grande façanha da sua construção. Ela se baseia no respeito. Para que a Alemanha lidere, como a maioria dos países parceiros deseja ou diz desejar, essa liderança não pode consistir simplesmente em dar ordens.
“Liderança é algo que precisa ser aprendido. Mas ela não significa um tipo mais elevado de abnegação e de distribuição de auxílios. A Alemanha carrega um grande fardo por ter que superar uma crise que foi provocada por terceiros. Ela tornou-se, de fato, responsável pelas dívidas desses países, algo que não havia sido planejado. Quem pode criticar a Alemanha por expor com clareza o seu ponto de vista? O fato de ela insistir na aplicação de disciplina orçamentária não enfraquece a democracia nos países devedores. Essa é a lógica da vida dentro da união monetária, na qual os países membros ingressaram por livre arbítrio. Ninguém deveria ser insultado. E isso se aplica a todos. O povo grego não deveria chamar estupidamente a chanceler alemã de nazista. O que ele deveria fazer é tirar as conclusões certas de um fracasso monumental. E, apesar de toda a reclamação que se ouve, o fato é que a Grécia já abriu mão da sua autonomia orçamentária”.
Já o “Süddeutsche Zeitung”, de esquerda, diz o seguinte: “A Alemanha se encontra em uma posição na qual jamais quis se encontrar novamente após 1945: a de potência dominante no meio da Europa. As suas tentativas de alcançar essa posição com canhões e tanques no século 20 acabaram em um apocalipse de sangue e fogo, mas é precisamente por causa disso que aquela Alemanha não existe mais.
Nenhum país sucumbiu de forma mais terrível do que a Alemanha à tentação do nacionalismo. Na sua memória coletiva, os crimes que ela cometeu em toda a Europa ainda têm um peso enorme. É verdade que é um absurdo explorar esse fato hoje em dia, mesmo na Grécia, cujos partidos políticos conduziram o Estado à ruína. Mas isso deveria ensinar o governo alemão a não confundir firmeza com a arrogância do poder no que diz respeito à crise do euro, já que esse poder é bastante real, e ele está provocando medo. A sugestão de impor um comissário de austeridade econômica na Grécia foi insensível, assim como a exigência feita pelo líder do Partido Democrático Liberal (em alemão, Freie Demokratische Partei, ou FDP), Philipp Rösler, de que a Grécia seja submetida a 'liderança e monitoramento'.
Os alemães já lideraram a Grécia no passado, e embora os massacres de Distomo e Kefalonia nada tenham a ver com a crise atual do euro, tais afirmações tolas só fazem aumentar a histeria e a resistência.
Na verdade, a pior crise econômica desde a criação da União Europeia demonstra como a união é fundamental. A crise mostra que não se pode assumir que uma moeda comum, o transporte livre de produtos, fronteiras abertas e a amizade entre os povos sejam coisas que ocorrem automaticamente. Essas são, historicamente, façanhas únicas de um continente cujos povos resolviam as suas disputas pela guerra até duas gerações atrás. Hoje em dia existem outras maneiras e meios, e as instituições comuns enfrentam o seu grande teste.
A Alemanha precisa convencer, ao invés de ditar. Ela simplesmente depende tanto da Europa quanto os gregos”.
Tradução: UOL

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