sábado, 2 de agosto de 2014

Crises estrangeiras desaparecem na campanha ao Congresso dos EUA
Jackie Calmes - NYT
Nicholas Kamm/AFP
Democratas e republicanos se dividem sobre atenção de Obama a temas 'domésticos' Democratas e republicanos se dividem sobre atenção de Obama a temas 'domésticos'
As crises em Gaza, Iraque, Síria e Ucrânia dominam a imprensa nos últimos meses e até mesmo chamaram a atenção de muitos americanos que costumam ser indiferentes aos assuntos internacionais. Mas os eventos poderiam muito bem estar ocorrendo em um universo paralelo se alguém julgasse pela atenção que estão recebendo nas campanhas eleitorais deste ano para o Congresso.
Os candidatos não estão levantando esses assuntos nas suas aparições ou propagandas na televisão, exceto por alguns republicanos que estão culpando o presidente Barack Obama, dizem estrategistas de ambos os partidos. Nem os jornalistas locais e eleitores estão fazendo perguntas a respeito.
O foco está, como na maioria dos anos de eleições não-presidenciais, em assuntos domésticos – empregos, saúde, direitos reprodutivos – que estão mais próximos de casa para os eleitores cansados após mais de uma década de engajamento militar no exterior. Em 2010, os republicanos exploraram o descontentamento dos eleitores com a recuperação econômica desigual e a recém-assinada lei de reforma da saúde de Obama para conquistar a maioria na Câmara e aumentar sua bancada no Senado.
O debate recente sobre o que fazer a respeito do aumento de crianças centro-americanas cruzando ilegalmente a fronteira com o México não é exceção, apesar de suas raízes estrangeiras. Os eleitores veem a turbulência na fronteira como sendo um assunto doméstico, algo acontecendo aqui, não "lá", segundo estrategistas dos partidos e analistas independentes.
"Nós estamos em tempos interessantes", disse Jennifer Duffy, que analisa as disputas para o Senado e governos estaduais para o não partidário "Cook Political Report". "Eu não estou tão certa se, há uma década, o que está acontecendo agora no mundo seria tão ignorado pelo eleitorado. Mas eu acho que há muita fadiga entre os eleitores, especialmente em relação a guerras".
Duffy e David Wasserman, um colega do "Cook" que monitora as campanhas para a Câmara, disseram ter visto pouca reação dos candidatos às várias crises internacionais. Assuntos de política externa e segurança nacional não aparecem na lista dos 20 principais temas cobertos pelas propagandas políticas de televisão em 2014 até 29 de julho, segundo o Kantar Media CMAG, que monitora esses dados.
"Apesar de tudo o que está acontecendo no mundo, quase nada disso está aparecendo nas propagandas de campanha", disse Elizabeth Wilner, vice-presidente sênior para política da Kantar Media Ad Intelligence. "O mais próximo que se chega de política externa ou segurança nacional são as propagandas que mencionam a dependência americana de petróleo estrangeiro".
O Cidadãos para Soluções Responsáveis de Energia, um grupo independente que apoia a reeleição dos senadores republicanos, comprou recentemente tempo de televisão no Tennessee em prol do senador Lamar Alexander, para a primária republicana do Estado em 7 de agosto. Uma propaganda abre com "Conflitos internacionais. A crise na fronteira. A segurança da América ameaçada", antes de começar a defender Alexander e fontes de energia domésticas.
Geoff Garin, um pesquisador democrata, fez uso de um adágio da Guerra Fria, "a política termina à beira da fronteira", para explicar por que as campanhas têm se mantido em silêncio a respeito dos conflitos no exterior, apesar de sua importância potencial. "O interesse dos eleitores termina à beira da fronteira", disse Garin.
Nos últimos anos, a norma às vezes foi quebrada, mostrando que a política externa pode ser chave para o resultado de uma eleição de meio de mandato, quando os eleitores veem uma ameaça direta à segurança nacional ou acreditam que o Congresso pode mudar a direção da política externa. Mas essas condições estão ausentes neste ano.
Em 2002, com os ataques terroristas do 11 de Setembro ainda frescos na mente dos americanos, o país em guerra no Afeganistão e o presidente George W. Bush buscando apoio para invadir o Iraque, os republicanos no Congresso conseguiram com sucesso transformar as eleições de meio de mandato em um referendo sobre qual partido poderia cuidar melhor da segurança nacional. Eles conquistaram maiorias na Câmara e no Senado. Mas em 2006, os eleitores desiludidos com a Guerra no Iraque deram o controle do Congresso aos democratas, que prometeram usar os poderes orçamentários do Congresso para trazer as tropas de volta para casa.
Agora, ambos os partidos estão cansados de guerra. Em dezembro, o levantamento quadrienal do Centro Pew de Pesquisa, juntamente com o Conselho de Relações Exteriores, sobre as atitudes dos americanos, apontou que pela primeira vez em meio século, a maioria – 52%, incluindo percentuais semelhantes de republicanos, democratas e independentes – concorda que a nação deveria "cuidar de seus próprios interesses internacionalmente e deixar os outros países se virarem o melhor que podem com seus próprios". Uma pesquisa Pew, em meados de julho, apontou que apesar do investimento de vidas e recursos pelos Estados Unidos no Iraque, 55% dos americanos disseram que o país não tem responsabilidade em "fazer algo" a respeito da violência sectária que está ocorrendo ali.
Quando assuntos estrangeiros entram no debate eleitoral deste ano, geralmente fazem parte da condenação mais ampla ao presidente pelos republicanos. Ultimamente, os republicanos criticam Obama como desengajado, dizendo que, enquanto as chamas globais queimam, ele passa tempo demais fora de Washington para levantar dinheiro de campanha e discursar sobre causas domésticas, como projetos de infraestrutura para geração de empregos. Os democratas, entretanto, lamentam quando o presidente passa um dia sem falar sobre empregos ou parece preocupado com o beco sem saída da diplomacia.
Os republicanos correriam risco caso fossem específicos demais nas críticas às ações de Obama na política externa. Apesar das pesquisas ao longo do último ano mostrarem que a maioria dos americanos desaprova a forma como ele tem cuidado da política externa de forma geral, a maioria – incluindo muitos republicanos – compartilha sua aversão em ser atraído para locais de conflito como a Síria e a Ucrânia e concordam que é hora de "uma construção de nação aqui em casa".
Os democratas reconhecem de forma privada que a mistura desconcertante de crises internacionais não está contribuindo para as perspectivas do partido, considerando que a sorte deles em novembro está atada, como de costume no sexto ano de um presidente, à popularidade em queda de Obama. "O que é perigoso para nós", disse um estrategista democrata, "é a extensão de que há uma sensação geral de ansiedade e medo em relação ao mundo", o que poderia reduzir o comparecimento do eleitor para votar.
Apesar dos eleitores demonstrarem pouco interesse em política externa neste ciclo eleitoral, isso poderia mudar após os resultados de novembro e o início da corrida presidencial de 2016. Então, preveem democratas e alguns republicanos, os republicanos poderiam ter problemas com a briga entre as facções isolacionista e intervencionista para indicação do substituto de Obama.
Tradução: George El Khouri Andolfato

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