Economia pode ajudar Cameron a salvar-se no Reino Unido
Matthew D'ancona - NYT
Reprodução/Telegraph/Arquivo
Gestão de Cameron promoveu amplo corte de gastos públicosNo maravilhoso filme de Barry Levinson de 1997, "Mera Coincidência", um assessor de marketing político, interpretado por Robert De Niro, recruta um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para encenar uma guerra pela televisão entre os Estados Unidos e a Albânia para distrair a atenção de um escândalo sexual presidencial. O personagem de Hoffman fica atônito que, apesar de todo seu talento na elaboração de um conflito fictício, os especialista ainda assim atribuem o sucesso eleitoral do presidente ao slogan maçante de campanha: "Não troque de cavalos no meio do caminho"; em outras palavras, quando a economia está sólida, os eleitores votarão pela manutenção das coisas como estão. Por menos empolgante que possa ser, essa visão determinista do comportamento eleitoral permanece mais ou menos ortodoxa. Se merece ser, é outra questão, e uma que preocupa o primeiro-ministro britânico, David Cameron.
Durante grande parte dos últimos quatro anos, o Partido Conservador, que governa sob sua liderança -em coalizão com os liberais democratas-, está atrás do Partido Trabalhista nas pesquisas de opinião. Por mais que seja desagradável para Cameron e os conservadores, isso não é uma verdadeira surpresa. O governo dele promoveu um programa doloroso de cortes de gastos públicos visando restaurar a estabilidade econômica, tranquilizar os mercados e reduzir o déficit. A recuperação demorou muito mais tempo do que Cameron e seu ministro das Finanças, George Osborne, esperavam.
Assim, a revelação, na semana passada, pelo Escritório de Estatísticas Nacionais de que a economia britânica cresceu 0,8% no segundo trimestre representa para o principal partido do governo o que Osborne chamaria de "marco não-eleitoral", como ele gosta de descrever grandes momentos simbólicos. A importância dos números mais recentes é que o produto interno bruto do país atualmente está maior do que antes da crise financeira de 2008.
A partir dessas estatísticas, os conservadores estão elaborando uma narrativa de paciência recompensada e estratégia justificada. Há não muito tempo, os oponentes de Osborne –tanto em outros partidos quanto no seu próprio– alertavam para uma recessão de "triplo mergulho" e saboreavam o desastre de sua apresentação do orçamento de 2012, considerada totalmente desastrosa.
A questão é se a recuperação econômica chegou a tempo de proporcionar uma vitória para os conservadores nas eleições gerais de maio –ou se, ao menos, é um resultado bom o bastante para que formem um segundo governo de coalizão. As pesquisas ainda indicam que o Partido Trabalhista está quatro ou cinco pontos à frente, o suficiente para conduzir seu líder, Ed Miliband, a Downing Street. A esperança de Cameron é que, no dia da eleição, um número suficiente de eleitores já tenha sentido o retorno da prosperidade nacional a ponto de mantê-lo no cargo. O eleitorado pode não se sentir inspirado pelo atual primeiro-ministro, mas por que se arriscar?
A suposição por trás dessa questão retórica é arriscada. Como colocou o ex-primeiro-ministro conservador, sir John Major, existe uma "recuperação sem votos". A economia britânica estava forte em 1997, mas isso não impediu que ele sofresse uma derrota esmagadora por Tony Blair.
Como argumentou recentemente o cientista político Tim Bale no jornal "The Daily Telegraph", a história das décadas recentes demole a certeza de que há uma simples relação causal entre crescimento e sucesso eleitoral. Em 1963, a tentativa do chanceler conservador Reginald Maudling de estimular a demanda doméstica –a "arrancada para o crescimento"– ocorreu tarde demais para impedir uma vitória trabalhista em 1964, um precedente perturbador para Cameron e Osborne.
Igualmente, o desemprego elevado não impediu Margaret Thatcher de vencer por boa margem em 1983. O que contou foi a percebida incompetência econômica dos trabalhistas e a convicção do público de que a trajetória de Thatcher era acertada. O professor Bale (um colega na Queen Mary, University of London, onde sou professor visitante) está certo ao insistir que a relação entre sucesso econômico e político é "bem mais complicada do que muitos de nós imaginam".
Desta vez, as nuances são as consequências sociais e políticas da crise. A pior resposta possível aos números da semana passada seria os conservadores declararem um retorno aos "negócios como de costume". A irresponsabilidade do setor financeiro e o fracasso global da classe política em promover uma regulação robusta não foram esquecidos nem perdoados.
A confiança no processo político caiu vertiginosamente. O capitalismo permanece o único sistema viável de organização econômica, mas ele perdeu seu status como religião secular. Aqueles que nos governam não podem esperar um afago na cabeça por números de crescimento. Em 2014, o público quer saber se a nova prosperidade é genuinamente um fenômeno nacional, uma recuperação para muitos, não de uns poucos. Não se trata de um pedido por coletivismo desenfreado ou igualitarismo absoluto, mas a crise deu valor adicional à decência, à solidariedade e à capacidade do capitalismo de distribuir riqueza e proteger os vulneráveis.
Cameron e Osborne estão cientes desse desafio. Mesmo antes de Cameron se tornar o líder conservador, ele reconheceu que "liberalismo econômico não basta". Em um discurso ao Instituto da Empresa Americana em abril, Osborne reconheceu que "a própria legitimidade de nosso sistema de livre mercado depende da promessa de que esse esforço é recompensado e a prosperidade é compartilhada". A questão é se o eleitorado britânico ouvirá isso e acreditará. A direção do governo é clara, sua competência essencial foi estabelecida. Então, por que "trocar de cavalos no meio do caminho"? Fazê-lo, de fato seria um risco, mas afirmar isso não basta para assegurar a vitória. Na nova paisagem pós-crise, os eleitores britânicos precisam de mais garantias do que nunca a respeito de quem está montando o cavalo e o que enche seu coração.
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