Antigo porto seguro para refugiados sírios na Turquia começa a ter sinais de tensão
Ceylan Yeginsu - NYT
Bulent Kilic/AFP
Mulher
síria pede esmolas com os filhos no centro da cidade de Istambul, na
Turquia, país que tem recebido dezenas de milhares de refugiados sírios
em sua capitalUm menino sírio estava em um banquinho branco sob uma bandeira turca gigante na Praça Taksim, vendendo água fria numa noite quente da semana passada. Seus esforços para vender passavam despercebidos até que um adolescente turco se aproximou dele e puxou-o pela orelha, repreendendo o menino por trabalhar em seu território. "Esses sírios não têm vergonha. Roubam nossos pontos quando vamos quebrar o jejum", disse Ibrahim Esin, 18, referindo-se ao jejum diário durante o mês de Ramadã, que terminou na segunda-feira (28). "Eles ficam por aqui como moscas, mendigando nas ruas ou roubando nossos clientes. É uma verdadeira chateação".
Poucos dias depois, os refugiados sírios, que durante muitos meses eram facilmente encontrados nas ruas, dormindo em parques e acocorados em casas abandonadas, sumiram do centro de Istambul. "A prefeitura veio e levou todos embora", disse um funcionário de um restaurante na principal rua comercial da cidade, Istiklal.
O governo diz que há 67 mil refugiados registrados em Istambul, embora vários relatórios de organizações não-governamentais estimem o número não oficial em 200 mil. Sua presença está promovendo ressentimento aqui, e alguns turcos exigem que os sírios em Istambul sejam enviados de volta para os campos. O governo respondeu na semana passada, recolhendo os refugiados sírios em toda a cidade e colocando-os em ônibus de volta para os campos no sul.
Refúgio
Istambul, uma cidade de 14 milhões de habitantes, vem atraindo os refugiados desde o final do século 15, quando os judeus da Espanha fugiram da Inquisição e se instalaram na capital otomana. Os mendigos sírios passeiam pelo tráfego intenso, às vezes vendendo água e lenços de papel. Mais frequentemente, irritam os motoristas batendo nas janelas com as palmas das mãos abertas estendidas. Outros refugiados viraram camelôs, em uma tentativa de preservar a sua dignidade, dizem eles, mas seus esforços têm criado ressentimento entre os vendedores turcos que não apreciam a competição.
O governo turco, opositor do presidente da Síria, Bashar Assad, não previu que a guerra na Síria ia durar tanto tempo. Quando a Turquia abriu sua fronteira aos refugiados em 2011, o governo presumiu que os dias de Assad estavam contados e que os refugiados em breve voltariam para casa.
Agora, a Turquia enfrenta suas próprias ameaças de segurança em uma região cada vez mais instável. Há combatentes jihadistas se refugiando em sua fronteira com a Síria, e seus colegas extremistas no Iraque levaram dezenas de diplomatas turcos como reféns. O afluxo de refugiados está transformando o tecido social das grandes cidades, provocando protestos violentos.
Em uma manifestação recente em Kahramanmaras, uma cidade no sudeste da Turquia, manifestantes armados com facas gritavam "Nós não queremos sírios!" enquanto atacavam os comerciantes sírios.
Acomodação
As autoridades já começaram a reconhecer que os refugiados vão ficar na Turquia por um tempo, mas, segundo os analistas, a Turquia não tem uma estratégia de longo prazo para acomodá-los. "Os ataques contra os refugiados que temos testemunhado ao longo das últimas semanas são alarmantes, e o governo precisa tomar precauções, mas isso não significa arrancar os refugiados das cidades e prendê-los em campos lotados", disse Piril Ercoban, coordenador administrativo da Associação de Solidariedade aos Refugiados, uma organização não-governamental turca. "Enviar pessoas para esses campos à força e isolá-las da sociedade é contra os direitos humanos e, embora possa soar duro, tais ações estão começando a tornar esses lugares semelhantes a campos de concentração".
Em alguns bairros de baixa renda no histórico bairro de Fatih, em Istambul, os refugiados trabalham ilegalmente, e famílias extensas vivem em apartamentos minúsculos. Mustafa Shihabi, 30, mora com 16 familiares e convidados em um apartamento de três quartos. Recentemente, na sala -que tem dois sofás, uma televisão e um Alcorão compartilhado-, os membros da família assistiam a notícias recentes sobre a guerra em casa, na Síria.
Shihabi recentemente perdeu o emprego em uma fábrica de sacolas onde ganhava US$ 150 (em torno de R$ 350) por semana. Seus dois irmãos, os únicos outros membros da família que encontraram trabalho, só conseguiram pagar a metade do aluguel mensal de US$ 750. "No mês passado, o meu patrão não me pagou", disse Shihabi. "Ele fechou a oficina e partiu para Adana, sem qualquer explicação. O nosso senhorio está irritado e disse-nos que, se não pagarmos, vamos ser expulsos sem aviso prévio".
A ansiedade de Shihabi é compartilhada por sua família e por muitos refugiados aqui que, sem a proteção das leis trabalhistas turcas, veem-se em situação vulnerável. "Ouvi dizer que eles vão enviar as pessoas de volta aos campos. Isso é verdade?", perguntou o pai de Shihabi, Adnan, que descreveu os acampamentos como prisões. Shihabi tentou tranquilizar o pai, dizendo-lhe os esforços do governo são direcionados aos mendigos.
Fora do apartamento, a vida se desenrola de forma harmoniosa para turcos e refugiados, mas alguns moradores duvidam que a paz possa ser duradoura. "Os sírios são boas pessoas, mas é difícil de tolerar 32 pessoas compartilhando um quarto", disse Cemal Nazlica, turco proprietário de uma loja de móveis, acrescentando que os refugiados estariam melhor nos campos. "Eles fazem muito barulho e têm um longo caminho a percorrer para aprenderem o nosso jeito", acrescentou.
Enquanto Nazlica sentava à sua porta lendo o jornal, dois parentes de Shihabi passaram reclamando sobre os legumes caros que tinham comprado no mercado local. "Todos os dias você tem que gastar dinheiro em Istambul", disse Saniha Adbad, 54. "Pelo menos, nos campos, tudo é gratuito. Na Síria eu tinha um emprego. Eu era costureira e minha carteira estava cheia de dinheiro. Agora veja o que eu tenho", disse ela, arrancando uma moeda de 10 centavos do bolso. "Nada".
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