Mercosul é mais grupo ideológico que bloco comercial
O projeto de integração por meio do comércio
foi adiado de uma vez por todas. Até porque a Argentina, em crise
cambial, empurrará o comércio para o fundo do poço
O Globo
Admitamos que o estratégico projeto do Mercosul, a união aduaneira
criada entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai houvesse dado
minimamente certo. Ainda assim, a crise de dimensões institucionais por
que passa a Argentina desse 2001, com a implosão do câmbio fixo, seria
um obstáculo muito difícil de transpor pelo mercado comum.
As
dificuldades da Argentina, o segundo parceiro mais importante do bloco,
já teriam levado a uma revisão do tratado do Mercosul, para reduzir sua
abrangência a uma aliança de livre comércio, a fim de que cada país
pudesse negociar acordos comerciais sem a camisa de força da união
aduaneira. Só não aconteceu por razões político-ideológicas.
Aliás, a união aduaneira foi revogada na prática há muito tempo, desde
que a Argentina passou a erguer barreiras protecionistas contra
exportações brasileiras. Ali, a união acabou de fato. Sua característica
são fronteiras abertas ao comércio entre países do bloco, com tarifas
externas comuns para o resto do mundo. É o que não existe há tempos.
O
Mercosul é mantido formalmente como está apenas por interesses
político-ideológicos comuns aos governo do PT no Brasil, ao kiercherismo
na Argentina, bolivarianos e chavistas em Venezuela, Equador e Bolívia.
Para a conversão do Mercosul de bloco econômico e comercial em
plataforma política foi essencial a coincidência de Lula e Néstor
Kirchner chegarem ao poder em Brasília e em Buenos Aires juntos, em
2003. Ambos se uniram para soterrar de vez as negociações em torno da
Alca (Área de Livre Comércio das Américas), vista pelo Planalto e Casa
Rosada como instrumento do “Império”. A partir da aliança entre
Lula/PT/Dilma e os Kirchner, o resto veio pela força da gravidade.
Um
dos piores momentos do período em curso foi a no mínimo temerária
inclusão da Venezuela chavista no bloco, por meio de vergonhosa manobra
de expulsão temporária do Paraguai, para que a não aprovação da entrada
do novo sócio pelo Congresso paraguaio não impedisse a unção dos
chavistas.
A última reunião de cúpula do Mercosul, esta semana, em
Caracas, foi prova irrefutável da conversão da entidade numa plataforma
política: boa parte do tempo foi gasta com declarações de apoio à
Argentina de Cristina Kirchner, convertida em vítima de fundos
“abutres”, por terem estes ganhado na Justiça americana seus direitos
como credores, e críticas a Israel pelos ataques em Gaza.
Para
fortalecer o projeto de um Mercosul como trincheira política
terceiro-mundista, tratou-se de incorporar também a Bolívia de Evo
Morales, outro produto do chavismo.
Pode-se considerar que o
projeto original do Mercosul, de integração de economias pelo comércio,
foi adiado de uma vez por todas. Até porque a Argentina, em fase de
agravamento da sua crise cambial, empurrará ainda mais o comércio no
bloco para o fundo do poço. Resta fazer discurso, como em Caracas.
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