sábado, 2 de agosto de 2014

Argentina tenta se refugiar na bandeira contra 'abutres especuladores'
Francisco Peregil - El País
Natacha Pisarenko/AP/Arquivo
Argentinos convivem com slogan "pátria ou abutres" por problemas econômicos Argentinos convivem com slogan "pátria ou abutres" por problemas econômicos
Em um país de grandes criadores publicitários, onde todo ano surgem dezenas de slogans memoráveis, existe um genial, criado em 1946, que acompanhou, desde então, a história do país. Para muitos argentinos, basta ver a data e já adivinham qual é. O general Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-1974) aspirava a seu primeiro mandato presidencial. E tinha contra ele nada mais nada menos que o embaixador dos EUA, grande intermediário das forças de oposição. Chamava-se Spruille Braden.
Além de embaixador, era magnata dos minérios e do petróleo. Ele denunciou a influência nazista no regime de Perón. Mas o general aniquilou seu rival com um lema de apenas três palavras: "Braden ou Perón". Ou seja, EUA ou Argentina; o lacaio do império ou o grande defensor dos pobres, a sujeição servil à potência mundial ou a soberania de um povo, a hesitação diante dos interesses das multinacionais gringas ou a defesa dos interesses argentinos.
Mas sempre tem de ser branco ou preto, civilização ou barbárie (outra das dicotomias clássicas argentinas)? Foi em certa época "Reino Unido ou Argentina", quando da guerra das Malvinas. E não houve lugar para matizes. Embora os que punham o povo diante desse dilema fossem os militares da ditadura. O amor à pátria pôde mais que o ódio aos ditadores. E o povo apoiou a guerra.
Agora, na Casa Rosada se fomenta o lema "Pátria ou abutres". Quer dizer: o povo ou os especuladores impiedosos de Wall Street; soberania nacional ou sujeição à justiça dos EUA, que por sua vez estaria submetida aos abutres. E, caso não se capte a mensagem, podem-se ver, hoje em dia, cartazes em vários municípios de Buenos Aires que dizem: "Ontem, Braden ou Perón. Hoje, Cristina ou Griesa", referindo-se ao juiz Thomas Griesa, que decidiu a favor dos fundos litigantes.
O apelo ao sentimento pátrio sempre funciona. Cristina Kirchner subiu nas pesquisas conforme endureceu seu discurso contra força os "abutres". Poucos rivais com pior imagem haverá no mundo que fundos de investimento que se dedicam a especular com a dívida soberana de países em crise. E poucas palavras mais gráficas que "abutres". O mais oposto ao amor pela bandeira seriam os abutres, que chegaram a confiscar a fragata Libertad, nave símbolo e escola da marinha argentina.
E depois de enfrentar os abutres durante anos e perder contra eles as principais batalhas jurídicas travadas, coube pintar a derrota com tintas épicas. E negar a maior: "A Argentina não entra em suspensão de pagamentos porque pagou". Depois, é preciso desqualificar as agências de classificação de risco que falam em suspensão de pagamentos seletiva ou restrita. E, ao mesmo tempo, desqualificar o juiz. E, claro, também os EUA - o inimigo último -, apesar de o presidente Barack Obama ter apoiado a Argentina nesse processo.
Assim, o chefe de Gabinete, Jorge Capitanich, em vez de explicar como o país abordará a situação em que se encontra, envolveu-se na quinta-feira na gloriosa bandeira e declarou: "se há um juiz que se confunde, que não toma decisões, que é claramente um agente dos fundos abutres, se o mediador é um agente dos abutres, se o poder judicial está cooptado pelos abutres... de que justiça me falam? E de que independência do poder judicial me falam? Aqui há uma responsabilidade de um Estado. E é a responsabilidade dos EUA... Para gerar as condições de respeito irrestrito à soberania dos países".
Pátria ou abutres. E se há algum economista, jornalista ou dirigente de oposição disposto a alegar que a Argentina deveria acatar a sentença de um juizado cuja jurisdição aceitou; se alguém se atreve a dizer que é preciso pagar os credores, por mais desprezíveis que possam ser, uma vez que ganharam todos os julgamentos possíveis... então se reativará imediatamente o artifício do "Pátria ou abutres". O argentino em questão passará a ser catalogado imediatamente como um "cipayo", leia-se um traidor, um vende-pátria, cúmplice dos abutres. O pior do pior.
Só o tempo costuma se encarregar de desmascarar o mau uso da bandeira. Mas costuma chegar tarde.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Nenhum comentário: