sábado, 2 de agosto de 2014

Nova onda de violência atinge oeste chinês por repressão contra uigures
Harold Thibault - Le Monde
AP
Foto de janeiro mostra tropas paralimitares treinando na neve em Xinjiang Foto de janeiro mostra tropas paralimitares treinando na neve em Xinjiang
O grande oeste chinês afundou-se ainda mais em uma espiral de violência, entre a repressão governamental e a vingança radical da minoria uigur. Houve confrontos violentos na região de Xinjiang, na segunda-feira (28), mas a agência de notícias estatal, Xinhua, ateve-se a informações vagas, anunciando, somente no dia seguinte, que "dezenas de uigures e de hans foram mortos e feridos" em um "ataque terrorista premeditado."
Segundo essa versão oficial, uma gangue de agressores armados com facas teria atacado uma delegacia de polícia, além de prédios públicos no vilarejo de Elishku, 200 quilômetros ao sul de Kachgar. Os policiais teriam então aberto fogo, matando dezenas deles.
O Congresso Mundial Uigur, organização da dissidência no exílio, desprezada por Pequim, afirma que pelo menos 20 membros dessa minoria muçulmana morreram e outros 10 ficaram feridos, ao passo que 13 homens das forças de segurança chinesa foram mortos ou feridos. Além disso, cerca de 60 pessoas teriam sido presas.
Segundo depoimentos obtidos pela Radio Free Asia, mídia financiada pelo Congresso americano, uma das causas do ataque poderia ter sido a morte de uma família, entre eles um menino e seu avô, durante uma batida policial, que terminou mal na casa de um vilarejo vizinho onde as autoridades pretendiam limitar o uso do véu por parte das mulheres durante o ramadã.
Corte de internet
Entrevistadas por telefone, três pessoas confirmaram, na quarta-feira (30), que houve o corte total do acesso à internet em torno de Yarkant, a cidade mais próxima, não longe dos desfiladeiros que levam às fronteiras tadjique e paquistanesa. Uma delas explicou que também não é possível enviar SMS e que certos bairros estão sob toque de recolher.
O abismo entre o discurso chinês, que fala sobre seus esforços a favor do desenvolvimento econômico, e o ressentimento que fermenta entre os uigures, que veem essa presença como a alienação de sua região em prol da etnia Han, maioritária na China, se expressa no aumento do número de ataques.
E agora esses ataques estão saindo do contexto geográfico da região de Xinjiang. No início de maio, quatro agressores munidos de facas feriram seis transeuntes na estação de Cantão, a 3 mil quilômetros de lá. Dois meses antes, 29 pessoas haviam sido mortas e 130 feridas em acontecimentos similares em Kunming, ao sul.
Reagindo a eles, Pequim endureceu um pouco mais seu controle. Em visita de quatro dias a Xinjiang no final de abril, o presidente Xi Jinping insistiu na luta contra o terrorismo e a necessidade de "atacar primeiro", alinhando-se aos elementos mais duros dentro do Partido Comunista sobre a questão das minorias, enquanto ele avança em sua principal agenda: a liberalização econômica, a urbanização e uma campanha anticorrupção que lhe permita afirmar seu poder político.
Xi havia acabado de deixar a capital da região após sua visita na primavera quando uma bomba matou três pessoas e feriu outras 79 na estação de Urumqi. "Todo sistema colonial produz sua resistência clandestina, sendo que parte dela adota a violência. Não há mais a fachada de integração dos uigures na sociedade chinesa em igualdade com o resto dos cidadãos", acredita Nicholas Bequelin, pesquisador para a Human Rights Watch na China, em Hong Kong.
Assassinato
Um possível novo sinal da radicalização da fúria uigur e das divisões dentro da própria comunidade é o corpo que foi encontrado em meio a uma poça de sangue na quarta-feira (30) de manhã, do lado de fora da sala de orações da mesquita Id Kah, a maior do país, no centro de Kashgar. Segundo a Radio Free Asia, o corpo seria do imã da mesquita, Jume Tahir, figura controversa entre os uigures, pois era visto como próximo demais do governo chinês.
A mídia oficial, às vezes, o elegia como modelo. A propaganda do governo, por exemplo, o citou após os tumultos de Urumqi, que resultaram em quase 200 mortos em 2009 e constituíram um divisor de águas nas relações entre a minoria e a administração chinesa. Dois meses depois, o imã comemorava junto à agência Xinhua: "Nossas crenças religiosas legais estão sendo plenamente respeitadas".
Também na quarta-feira, os juízes acusaram formalmente de "separatismo" o intelectual Ilham Tohti, acadêmico que defendia "uma melhor compreensão" entre hans e uigures. Até ele ser detido em janeiro e transferido de Pequim a Urumqi, ele continuava sendo a única personalidade uigur independente a se exprimir publicamente dentro da República Popular e a ousar questionar sua política.
Parte das provas contra ele serão textos de seu website e algumas de suas aulas. Seu advogado, Li Fangping, explica que nem foi informado pelo tribunal de justiça de Urumqi. "Eu também descobri pela internet", ele lamenta, pelo telefone.

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