sábado, 2 de agosto de 2014

Turquia mostra ambiguidades diante do Estado islâmico
Guillaume Perrier - Le Monde
Vadim Ghirda/AP
Em julho, grupo cortou o jejum feito para o Ramadã em piquenique ao ar livre Em julho, grupo cortou o jejum feito para o Ramadã em piquenique ao ar livre
No dia 11 de junho, Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do EI (Estado islâmico), instalou, discretamente, seu quartel-general no prédio do consulado geral da Turquia em Mossul. Logo nas primeiras horas da tomada da cidade, os jihadistas se apoderaram do prédio e tomaram como reféns funcionários – diplomatas e membros das forças especiais – e suas famílias. Ao todo, 49 pessoas, dentre elas o cônsul Ozturk Yilmaz, ainda estão sendo retidas em um ponto da cidade mantido em segredo. O califa Al-Baghdadi aparentemente passaria várias horas por dia nesse consulado. "Virou o escritório deles", explica o ex-governador da província de Nínive, Athil al-Nujaifi. Uma ocupação confirmada por um diplomata turco, que falou sob anonimato.
A opinião pública turca, no entanto, mal sabe o que está sendo tramado em Mossul. Alguns dias após a invasão, o governo islâmico-conservador de Recep Tayyip Erdogan ordenou a votação de uma lei que proíbe a mídia de realizar qualquer debate ou reportagem sobre a situação dos diplomatas turcos. Essa censura por decisão judicial já havia sido aplicada em maio de 2013, após o duplo atentado a carro-bomba de Reyhanli, na fronteira síria, que causou mais de 50 mortos e dezenas de feridos. E, mais recentemente, após a inspeção policial de uma misteriosa carga de armas, na mesma região fronteiriça.
O califado "restabelecido" pelo Estado Islâmico no norte da Síria e do Iraque, nas fronteiras com a Turquia, é um assunto incômodo para Ancara. Primeiro porque milhares de cidadãos turcos teriam partido para combater junto com o grupo jihadista nos últimos meses. Mais de 5 mil voluntários, de acordo com o deputado da oposição (Partido Republicado do Povo, CHP) da cidade fronteiriça de Gaziantep, Mehmet Seker, o que exporia a Turquia à ameaça terrorista. Segundo porque as autoridades por muito tempo fecharam os olhos para a passagem desses rebeldes ao longo da fronteira turco-síria e para as atividades de seus apoiadores em solo turco.
Piquenique
Associações de fachada do EI chegaram a surgir em manifestações. No dia 27 de julho, um piquenique organizado em Istambul por um grupo de islamitas radicais teria reunido apoiadores do Estado islâmico. Os militantes teriam lançado chamados ao jihad, acusa o deputado da oposição (CHP) e advogado Sezgin Tanrikulu.
Hoje, a cooperação se acentuou com os serviços de inteligência ocidentais para interceptar os combatentes estrangeiros quando eles voltam do território sírio.
Mas a diplomacia turca não considera o EI como uma ameaça direta à sua segurança, observa uma fonte no Ministério das Relações Exteriores. Recep Tayyip Erdogan se mostra cauteloso sobre esse assunto. "Ninguém deve esperar que eu provoque o Estado Islâmico. É o que eles esperam", ele declarou, após a tomada de reféns em Mossul. A oposição suspeita que o primeiro-ministro esteja negligenciando o risco desses grupos radicais. "Um muçulmano não pode se mostrar cruel para com outro irmão muçulmano", ele ainda declarou durante uma refeição de quebra do jejum do ramadã, no início de julho.
Tanto na Turquia como na Síria, os curdos próximos da esfera do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ainda acusam Ancara de apoiar os jihadistas. O EI entrou em uma violenta batalha com os combatentes curdos pelo controle da cidade de Kobani, situada na fronteira turca. Várias cidades do lado turco chegariam a servir de base de apoio, afirmou Salih Muslim, o líder do PYD (Partido para a União Democrática), o braço sírio do PKK. A guerrilha curda e seus intermediários políticos lançaram uma mobilização, e cerca de 800 curdos da Turquia teriam partido para combater em Kobani nas últimas semanas, afirmou a guerrilha.
O exército turco tem tido dificuldades para permanecer neutro nessa batalha. Posições curdas foram bombardeadas várias vezes desde meados de julho. Confrontos resultaram em pelo menos nove mortes perto de Ceylanpinar, incluindo três soldados turcos. As forças armadas imediatamente acusaram "os terroristas do PKK", e Erdogan declarou, na segunda-feira (28), hesitante, que havia sido o PYD. Os militantes curdos negam qualquer envolvimento e acusam os jihadistas do EI. Seria mais um incidente que o governo prefere abafar?
Nesta foto do dia 3 de julho, uma família iemenita aguarda para quebrar o jejum ritual durante o mês sagrado do Ramadã, em Sanaa, no Iêmen. O jejum é um exercício físico e mental para aproximar os fieis de Deus e aumentar a empatia com os pobres Hani Mohammed/AP

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