O conservador Passos Coelho aspira a ser o primeiro governante da UE que revalida seu mandato depois de completar um programa de cortes e privatizações
Javier Martín - El País
Miguel A. Lopes/EFE
1.out.2015 - Passos Coelho faz campanha para reeleição em CoimbraNa última quarta-feira (30), os funcionários do Fundo Monetário Internacional (FMI) fecharam o escritório em Lisboa e voltaram para casa. Caso encerrado. Foram quatro anos aplicando a receita da austeridade e um "enorme aumento de impostos", como anunciara inocentemente na época o ministro das Finanças.
Neste domingo, os portugueses irão às urnas para apoiar ou não o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, o executor de cortes sociais e enormes privatizações, o aluno mais aplicado da troica (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia). Embora pareça incrível, as pesquisas o dão como vencedor.
O conservador Passos Coelho, líder do Partido Social Democrata (PSD-PP, de centro-direita), chegou ao poder em junho de 2011, um mês depois que a troica se instalou em Portugal e entregou seu memorando para a salvação econômica do país, a terceira desde a Revolução dos Cravos (1974), que pôs fim à ditadura.
A receita
não o assustou. "Iremos além da troica", declarou Passos Coelho poucos
meses depois. "O caos é uma oportunidade para mudanças", argumentou.
Para esse homem frio e determinado, a troica, mais que uma praga, foi
uma bênção, a desculpa perfeita para enfrentar mudanças difíceis para a
população portuguesa. E cumpriu.
Suprimiu os 18 governadores civis, 25% dos conselhos [vereadores], 40% das empresas municipais, reduziu embaixadas e consulados, salários e aposentadorias, escolas, juizados e hospitais. Mas cortar gastos não era suficiente.
Em plena crise econômica, as receitas só podiam vir das magras rendas dos portugueses. As altas taxas do imposto de renda aumentaram 3,5% e o IVA (Imposto sobre o Valor Agregado) da restauração passou de 13% a 23%. Até para ser atendido em emergência, vivo ou moribundo, criança ou velho, era preciso passar pelo caixa (hoje os menores não pagam). Tampouco bastou. Nesses quatro anos, Passos Coelho privatizou os correios, o serviço de eletricidade, as linhas aéreas, as instalações dos aeroportos, os seguros, a gestão do metrô e os ônibus da cidade do Porto.
Agora, o político conservador apresenta resultados: de 9,8% do PIB em 2010 o deficit ficará abaixo de 3% este ano; o desemprego caiu de 17,5% para 12,4%; o país cresce acima da média da UE e a arrecadação do IVA aumenta 9%. Até a dívida diminui pela primeira vez na história.
Em seus comícios, Passos Coelho não promete o fim das penalidades, só "seguir o rumo", uma vez "liberado da ditadura financeira", como reconheceu nesta semana em Coimbra. "Estamos falando há quatro anos de finanças e de economia, e agora que estão em ordem podemos voltar a dar plena dignidade à política." E agita o fantasma grego para quem seja tentado a votar na esquerda.
Sua vitória não está garantida, menos ainda o governo de coalizão formado por seu partido e o Centro Democrático Social (CDS) de Paulo Portas. As diferentes forças de esquerda, encabeçadas pelo Partido Socialista de Antonio Costa, poderiam somar maioria. Costa promete baixar o IVA a 13%, restituir os cortes aos funcionários públicos na metade do tempo que o PSD-CDS e baixar a contribuição da seguridade social, mas em troca de receber menos pensão.
Um discurso econômico não muito diferente daquele da centro-direita do PSD-CDS, como acusa o comunista Jerônimo de Souza. Sem ele, não há maioria de esquerda. O líder comunista é o avô que todo neto gostaria de ter. De palavra suave, é inflexível no cortejo ao PS. "Como seria perigoso e inaceitável que, em nome de um mal menor, este partido - o partido da verdade, da coerência, que esteve na primeira fila da luta com os trabalhadores - abdicasse da defesa dos interesses do povo português e da soberania nacional em troca de uma mudança de figurinhas."
Segundo as pesquisas, seu discurso monolítico vive os momentos mais felizes desde os anos 1980, com 12% dos votos e cerca de 20 assentos, à frente do Bloco de Esquerda apoiado pelo Podemos. O clássico PC português não teme o Syriza: "Tais movimentos já existiram há muitas décadas", lembra Sousa, impassível.
"O Partido Comunista é um fator de estabilidade institucional e motivo fundamental para que movimentos como o Podemos não peguem em Portugal", explica Marcelo Rebelo de Sousa, o principal analista político do país e provável candidato à Presidência.
Também é um fator de estabilidade para os grupos econômicos, pois seu programa radical (saída do euro, renegociação da dívida) torna impossível fazer bloco com o PS. Fernando Ullrich, diretor-geral do banco BPI, não se preocupa que Passos Coelho ou Costa ganhe. "A margem de manobra de um governo socialista para fazer coisas diferentes é muito pequena, porque o país continuará condicionado pela UE, pelo euro e pelos mercados."
A da Intercampus oferece estes resultados: CDS-PP, 38,8%; PS, 31,6%; PC-Verdes, 8,2%; e o Bloco de Esquerda, 7,9%.
As pesquisas de intenção de voto, publicadas diariamente, estimam em 21,4% a porcentagem de indecisos; 50,8% não respondem.
Suprimiu os 18 governadores civis, 25% dos conselhos [vereadores], 40% das empresas municipais, reduziu embaixadas e consulados, salários e aposentadorias, escolas, juizados e hospitais. Mas cortar gastos não era suficiente.
Em plena crise econômica, as receitas só podiam vir das magras rendas dos portugueses. As altas taxas do imposto de renda aumentaram 3,5% e o IVA (Imposto sobre o Valor Agregado) da restauração passou de 13% a 23%. Até para ser atendido em emergência, vivo ou moribundo, criança ou velho, era preciso passar pelo caixa (hoje os menores não pagam). Tampouco bastou. Nesses quatro anos, Passos Coelho privatizou os correios, o serviço de eletricidade, as linhas aéreas, as instalações dos aeroportos, os seguros, a gestão do metrô e os ônibus da cidade do Porto.
Agora, o político conservador apresenta resultados: de 9,8% do PIB em 2010 o deficit ficará abaixo de 3% este ano; o desemprego caiu de 17,5% para 12,4%; o país cresce acima da média da UE e a arrecadação do IVA aumenta 9%. Até a dívida diminui pela primeira vez na história.
Em seus comícios, Passos Coelho não promete o fim das penalidades, só "seguir o rumo", uma vez "liberado da ditadura financeira", como reconheceu nesta semana em Coimbra. "Estamos falando há quatro anos de finanças e de economia, e agora que estão em ordem podemos voltar a dar plena dignidade à política." E agita o fantasma grego para quem seja tentado a votar na esquerda.
Sua vitória não está garantida, menos ainda o governo de coalizão formado por seu partido e o Centro Democrático Social (CDS) de Paulo Portas. As diferentes forças de esquerda, encabeçadas pelo Partido Socialista de Antonio Costa, poderiam somar maioria. Costa promete baixar o IVA a 13%, restituir os cortes aos funcionários públicos na metade do tempo que o PSD-CDS e baixar a contribuição da seguridade social, mas em troca de receber menos pensão.
Um discurso econômico não muito diferente daquele da centro-direita do PSD-CDS, como acusa o comunista Jerônimo de Souza. Sem ele, não há maioria de esquerda. O líder comunista é o avô que todo neto gostaria de ter. De palavra suave, é inflexível no cortejo ao PS. "Como seria perigoso e inaceitável que, em nome de um mal menor, este partido - o partido da verdade, da coerência, que esteve na primeira fila da luta com os trabalhadores - abdicasse da defesa dos interesses do povo português e da soberania nacional em troca de uma mudança de figurinhas."
Segundo as pesquisas, seu discurso monolítico vive os momentos mais felizes desde os anos 1980, com 12% dos votos e cerca de 20 assentos, à frente do Bloco de Esquerda apoiado pelo Podemos. O clássico PC português não teme o Syriza: "Tais movimentos já existiram há muitas décadas", lembra Sousa, impassível.
"O Partido Comunista é um fator de estabilidade institucional e motivo fundamental para que movimentos como o Podemos não peguem em Portugal", explica Marcelo Rebelo de Sousa, o principal analista político do país e provável candidato à Presidência.
Também é um fator de estabilidade para os grupos econômicos, pois seu programa radical (saída do euro, renegociação da dívida) torna impossível fazer bloco com o PS. Fernando Ullrich, diretor-geral do banco BPI, não se preocupa que Passos Coelho ou Costa ganhe. "A margem de manobra de um governo socialista para fazer coisas diferentes é muito pequena, porque o país continuará condicionado pela UE, pelo euro e pelos mercados."
Alta porcentagem de indecisos
Segundo pesquisa da Universidade Católica, a CDS-PP teria 39% dos votos; o PS, 33%; a PC-Verdes, 11%, e o Bloco de Esquerda, 8%.A da Intercampus oferece estes resultados: CDS-PP, 38,8%; PS, 31,6%; PC-Verdes, 8,2%; e o Bloco de Esquerda, 7,9%.
As pesquisas de intenção de voto, publicadas diariamente, estimam em 21,4% a porcentagem de indecisos; 50,8% não respondem.
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