Wolfgang Münchau - DN
Ao entrarmos na segunda metade da segunda década do século observamos a existência de três linhas divisórias dentro da UE. Uma divide o Norte próspero do Sul endividado. Uma segunda separa uma franja eurocética de um centro europeísta. Uma terceira situa-se entre um Ocidente socialmente liberal e um Leste cada vez mais autocrático. Este é um cenário de desintegração e de fratura.
É
difícil fazer previsões específicas para 2016. Há, evidentemente,
muitos riscos conhecidos. Um referendo britânico sobre a permanência na
UE. O fluxo constante de refugiados. O agravamento dos desequilíbrios
económicos. A crise na Grécia. O quase insolvente sistema bancário
italiano e tensões iminentes entre a Alemanha e os países periféricos da
zona euro sobre a política orçamental. Uma onda de terrorismo
jihadista. A incerteza política em Espanha e em Portugal. A crise na
Ucrânia, ainda longe de estar resolvida. O escândalo das emissões
Volkswagen, que se desvaneceu nas consciências, mas corre o risco de
minar um dos pilares remanescentes da força industrial do continente.
Com
tantas crises a acontecer em simultâneo, acho que é mais útil olhar
para o cenário no seu todo - para o risco sistémico que não surge de uma
qualquer crise em particular, mas do enfrentar tantas delas ao mesmo
tempo.
Depois de se recuar um pouco, a
multiplicidade de crises começa a parecer menos acidental. Se se criar
uma união monetária sem instituições económicas, políticas orçamentais e
sistemas jurídicos comuns, é certo que se acaba com um desastre. Da
mesma forma, uma zona de livre circulação sem uma guarda costeira e
controlos de fronteiras comuns não pode durar.
Existe
aqui um padrão. A UE tem uma tendência inata para entendimentos podres e
construções que só funcionam em tempo de bonança. Nada de fundamental
mudou no ano passado, exceto o facto de este problema se ter tornado
evidente para muito mais gente.
A
rutura, quando chegar, poderá ainda chocar-nos. Mas ela também oferece
oportunidades. Eu penso que o maior erro que a UE poderia cometer seria
continuar como até aqui. É mais provável que as grandes mudanças venham a
ser forçadas diretamente pelos eleitorados - através de um referendo,
como o que terá lugar em breve no Reino Unido - do que pelos políticos e
diplomatas. O processo da UE tem a tendência para evitar deslocamentos
bruscos. As coisas só se desmoronarão quando a pressão das capitais
nacionais se tornar demasiado forte.
Existe
o perigo de que isso possa provocar a desintegração descontrolada. Mas
há boas hipóteses de os líderes políticos da Europa terem a sensatez
suficiente para seguir em frente com um espírito construtivo. Uma
votação no Reino Unido favorável à saída do país da UE pode, a longo
prazo, provocar uma mais ampla transformação da UE num grupo interno de
países que procuram uma integração mais profunda, e num grupo externo,
em que a Grã-Bretanha e outros países se sintam perfeitamente
confortáveis.
Uma rutura na zona euro,
que eu ainda estou à espera de que aconteça a qualquer momento, também
oferece a oportunidade de um realinhamento mais amplo. A partir do
momento em que se pensar no euro como um sistema de taxa de câmbio fixa
com uma moeda comum, em oposição a uma união monetária irreversível, o
nevoeiro levantar-se-á.
Tal sistema só
poderia funcionar entre um pequeno número de países com economias em
grande parte convergentes. A Áustria e a Alemanha mantiveram uma taxa de
câmbio quase fixa desde os anos 1970. Por que não poderiam continuar a
fazê-lo por mais 50 anos? A França e a Alemanha mantiveram uma taxa de
câmbio maioritariamente fixa, desde a década de 1980. Porque haveriam
agora de acabar em lados diferentes de uma taxa de câmbio?
A
argumentação em defesa de uma maior integração económica e política
entre a Alemanha e a França continua a ser fundamentalmente forte -
muito mais forte do que a questão da integração política e económica de
uma União Europeia onde alguns países partilham uma moeda única e outros
não têm qualquer intenção de se lhes juntar.
Nunca
houve uma lógica convincente no argumento de que um mercado único
implica uma moeda única. Mas a lógica inversa é bastante convincente. Os
países com uma moeda única exigem uma integração muito mais profunda do
mercado do que aqueles que mantêm a sua moeda própria. Se aceitarmos a
UE como uma união que contém várias moedas, como deveríamos fazer agora,
teremos de aceitar que ela não é um mercado único, mas um conjunto de
mercados discretos.
Além da
fragmentação económica, a Europa está ficar politicamente dividida entre
o Leste e o Ocidente. Tanto a Hungria como a Polónia elegeram governos
eurocéticos de direita. Ambos os países reduziram a independência do
poder judicial e a liberdade de imprensa. Já há algum tempo que penso
que o alargamento da União não foi a grande oportunidade histórica que
foi anunciada, mas um erro histórico. O alargamento contribuiu para as
divisões da Europa e tornou a UE disfuncional.
Por
isso, eu vejo a fragmentação e a rutura não como ameaças a serem
evitadas, mas como uma oportunidade para ser aprovei-tada. A minha
expectativa para 2016 é a de que vamos assistir a mais ruturas. A minha
esperança é que elas vão ser sabiamente geridas.
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