A moeda número 1
Merval Pereira - O Globo
É crível que um sujeito que tem o apelido de Patinhas
desde a adolescência seja desligado de dinheiro a ponto de não saber
quem depositou U$ 7,5 milhões em uma conta sua? E se essa conta está em
um banco Suíço, escondida da Receita brasileira?
É crível que uma
pessoa que tem uma conta secreta na Suíça desde 1998 seja apenas “um
criador”, que “não trabalha com questão financeira, com questão
bancária”, como definiu seu advogado?
É crível que um
profissional que tem diversas contas, secretas ou declaradas, no
exterior, que recebe “em euro ou dólar”, à escolha do freguês, como sua
mulher Monica Moura escreveu num bilhete para o operador de propinas Zwi
Skornicki, não soubesse que tinha que declarar os ganhos no exterior e
que não podia ter “contas secretas”?
Pois é esta fantástica
história que está sendo contada em Curitiba pelo marqueteiro João
Santana e por sua mulher e sócia Mônica Moura aos Procuradores da
Lava-Jato. O apelido de Patinhas, em referência ao personagem da Disney,
vem da adolescência, quando foi tesoureiro do grêmio nos Maristas, em
Salvador, cargo que exercia com “tirania fiscal única”.
São
histórias tão bizarras que só fazem fortalecer a suspeita de que os dois
montaram um esquema internacional de lavagem de dinheiro.
E o
que dizer das revelações de que a empreiteira brasileira Odebrecht
pagava no caixa 2 campanhas eleitorais em países em que tem obras, como a
Venezuela de Chavez, a Angola de José Eduardo dos Santos e tantos
outros?
Tentando safar-se da acusação mais grave de lavagem de
dinheiro, Patinhas e a mulher admitem caixa 2 e jogam em cima da
Odebrecht toda a culpa pelas irregularidades. E ainda transformam a
empreiteira brasileira em uma máquina de corrupção internacional.
A
Odebrecht vive falando em “valores” para negar, até agora, ter
participado do esquema de corrupção na Petrobras. Mas como admitir que a
empreiteira usa todos os esquemas ilegais no exterior e não use os
mesmos métodos no Brasil?
Até o momento, o marqueteiro e sua
mulher protegem claramente a presidente Dilma. Mas seu testemunho perde
completamente a credibilidade quando vem acompanhado das seguintes
afirmativas: que "nunca manteve qualquer contrato com o poder público no
Brasil" e que "eventuais serviços prestados para o governo federal se
deram a título não oneroso".
Ele acrescentou em seu depoimento
que "foi um doador de serviços ao governo em razão do prazer que isso
lhe gera e da facilidade que possui". Mais uma vez a questão do
dinheiro. Para quem gosta de trabalhar de graça, o marqueteiro João
Santana é uma potência. Ele parece mesmo ter encontrado a moeda número 1
do Tio Patinhas.
Seu patrimônio cresceu mais de 5000% entre os
anos de 2004 e 2014, segundo a Receita Federal. Em 2004, Santana tinha
patrimônio declarado de cerca de 1 milhão de reais, que saltou para
59,12 milhões de reais em 2014. A mulher e sócia Mônica Moura, por sua
vez, declarou patrimônio de aproximadamente 19,5 milhões de reais em
2014, diante de pouco mais de 56.000 reais em 2004.
Pois no
mercado publicitário há quem afirme que João Santana recebe cerca de R$ 1
milhão por mês para assessorar a presidente Dilma.
Zwi
Skornicki vai depor proximamente em Curitiba, e pode acabar de vez com
essa farsa, já que o lobista não atuou nesse mercado de corrupção por
interesses ideológicos ou partidários, mas apenas para fazer negócios.
Um bom negócio para ele agora será uma delação premiada.
Também a
Odebrecht vai ter que se pronunciar a respeito das “revelações” da
mulher de João Santana. Ou persiste na sua posição de que não faz esse
tipo de atuação criminosa - o que a cada dia fica mais difícil de
sustentar – ou sairá do episódio com a imagem de uma empresa metida em
corrupção em diversas partes do mundo.
E por que não no Brasil, onde se descobriu um dos maiores escândalos envolvendo empreiteiras e órgãos públicos?
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