Vou fazer aqui uma confidência. Já votei duas vezes em Jair Bolsonaro
para deputado federal. Nos últimos anos, acho que ele foi o único
candidato que consegui emplacar em qualquer cargo eletivo. Votei nele
porque o considero um nome necessário no Congresso Nacional, onde,
acredito, deveria haver representantes de todos os estratos ideológicos
do país. Ademais, Bolsonaro sempre fez muito bem o papel de combatente
contra as ideias da extrema esquerda, muito bem representadas por
figuras como Luciana Genro, Jean Willis, Maria do Rosário et caterva.Depois da última eleição, em que obteve a maior votação individual de um candidato a deputado no Rio de Janeiro, as pretensões políticas de Bolsonaro parecem ter-se inflado bastante. Hoje, ele percorre o país tentando viabilizar uma candidatura a presidente da república, já tendo inclusive trocado de partido com esse intuito.
Como afirmei acima, malgrado o considere uma figura importante no cenário legislativo nacional, penso que Jair Bolsonaro jamais será um bom presidente – ou sequer um bom candidato a presidente. Não falo nem das suas posturas antiliberais em relação a direitos civis, como casamento gay ou liberação de drogas, mas de política econômica mesmo. Recentemente, o deputado concedeu uma entrevista ao jornal Valor, numa das raríssimas vezes em que falou sobre o tema.
Naquela matéria, em que, entre outras coisas, ele parece gostar de ser comparado a Donald Trump, fica claro que, a exemplo deste, apesar de ser apresentado ao público como um homem de ideias econômicas liberais, o deputado está muito longe disso, estando mais para um intervencionista centralizador, como seus ídolos militares que governaram o país durante a revolução de 1964, período que ele não se cansa de elogiar.
De acordo com o jornal Valor, “Bolsonaro defende princípios da plena liberdade à iniciativa privada – “A classe empresarial são uns heróis rotulados de forma pejorativa como opressores” – que convivem com um ideário vagamente nacionalista. Opinar sobre a independência do Banco Central provoca o momento em que, num giro de 180º, seu pensamento encosta no que defende a esquerda. “Daí eles decidem a taxa de juros de acordo com os interesses dos colegas do mercado financeiro? Então, é melhor o pessoal do Banco Central governar o país como se uma junta fosse”, diz.
Ainda segundo o jornal, “Sua visão [econômica] está voltada para típicas preocupações da época dos militares no poder, como a soberania e exploração de recursos naturais, ou a ideia geopolítica de Brasil potência alinhada aos Estados Unidos.” Não por acaso, foi na época do Governo do General Geisel que se criou o maior número de estatais no país. Não por acaso também, aquele governo tem servido de inspiração à madame Dilma.
Ao falar sobre um dos temas mais caros aos liberais – privatização -, “o deputado se diz contra a do Banco do Brasil – pois prejudicaria o produtor rural – e tem dúvidas em relação à da Petrobras, a qual primeiramente deve ser “despetizada”. “Depois vê se passa à iniciativa privada. Não estou com o conhecimento minucioso dos problemas nacionais”, diz ele, com incomum sinceridade para um candidato a presidente.
Além de tudo isso, Bolsonaro já deu mostras de que conserva um viés altamente nacionalista, típico da educação militar, dando a entender que, também em temas como comércio exterior e imigração, sua visão não difere muito da visão do histriônico Donald Trump, não por acaso um personagem a quem ele não liga de ser comparado.
Em resumo, Jair Bolsonaro tem desempenhado com maestria o papel de anticomunista e, por isso mesmo, tem feito tanto sucesso entre certos setores da direita. Esta função está longe de ser desimportante, e penso mesmo que deveríamos ter mais gente no congresso fazendo companhia a ele. Mas sua pretensão de tentar a presidência da república me deixa de cabelo em pé. Depois de anos petismo, tudo que não precisamos no momento é de mais intervencionismo e centralização na economia.
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