sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

ALEMANHA E O EXEMPLO DA GRÉCIA

Os alemães sobreviveriam a uma crise como a da Grécia?
David Gordon Smith - Der Spiegel
O tempo está acabando para o governo grego, que precisa adotar muitas medidas de austeridade nada populares para assegurar uma segunda rodada de fundos de resgate da UE/FMI. Os comentadores alemães argumentam que o país já sofreu o suficiente, dizendo que agora são necessárias medidas para estimular o crescimento.
Com a aproximação do fim das negociações do resgate da Grécia, as frustrações estão grandes em todos os lados. Os prazos foram sendo estendidos, enquanto partidos do governo de coalizão grego adiaram as reuniões repetidamente.
Na quarta-feira (8), os líderes dos partidos que compõem o governo de coalizão da Grécia finalmente começaram a estudar o documento de 50 páginas que estabelece um acordo que envolve duras medidas de austeridade, redigido pela chamada troika da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. O primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, deveria reunir-se com os líderes dos três partidos de sua coalizão para discutir o acordo no final do dia.
O governo tem que concordar com cortes, se quiser garantir os 130 bilhões de euros (em torno de R$ 300 bilhões) de resgate da União Europeia e FMI, ou será forçado a dar calote na dívida em março. A troika quer que Atenas faça novos cortes em salários do setor privado e em pensões, demita funcionários públicos e corte gastos de saúde, previdência e defesa.
Um acordo deveria ter sido firmado no domingo, mas as negociações entre os líderes de partido foram adiadas repetidamente nos últimos três dias. A reunião de terça-feira foi adiada, supostamente pela necessidade de alguns documentos. Se a coalizão concordar com os princípios do acordo, este será levado ao parlamento grego. Se firmado, o acordo deve se provar impopular junto o povo grego, e alguns observadores em Atenas acreditam que os partidos estão deliberadamente atrasando as negociações para fazer parecer que estão barganhando fortemente com a troika.
“Podemos lidar com a saída da Grécia”
A chanceler alemã Angela Merkel disse na terça-feira que era possível que um acordo fosse fechado até a noite de quinta-feira. Ela também falou, novamente, contra a Grécia deixar a zona do euro. “Quero que a Grécia fique com o euro”, disse ela em um evento em Berlim na noite de terça-feira. “Não vou participar de esforços para forçar a saída da Grécia da zona do euro”.
Do lado da UE, há uma frustração crescente com os adiamentos em Atenas. A falta de progresso levou a Comissária Europeia Neelie Kroes a dizer que a zona do euro poderia sobreviver à partida da Grécia. “Quando um membro parte, não significa ‘homem ao mar’”, disse ela a um jornal holandês em uma entrevista publicada na terça-feira. “Eles sempre disseram que se um país pedisse para sair ou tivesse que sair, então todo o prédio desmoronaria. Mas isso simplesmente não é verdade”.
O primeiro-ministro holandês Mark Rutte também disse que a zona do euro poderia sobreviver sem a Grécia. “Podemos lidar com a saída da Grécia”, disse à uma rede de televisão holandesa na terça-feira.
O ambiente nas ruas gregas pode ser avaliado pelo fato que uma bandeira alemã foi queimada em Atenas durante uma greve geral na terça-feira. Há um ressentimento na Grécia, onde o povo acredita que o resto da zona do euro –particularmente a Alemanha- estão impondo medidas de austeridade ao país que estão estrangulando sua economia e prejudicando as pessoas. Os sindicatos convocaram uma greve geral na terça-feira para protestar contra as demandas da troika, e estima-se que 20.000 pessoas participaram nas manifestações em Atenas.
Enquanto isso, continuam as negociações entre o governo grego e os credores do setor privado para um alívio voluntário da dívida. Aqui também o acordo parece fugidio. O chamado corte de cabelo da dívida grega é outra condição para o resgate da UE. De acordo com a mídia, o atual estado das negociações prevê um corte de cabelo de 70% sobre os bônus gregos detidos por investidores privados.
O tempo, de qualquer forma, está acabando para a Grécia. As autoridades da UE disseram que todo o pacote deve ser fechado com Atenas e aprovado pelos Estados membros da zona do euro, o BCE e o FMI antes do dia 15 de fevereiro para que dê tempo suficiente para o swap da dívida. A Grécia precisa pegar a próxima remessa de dinheiro de resgate até o dia 20 de março, no máximo, para cumprir seus pagamentos de dívida e evitar o calote.
Na quarta-feira (8), a maior parte dos comentadores alemães argumentam que a Grécia já foi espremida ao máximo. Agora é hora de estimular o crescimento no país, dizem eles.
O jornal de esquerda “Die Tageszeitung” escreve:
“Na Alemanha, há um sentimento que os gregos devem ser culpados (pelo fato que a situação não está melhorando). Eles não estão economizando o suficiente, ainda estão ganhando muito e simplesmente não estão fazendo as reformas, pensam. Na Alemanha, o ressentimento está em alta e há uma suspeita que os gregos simplesmente não conseguem administrar a situação”.
“Mas e os alemães? Eles sobreviveriam a uma crise como a da Grécia? ... os gregos estão em seu quarto ano de recessão, e não há um fim à vista. Sua economia provavelmente vai afundar em 20%. Se a Alemanha fosse atingida por um cenário similar, seu produto interno bruto cairia em cerca de $500 bilhões de euros. Isso é simplesmente inimaginável. Aqui já há uma crise quando o governo federal quer cortar o orçamento em $5 bilhões”.
“É inútil forçar a economia grega para o limite da austeridade. As vítimas não são apenas gregas, mas também os credores externos e os outros membros da zona do euro. A Grécia vai custar dinheiro. Parte dos empréstimos de emergência que os europeus estão dando ao país nunca serão recuperados. A única questão é qual será o tamanho da perda. E apesar de parecer ilógico, quanto mais generosos forem os europeus agora, menores serão as perdas. Eles têm que investir em crescimento na Grécia”.
O jornal de centro-esquerda “Süddeutsche Zeitung” escreve:
“Talvez se a Grécia desmoronar inteiramente, finalmente encontre uma vontade comum de reconstruir o país. Certamente, muito precisa ser feito. A administração pública precisa de uma reforma completa, enquanto o setor privado precisa de mais liberdade para agir. Os carteis, que em parte são responsáveis pelo fato que muitos bens essenciais sejam mais caros na Grécia do que na Alemanha, precisam desaparecer. Atenas não terá sucesso em fazer tudo isso sozinha. A ajuda da Europa continuará desesperadamente necessária, de outra forma toda uma geração de gregos pode se voltar contra o projeto europeu”.
“Na parte rica da UE, contudo, um sentido de injustiça se estabeleceu. As pessoas estão perguntando, por exemplo, por que a Alemanha deveria apoiar a Grécia novamente? Elas acreditam que, se os gregos tivessem administrado melhor a economia, não estariam em tamanha bagunça agora. Essa revolta também tem sua justificativa, mas não vê o fato que a união monetária não criou uma união de iguais. A crise da dívida grega não foi causada apenas por gastos exorbitantes do governo, mas também por uma onda de consumo que beneficiou empresas alemães como BMW e Bosch. A justiça social exige que nós também lembremos desse fato”.
Em um editorial para o jornal “Handelsblatt”, Jean Pisani-Ferry, diretor do centro de estudos Bruegel com base em Bruxelas, escreve:
“A Europa está lançando um novo pacto fiscal que vai garantir que países adotem e implementem regras orçamentárias estritas. A premissa –especialmente na Alemanha- é que a proteção dos países da pressão dos mercados impediria os ajustes e reformas necessários e que apenas a forte pressão fornecerá os incentivos necessários para superar as dificuldades internas políticas e sociais para reduzir os gastos públicos e reformar os mercados de trabalho”.
“Mas esta estratégia é altamente arriscada. É verdade que os governos precisam de incentivos para agir, mas eles também precisam ser capazes de mostrar aos seus cidadãos que as reformas valem a pena. Se, após alguns meses de ajuste fiscal e reformas dolorosas, a produção econômica tiver caído, o desemprego aumentado e o cenário estiver mais sombrio que antes, então os governos podem perder seu apoio público rapidamente. Neste caso, as reformas podem ser interrompidas, como vimos na Grécia”.
“Devemos tomar cuidado para não adotarmos a abordagem errada. Uma é coisa acreditar que os governos somente agem sob pressão e que as sociedades só aceitam reformas se não virem alternativas. Mas outra coisa é assumir que o progresso pode ser feito com reformas enquanto todo o Sul da Europa está lutando contra uma recessão. Só é possível manter o Sul da Europa com rédea curta se isso for acompanhado de um programa amplo e eficaz para promover o crescimento em toda a zona do euro. ... O fraco crescimento no Sul da Europa pode ameaçar a própria UE”.
O conservador “Die Welt” escreve:
“É óbvio agora que já é tarde demais para salvar a Grécia por meio de mais empréstimos. Em termos puramente econômicos, o país não deveria ter recebido mais empréstimos há muito tempo. Eles não fazem nada, simplesmente adiam a falência inevitável. O governo grego mal cumpriu as exigências da troika e o ritmo da reforma está lento demais”.
“Mas isso provavelmente não impedirá os políticos de transferirem outros bilhões para Atenas. Está cada vez mais claro que os líderes e ministros da finança europeus se meteram em uma enrascada. Se colocarem uma rolha agora, terão que admitir perdas muito maiores do que teriam tido apenas com a participação do setor privado. O ministro de finanças alemão, Wolfgang Schäuble provavelmente não deve arriscar isso”.
“Hoje, talvez a solução mais simples para a liderança europeia seja empurrar o problema mais à frente, tornando o problema cada vez maior. Para a Europa, contudo, é a forma errada. Significaria que a Grécia minúscula poderia causar danos ainda maiores ao continente”.
Tradutor: Deborah Weinberg

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