Sem um recomeço, Atenas está perdida
David Gordon Smith - Der Spiegel
A União Europeia está exigindo sacrifícios cada vez maiores da Grécia, apesar do acordo fechado pelos políticos em Atenas. Diante de cortes mais dolorosos, os gregos estão de volta às ruas, e o ressentimento está em ebulição. Os comentadores alemães dizem que é hora de finalmente enfrentar a verdade.
Deveria ser uma vitória, mas o acordo fechado na quinta-feira (9) pelo governo grego recebeu uma recepção morna em Bruxelas. O nó górdio da dívida grega continua tão intratável quanto antes.
Na quinta-feira, os líderes dos partidos gregos anunciaram que, após semanas de conversas e adiamentos, eles finalmente concordaram em aceitar as duras condições de austeridade impostas sobre eles pela troika da Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Mas o ministro de finanças alemão, Wolfgang Schäuble, reagiu dizendo que as notícias de Atenas ainda não eram suficientes para garantir a libertação do segundo pacote de resgate para a Grécia, no valor de $130 bilhões de euros (em torno de R$ 300 bilhões).
Similarmente, nenhuma decisão foi tomada na reunião de cinco horas e meia do Grupo do Euro na tarde na quinta-feira. Pelo contrário, o primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, presidente do grupo, anunciou que o Grupo do Euro teria que se reunir novamente na próxima quarta-feira. A Grécia terá até então para cumprir as várias condições restantes, inclusive encontrar outros $325 milhões de euros para poupar.
Além de aprovar medidas de austeridade rigorosas, a Grécia precisa negociar um alívio da dívida com os credores privados no valor de $100 bilhões de euros, se quiser receber o pacote de ajuda da UE/FMI. Se não, o país pode dar um calote já no próximo mês, quando amadurecerão $14,5 bilhões de euros em bônus gregos.
Tomando as ruas
Enquanto isso, o ressentimento contra a troika e as medidas de austeridade impostas está alcançando o ponto de ebulição na Grécia, e os alemães são alvo de particular escárnio. Na sexta-feira (10), os sindicatos começaram uma greve geral de dois dias, e os manifestantes foram às ruas do centro de Atenas. As cenas na televisão mostraram os manifestantes travando batalhas com a polícia e jogando coquetéis molotov.
Muitos observadores estão perdendo a fé na ideia que a Grécia pode ser salva, mesmo que o segundo resgate seja aprovado. Com o desemprego a 20,9% e a economia em seu quinto ano consecutivo de recessão, não está claro como a Grécia jamais poderá gerar crescimento ou começar a pagar sua dívida.
Na sexta-feira, os comentadores alemães argumentam que é hora dos políticos da UE enfrentarem a realidade sobre a situação –e aceitarem que a Grécia vai ter de dar um calote ou deixar a moeda comum.
O jornal “Frankfruter Allgemeine Zeitung”, de centro-direita, diz:
“O sofrimento grego não tem fim. Isso é verdade em dois sentidos. Por um lado, a forma pela qual as negociações sobre o próximo pacote de resgate estão se arrastando... alimenta dúvidas que a Grécia será resgatada –ou que pode ser resgatada”.
“O outro lado do sofrimento grego é mais tangível. Apesar de eles nunca terem sido plenamente implementados, os programas de austeridade trouxeram a economia para um impasse e forçaram as pessoas, que continuamente têm que fazer novos sacrifícios, para as ruas. ... a Grécia apresenta um retrato desolado em termos de suas estruturas econômicas, competitividade, coesão social e sistema político. Em outras partes do mundo, seria chamada um Estado fracassado. É hora de os europeus admitirem esse fato e tomarem as medidas necessárias”.
“Se a conclusão resultante for que a Grécia não pode mais ser salva da falência ou que deve ser persuadida –ou forçada- a deixar a zona do euro, será uma questão de matemática. Qual opção vai acabar sendo mais cara para a Grécia e seu povo e os credores privados? Nenhum ministro de finanças sabe a resposta e nenhum economista pode calculá-la de forma confiável. Essa incerteza é mortífera, tanto para os mercados quanto para os países. Deve-se terminar com ela rapidamente.”
O jornal de centro-esquerda “Süddeutsche Zeitung” escreve:
“Os parceiros da UE e o governo grego têm um medo sinistro da verdade, que é a seguinte: a Grécia não pode de fato ser salva (com a atual estratégia) cortando o salário mínimo e congelando os salários supostamente até o que o país tenha abaixado sua taxa de desemprego de quase 21% para 10%. Mas de onde virão os novos empregos? Afinal, quase nenhuma grande empresa quer investir na Grécia neste momento, o que também significa que há pouca esperança de alcançar a receita planejada da privatização dos bens estatais. Menores salários significa também menor receita de impostos e menos consumo.”
“O programa de poupança de Atenas é uma lista de desejos de 15 itens. O governo grego certamente pode garantir por escrito –como a troika está exigindo- que cumprirá as exigências, mas ninguém sabe se as partes envolvidas também estarão presentes na fase de implementação. É totalmente incerto quem estará no poder após as eleições de abril”.
“Mas se o país não pode ser salvo apertando os cintos, então o que fazer? A única alternativa é um corte radical na dívida por parte dos principais credores privados, bancos e fundos hedge. O Banco Central Europeu provavelmente também teria que cortar parte de seus títulos da dívida grega. E a Grécia ainda precisaria de um Plano Marshall. Tudo isso é caro, e o progresso não vai acontecer da noite para o dia. Mas não há mais alternativas verdadeiras.”
O “Financial Times Deutschland” escreve:
“A Grécia está atualmente tentando fazer algo impossível: reformar a economia no meio de uma profunda depressão. Isso simplesmente não funciona. De acordo com as estimativas, nunca um país da Oecd reduziu seu deficit estrutural tão dramaticamente enquanto seu deficit de fato só caiu a uma fração dessa quantia. A economia grega encolheu 12% diante de novos cortes todo mês, investimentos foram reduzidos pela metade desde 2010 e o índice de desemprego pulou para mais de 20%. Essa situação destrói os fundamentos para uma recuperação. Neste caso, o que é necessário é uma mistura inteligente de reformas e medidas para evitar uma depressão”.
“A demanda interna grega agora está no nível de 2001. Isso não pode mais ser interpretado como uma correção dos excessos anteriores e precisa ser urgentemente interrompido –colocando fim às exigências intermináveis da troika.”
“Já passa da hora de dar aos gregos esperança de crescimento novamente. O fato que muitas reformas ainda são necessárias na Grécia não é razão para levar o país à ruína completa por uma administração desastrosa da crise. Isso não ajuda os gregos. E tampouco aumenta as chances dos contribuintes alemães terem que pagar menos.”
O conservador “Die Welt” diz:
“O acordo alcançado em Atenas entre o governo grego e os patrocinadores internacionais... não gerou grandes esperanças a nenhum dos lados. A Grécia prometeu o que tinha de prometer para receber o novo pacote. E a troika agiu como se –contra sua melhor análise- de fato acreditasse que a economia grega pode ser curada. Mas as imagens das manifestações e a queima de bandeiras alemãs mostram que os políticos não combinaram com a população grega. No final, o principal não é o desejo dos políticos de executar as reformas... mas a vontade do povo. E os gregos parecem não querer ou não aceitar, pelo bem da estabilidade da moeda comum, cortes que vão muito além daquilo que nós na Alemanha jamais vivenciamos em termos de medidas de austeridade”.
“Nem mesmo o novo e maior pacote vai acalmar a situação no país. A cada poucos meses, haverá novas reuniões de emergência, negociações noturnas e supostos avanços. Mas não vamos nos enganar: não é possível de fato resgatar a Grécia dessa forma. De uma perspectiva econômica, o país precisa deixar a zona do euro porque está economicamente fraco demais e suas estruturas administrativas são subdesenvolvidas demais para acompanharem os outros. Mas em termos políticos, os supostos resgatadores e o governo grego têm um medo excessivo de tal passo. Os doadores preferem fechar os olhos a tomar os passos necessários”.
O jornal financeiro “Handelsblatt” escreve:
“Em geral, a luta malfadada da Grécia com sua dívida é descrita como uma tragédia. Mas o espetáculo que testemunhamos nos últimos dias em Atenas foi mais como uma farsa. Não porque alguém ria do sofrimento dos gregos, mas porque os atores estavam usando seus truques teatrais para enganar o público”.
“Durante o jogo de pôquer com seus credores, os gregos vinham agindo como se tivessem um coringa na manga. Esse coringa foi a ameaça de declarar a falência e gerar uma reação de pânico em cadeia entre investidores.... mas isso não é um trunfo. As principais vítimas de uma falência desordenada seriam os próprios gregos”.
“Mas a troika também vem enganando o público com truques numéricos fáceis de discernir. De acordo com a troika, a meta das medidas de austeridade brutais é reduzir a dívida grega nos próximos oito anos de 160% para 120% do produto interno bruto. A UE e o FMI acreditam que o país poderia suportar essa carga de dívida sozinho. Mas em 2010, no início da crise da dívida, tal nível de dívida já era considerado insustentável. A pergunta de como a Grécia deveria voltar ao crescimento apesar das rigorosas medidas de austeridade continua sendo um segredo da troika.”
“Os dois lados estão mentindo. A única forma de ‘salvar’ a Grécia é por um calote nacional ordenado. Sem um novo recomeço e uma estratégia de crescimento de longo prazo, Atenas está perdida.”
Tradutor: Deborah Weinberg
Nenhum comentário:
Postar um comentário