Por que a Alemanha não está se beneficiando dos problemas da Europa?
Sven Böll - Der Spiegel
Existe uma crença generalizada de que a Alemanha é a grande vencedora com a crise do euro, já que os investidores colocam o seu dinheiro neste país que é o último reduto seguro da zona do euro, fazendo com que as taxas de juros sobre os títulos alemães caiam para patamares recordes. Mas essa ideia não passa de um mito. Na verdade, a crise poderá acabará custando muito caro a Berlim.
O primeiro-ministro italiano Mario Monti é um homem altamente equilibrado, que sente muita afinidade pela famosa cultura alemã de estabilidade no que se refere a políticas econômicas. Entretanto, nas últimas semanas ele tem tido poucas coisas positivas a dizer sobre Berlim. Isso se deve em parte ao fato de ele considerar o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, um beneficiário secreto da crise do euro. Monti diz que a Alemanha se beneficia mais do euro do que outros países.
Até mesmo especialistas alemães estão convencidos de que a Alemanha está lucrando com a crise monetária, enquanto outros países têm amargado prejuízos. Como o país é considerado um abrigo financeiro seguro em um continente assolado pela crise, os investidores estão atualmente despejando bilhões de euros na Alemanha.
Isso está fazendo com que as taxas de juros sobre os títulos do governo atinjam níveis historicamente baixos. “Atualmente a Alemanha está vivendo às custas dos outros países da zona do euro”, diz Theodor Weimer, presidente do banco HypoVereinsbank. Segundo cálculos realizados pelo Instituto Colônia para Pesquisas Econômicas (IW), que é bastante sintonizado com o universo dos empregadores, as baixas taxas de juros se traduzem em uma economia de 45 bilhões de euros (US$ 59 bilhões) no curto prazo para o Ministério das Finanças da Alemanha.
Como resultado, o governo da Alemanha está enfrentando uma pressão crescente para contribuir com ainda mais dinheiro para as tentativas de salvar o euro. Os críticos argumentam que a Alemanha não pode ao mesmo tempo beneficiar-se da crise e recusar-se a prestar ajuda financeira.
“A Alemanha está claramente tendo prejuízos”
Esse argumento supostamente lógico encontra-se atualmente disseminado por toda a Europa. Só que existe um problema quanto a ele: o argumento é um mito. Quem analisar como a crise do euro afeta as finanças do governo alemão perceberá rapidamente que os custos ultrapassam em muito os benefícios. “Outros países podem ser atingidos com maior intensidade, mas a Alemanha está claramente tendo prejuízos com a crise da dívida”, afirma Clemens Fuest, um economista da Universidade de Oxford que será o futuro diretor do Centro para Pesquisa Econômica Europeia (ZEW).
Há dois motivos principais para isso. Primeiro, nenhum outro país assumiu obrigações tão substanciais quanto a Alemanha no sentido de estabilizar a moeda comum europeia. Segundo, os benefícios financeiros resultantes da crise são menores do que algumas pessoa acreditam.
O Ministério das Finanças da Alemanha acha que os números do IW são questionáveis. Segundo autoridades de Berlim, as projeções do IW baseiam-se em uma análise da situação atual. Mas essas autoridades dizem que não se pode chegar a estimativas confiáveis sobre os efeitos de longo prazo das taxas de juros a partir de tais números e acrescentam que só é possível fazer cálculos convincentes de dados referentes aos benefícios auferidos até o momento. Com base nisso, o benefício financeiro acumulado a partir de 2009 equivale a apenas alguns bilhões de euros.
Esse lucro é contrabalançado por prejuízos previstos e riscos potenciais. Os países da união monetária já emprestaram à insolvente Grécia mais de 50 bilhões de euros, sendo que a maior parcela – 15 bilhões de euros – desses empréstimos bilaterais foi fornecida pela Alemanha. Somente os mais inveterados otimistas ainda acreditam que a Alemanha será inteiramente ressarcida.
Risco de prejuízos de bilhões de euros
A Grécia está tão irremediavelmente endividada que o “haircut” (redução da dívida) concedido por investidores do setor privado não salvará o país. Existe uma percepção cada vez maior de que os países doadores terão também que participar cedo ou tarde da operação para a redução da dívida grega. Caso fosse implementado um haircut de 50%, o Ministério das Finanças da Alemanha amargaria prejuízos de cerca de 8 bilhões de euros, algo que superaria em muito os lucros vinculados aos juros que foram obtidos nos últimos anos.
E os prejuízos não se limitariam a isso. O Banco Central Europeu também está enfrentando uma pressão substancial para perdoar uma parcela das dívidas de Atenas. Se isso acontecer, a Alemanha, que é uma das principais proprietárias do Banco Central Europeu, acabará tendo que compensar os déficits resultantes. Na pior das hipóteses, esses prejuízos poderiam chegar a bilhões de euros.
A Grécia representa o risco mais óbvio para o orçamento federal alemão, mas não o único. Há também o temporário fundo de apoio ao euro, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira. A Alemanha fornece 211 bilhões de euros dos mais de 700 bilhões de euros que compõem o fundo.
Só Portugal está recebendo diretamente quase 30 bilhões de euros do fundo de resgate financeiro. E, nos últimos dias, este país viu-se mais do que nunca na mira dos mercados financeiros. Muitos economistas acreditam que uma reestruturação da dívida de Portugal é algo inevitável. E isso também poderia provocar mais prejuízos para Schäuble.
O fundo permanente de resgate financeiro, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES), deverá iniciar os seus trabalhos em julho próximo. Além de estar equipado com garantias financeiras, o MES também possui 80 bilhões de euros em contribuições monetárias. Em outras palavras, dinheiro real está mudando de mãos, e cerca de 22 bilhões de euros estão vindo apenas da Alemanha.
Originalmente, as contribuições ao MES eram pagas em cinco parcelas. Mas, como a crise da dívida ainda não foi resolvida, está ficando claro que os países membros da zona do euro terão que pagar quantias maiores e de forma mais antecipada. Na pior das hipóteses, é até concebível que se exija da Alemanha que ela contribua com a quantia integral do capital do fundo já em 2012.
Mas o ministro das Finanças alemão não pode simplesmente recorrer ao seu atual orçamento para pagar essa quantia multibilionária. Em vez disso, ele terá que solicitar um orçamento suplementar e contrair uma dívida adicional para resgatar a Europa. Até mesmo às atuais taxas de juros reduzidas, a contribuição monetária ao MES poderia custar a ele até alguns milhões de euros por ano – e isso poderia ser um processo de longo prazo.
Tendo em vista esses problemas, o ministério das Finanças da Alemanha está longe de ser um dos ganhadores com essa crise. E em breve ele poderá se tornar um dos principais perdedores com o desastre da dívida. “Seria um milagre se a Alemanha emergisse dessa crise sem prejuízos”, afirma o especialista na moeda europeia Clemens Fuest.
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