domingo, 12 de fevereiro de 2012

O INFERNO É LOGO ALI

Sudão e Sudão do Sul acirram disputa pelo petróleo
Jeffrey Gettleman - NYT
O Sudão e o Sudão do Sul estão envolvidos em um jogo político cada vez mais perigoso em torno de bilhões de galões de petróleo, tomando petroleiros, fechando poços e colocando em risco a frágil paz apoiada pelos Estados Unidos que se mantém entre os dois países após décadas de guerra.
Há anos as relações entre o norte e o sul não eram tão venenosas, agravadas pela disseminação de rebeliões ao longo de ambos os lados da fronteira e uma guerra entre terceiros nos dois países que tem resultado em choques diretos entre o Sudão e o Sudão do Sul. A fronteira disputada que separa o Sudão de seu vizinho recém-independente é provavelmente a mais inflamável na África, com grandes exércitos que se enfrentaram por gerações se concentrando em ambos os lados.
“Eu, pessoalmente, espero uma guerra total”, disse Mariam al Sadiq al Mahdi, uma importante política de oposição em Cartum, a capital do Sudão. “Isto é como os trailers antes do filme.”
Ambos os lados precisam desesperadamente do petróleo para o funcionamento de seus governos, alimentação do povo e conter as insurreições. E, teoricamente, ambos os lados precisam um do outro. O problema dos dois países é que 75% do petróleo se encontram no sul, mas o oleoduto para exportá-lo passa pelo norte. Por causa disso, o petróleo já foi considerado a cola que manteria os dois países juntos e impediria um conflito. Agora, parece que o petróleo está se tornando o estopim.
A União Africana, os Estados Unidos e a China, que é uma grande parceira de ambos os países, estão pressionando as duas nações a deixarem para trás a linguagem e táticas de destruição mútua. Negociações do petróleo foram marcadas para serem retomadas neste fim de semana, e apesar de ambos os lados já terem recuado da beira do abismo muitas vezes, poucos analistas estão otimistas que um acordo será acertado facilmente.
Quando o Sudão do Sul se separou do Sudão no ano passado, após anos de guerrilha, sua independência foi saudada como o término triunfal de uma das guerras civis mais mortais da África. Mas a dúvida sobre como os dois lados dividiriam os lucros do petróleo, um assunto não resolvido, começou a pairar ominosamente sobre a separação. Agora que ambos os países estão disputando para torná-lo seu, a questão provou ser tão difícil –e perigosa– quanto muitos temiam.
Foi o petróleo do sul do Sudão que provocou o boom econômico da última década e tornou a repressão pelo governo islamita do Sudão (que ainda é pesadamente penalizado pelos Estados Unidos) tolerável para muitos sudaneses. Quando o Sudão do Sul declarou independência, ele levou bilhões de dólares em petróleo consigo, eviscerando a economia do Sudão e criando uma das crises mais profundas que o presidente Omar Hassan Bashir enfrentou em seus mais de 20 anos no poder.
Bashir agora está enfrentando inflação elevada, uma economia em retração, protestos de estudantes e várias rebeliões simultâneas – em Darfur, nos Montes Nuba e no Estado do Nilo Azul – assim como acusações de genocídio ligadas aos massacres ocorridos vários anos atrás em Darfur.
Ao mesmo tempo, o Sudão do Sul, um dos países mais pobres do planeta, está enfrentando uma grande crise de alimentos e milícias étnicas altamente armadas que estão varrendo partes do interior, matando centenas e zombando das forças de segurança sul-sudanesas.
Aumentando as tensões, o Sudão e o Sudão do Sul estão apoiando secretamente rebeldes no país vizinho, provocando confrontos na fronteira e bombardeios aéreos impiedosos. Os mais de 1.600 quilômetros de fronteira entre os países agora estão fechados, com milhões de quilos de ajuda alimentar de emergência e praticamente todo o comércio passando por um estrangulamento em ambos os lados.
Na atual disputa pelo petróleo, o Sul se recusa a pagar os royalties pelo uso dos oleodutos do Sudão. No final de dezembro o Sudão se apossou de petroleiros carregados com óleo cru sul-sudanês. Em resposta, o Sul tomou a medida drástica e possivelmente autodestrutiva de fechar todos seus poços de petróleo, o que poderia provocar o colapso da economia de ambos os países. As autoridades sul-sudanesas reconhecem abertamente que estão usando o petróleo para forçar Cartum a fazer concessões em todas as questões, inclusive na área disputada de Abyei, insistindo que a produção de petróleo será retomada apenas depois que “todos os acordos forem assinados”.
O Sul está até mesmo ameaçando ficar sentado sobre seu petróleo por anos, enquanto constrói um oleoduto alternativo passando pelo Quênia. Mas não está claro como o país sobreviveria tanto tempo; o petróleo é responsável por aproximadamente 98% da receita do governo. Os especialistas questionam se o oleoduto no Quênia seria viável. Ele teria um percurso morro acima, exigindo muitas estações de bombeamento caras e possivelmente cruzando Jonglei, um Estado sul-sudanês que, com todas suas milícias saqueadoras, é basicamente uma zona de guerra atualmente.
Em Cartum, muitas pessoas ainda têm dificuldade em engolir a separação do sul. Ninguém gosta do novo mapa do Sudão. Ele já foi o maior país da África. Agora ele parece ter sido rudemente amputado, com as bordas grosseiras de um ferimento em carne viva.
“Eu ainda não me acostumei com isso”, disse Nada Gerais, uma gerente de vendas em Cartum. “Ele parece, ele parece...” ela tinha dificuldade em encontrar a palavra certa. “Estranho.”
Gerais é um exemplo perfeito do mergulho em parafuso sofrido pela economia do Sudão. Ela trabalha em uma concessionária meticulosamente polida da Nissan, que costumava vender 50 carros por mês. Agora, às vezes, são apenas cinco. Ela está pensando em passar para medicamentos ou alimentos.
“As pessoas pararam de comprar carros, mas não podem deixar de comer”, ela explicou.
Na última década, a riqueza do petróleo do Sudão alimentou novas fábricas, estradas, inúmeros pontos de shish kebab e até mesmo planos para uma minicidade futurista, um aeroporto bilionário e toda uma reconfiguração desta capital, para inclusão de um calçadão ao longo do Nilo.
Mas muitos desses planos foram engavetados. Prédios permanecem inacabados e a forte desvalorização da libra sudanesa deixou produtos eletrônicos, livros e até mesmo tomates fora do alcance para muitos.
As autoridades em Cartum dizem que o Sul deve quase US$ 1 bilhão em taxas do oleoduto, dinheiro necessário para impedir o colapso de sua economia, e elas venderam recentemente parte do petróleo dos petroleiros apreendidos antes de devolvê-los. O presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, disse que o valor cobrado por Cartum, US$ 32 por barril, é “exorbitante” e “completamente fora dos padrões internacionais”.
Sabir M. Hassan, um negociador do governo sudanês, disse que o norte está disposto a ser flexível, mas que os sulistas são “emotivos demais” e ainda veem a si mesmos como rebeldes. “Se você lhes der duas opções, eles escolherão aquela que mais prejudicará o norte, não aquela que ajudará o sul”, disse Hassan.
Os líderes sul-sudaneses dizem o mesmo sobre Cartum, que bloqueou as estradas que levam ao Sul e recentemente retiveram cargas humanitárias, tudo para punir o Sul ao custo de milhões de dólares em negócios perdidos.
Muitos analistas políticos se perguntam se Bashir conseguirá sobreviver a tantas crises. Mas é difícil ver quem o substituiria.
A oposição política do Sudão é profundamente dividida e dirigida por septuagenários de barba branca. Os movimentos rebeldes não contam com muito apoio em Cartum. Os estudantes sudaneses iniciaram no ano passado um movimento como o da Primavera Árabe, mas fracassaram em ganhar força. As forças de segurança agiram rapidamente na prisão dos manifestantes e em pendurá-los em ventiladores de teto.
E o Sudão tem uma resistência que transcende a turbulência. Toda sexta-feira, em um ringue terroso nos arredores de Cartum, centenas de homens nuba se reúnem para assistir à luta-livre tradicional. Os nubas étnicos estão liderando a rebelião contra Cartum nos Montes Nuba. Mas há pouca evidência disso aqui.
“Está tudo bem”, disse um espectador idoso. Quando ele ia elaborar, um jovem lutador deu um golpe em seu oponente e o derrubou no chão.
“Você viu isso?” gritou o velho. “Meu Deus, eu adoro isso.”
Tradução: George El Khouri Andolfato

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