quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ao contrário de Sarkozy, Hollande demonstra mais independência em relação a Merkel
Charles Grant - Herald Tribune
Antes de se tornar presidente da França, François Hollande não pareceu ter muito interesse na UE (União Europeia). No entanto, durante sua juventude, ele era protegido de Jacques Delors – grande esquerdista francês e defensor da Europa – e seus instintos parecem ser amplamente pró-Europa.
A chegada de Hollande ao Palácio do Eliseu não gerou mudanças drásticas na política francesa relacionada à UE, mas uma nova abordagem está surgindo. Comparado a Nicolas Sarkozy, Hollande tem sido menos hostil às instituições da UE, mais disposto a trabalhar em estreita colaboração com os países do sul da Europa e, mais importante, mais disposto a demonstrar que a França não segue servilmente os desejos alemães.
Uma recente rodada de negociações entre autoridades do Palácio do Eliseu e os ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores da UE deixou claro que Hollande tem total consciência de que um relacionamento franco-alemão forte é indispensável para resolver os problemas da zona do euro, em especial, e da UE, em geral. Mas Hollande quer uma relação mais equilibrada.
Essas autoridades enfatizam que o "modelo de Deauville" de relações entre Paris e Berlim – segundo o qual a chanceler Angela Merkel persuadiu Sarkozy a aceitar uma política que, em seguida, os dois governantes imporiam juntos aos outros líderes europeus relutantes – foi desmantelada. 
Em vez disso, o novo presidente tem procurado fortalecer a posição da França de várias maneiras. Uma delas foi consultar os outros países – especialmente a Itália e a Espanha – e a Comissão Europeia sobre questões fundamentais. Sarkozy evitou se aproximar muito do sul da Europa para que os mercados financeiros não associassem a França com os seus problemas. Hollande não apresenta essa limitação. Em sua primeira reunião de cúpula, alinhou-se com Mario Monti, da Itália, e com Mariano Rajoy, da Espanha. Os alemães não ficaram contentes, mas – de acordo com os franceses – eles perceberam que um sistema mais inclusivo de liderança é do seu interesse. E as autoridades que trabalham para Hollande alegam que ele não é tão imaturo a ponto de tentar criar um bloco de países para se contrapor à Alemanha. 
A segunda forma de Hollande fortalecer a influência francesa na UE tem sido a manutenção das metas fiscais austeras que ele herdou, especialmente por meio da contenção do déficit orçamentário, que precisa recuar a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013. Autoridades do governo francês disseram que, apesar de a ênfase atual repousar sobre a diminuição do déficit por meio de reajustes de impostos, nos próximos anos os cortes de gastos vão predominar. 
Em terceiro lugar, a França tenciona melhorar a sua competitividade. Fora da França, Hollande e seus ministros não são vistos como sendo especialmente comprometidos com a reforma econômica estrutural. Mas as autoridades de Paris disseram que o governo está determinado a reformar o mercado de trabalho. E se o resultado gerar protestos nas ruas? Ele se manterá firme, eles insistem. 
Depois de um começo difícil com Merkel, os conselheiros Hollande dizem que ele tem agora uma boa relação de trabalho com ela. O mercurial Sarkozy e a cautelosa chanceler não eram almas gêmeas naturais. Hollande tende a ser um construtor de consensos, de fala mansa – como Merkel. 
As autoridades francesas afirmam que Hollande ajudou a convencer os líderes da Alemanha a mudar um pouco seu pensamento a respeito da crise do euro. Por exemplo: Merkel e Wolfgang Schäuble, seu ministro da Fazenda, apoiaram Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, em seu plano de intervir nos mercados de bônus para reduzir os custos dos empréstimos nos países periféricos. O governo alemão também deixou claro que – da mesma forma que a França – quer que a Grécia permaneça na zona do euro – por medo das consequências de sua saída. 
Mas as tensões permanecem. O apoio francês às propostas da Comissão Europeia pela implantação de um sistema de supervisão bancária em todos os países da UE, que cobrisse todos os bancos da Europa, vai contra a ideia dos alemães, que querem incluir apenas os maiores bancos internacionais nesse sistema. Além disso, o governo alemão está aconselhando a Espanha a não ativar o mecanismo de Draghi para intervir nos mercados de bônus. Enquanto isso, os franceses acreditam que o mecanismo deve ser usado em breve, movidos pelo receio de que os mercados financeiros deixem de acreditar em sua força. 
Há também uma enorme distância entre Paris e Berlim em relação às questões de governança da zona euro para o longo prazo. Os franceses se preocupam com a incoerência com que a zona do euro tem sido administrada. Eles querem que o Eurogrupo (reuniões regulares de ministros da Fazenda da zona do euro) seja responsável por proporcionar parte da liderança que está faltando, por meio da nomeação de um presidente em tempo integral e da introdução de votações por maioria. Os alemães temem que um Eurogrupo forte possa vir a minar a independência do Banco Central Europeu. 
Os franceses acreditam que, por terem engolido as dolorosas medidas do pacto fiscal e, assim, aberto mão de parte da sua estimada soberania orçamentária, a Alemanha devesse se mostrar mais disposta a discutir os eurobônus (a mutualização da dívida europeia), além do seguro dos certificados de depósitos bancários pan-europeus e de um regime de resolução de crises bancárias. A Alemanha ainda diz não a essas ideias, já que elas custariam dinheiro. 
Outro amplo ponto de discórdia gira em torno do vago conceito de união política, que está ganhando importância na agenda da UE. Guido Westerwelle, ministro alemão das Relações Exteriores, e vários outros ministros da mesma pasta publicaram recentemente um relatório sobre o futuro da Europa no qual propunham soluções federalistas clássicas para os problemas da UE: a votação por maioria em questões de política externa, um papel mais forte para os altos representantes da política externa, um exército europeu, a eleição de um presidente para a Comissão Europeia, um Parlamento Europeu mais forte e um novo sistema de ratificação de tratados (para evitar que os países pequenos gerem atrasos para todos os outros). 
Em Paris, não há nenhum entusiasmo em relação a uma união política – em parte porque ela exigiria a negociação de um tratado novo e importante, com todas as dificuldades inerentes a esse tipo de processo. Apesar de a França estar envolvida no grupo Westerwelle – para o qual enviou um ministro júnior, em vez de mandar seu ministro das Relações Exteriores –, algumas autoridades francesas falam com desprezo sobre o grupo. "Quando a UE está em crise, os alemães têm uma reação pavloviana e apelam para a união política, sem realmente levar essa proposta a sério", disse uma autoridade francesa. A prioridade da UE, acreditam os franceses, deve ser consertar o euro: os 17 países que utilizam a moeda devem concordar com todas as disposições necessárias e, em seguida, permitir que outros países também adotem a divisa. 
Apesar de sua cautela a respeito de uma união política, as autoridades francesas reconhecem a necessidade de mais democracia e responsabilidade na zona euro. As pessoas que gravitam em torno de Hollande e do ministro da Fazenda francês, Pierre Moscovici, criticam a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu de forma menos violenta do que os colaboradores de Sarkozy. Eles aceitam, embora com relutância, que a Comissão deve desempenhar um papel na supervisão das políticas econômicas e orçamentárias dos países da zona do euro. Em geral, a abordagem relativamente comunitária de Hollande o coloca mais próximo do pensamento tradicional alemão do que do pensamento gaulês. 
Até agora, a nova abordagem de Hollande em relação à Alemanha – ele que trabalha em estreita colaboração com o país, mas não o segue servilmente – parece ter alcançado um sucesso moderado. Mas, se ele quiser que a influência da França na União Europeia se aproxime da influência da Alemanha no longo prazo, Hollande terá que cumprir sua promessa de aumentar a competitividade da economia francesa. 
*Charles Grant é diretor do Centro para a Reforma Europeia.

Tradutor: Cláudia Gonçalves

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