domingo, 14 de outubro de 2012

Estrada inacabada é símbolo de corrupção na Itália
Rachel Donadio* - NYT
Gianni Cipriano/The New York Times
Casa inacabada em Reggio Calabria, na Itália, região dominada por organizações mafiosas. Desde 2000, foram presas centenas de pessoas envolvidas com a construção da autoestrada A3
Casa inacabada em Reggio Calabria, na Itália, região dominada por organizações mafiosas. Desde 2000, foram presas centenas de pessoas envolvidas com a construção da autoestrada A3
A estrada A3 na Itália, que começou a ser construída nos anos 1960 e ainda não acabou, começa fora de Nápoles, na cidade antiga cidade de Salerno, e termina, sem a menor cerimônia, 300 quilômetros ao sul, como uma rua local no centro de Reggio Calabria.
Ao longo do caminho, ela frequentemente se estreita para duas pistas, com uma série de obstáculos de obras que se arrastam há décadas. Pontes perigosas de duas pistas se estendem por ravinas na montanha bem acima do mar, enquanto túneis sem iluminação apresentam vazamentos quando chove – e ocasionalmente derrubam concreto e outros materiais de construção sobre os carros que passam.
Nada representa melhor os fracassos do Estado italiano do que a estrada de Salerno a Reggio Calabria. Os críticos a veem como o fruto podre de uma cultura de empregos-por-votos, que, nutrida pelo crime organizado que é endêmico no sul da Itália, tem sistematicamente defraudado o Estado enquanto fracassa com os seus cidadãos, deixando a Calábria isolada geográfica e economicamente.
A rodovia também é um símbolo do que alguns países do norte da Europa dizem que mais temem em relação à eurozona: sua transformação num sistema de bem-estar social no qual se espera que eles apoiem o moroso sul da Europa, onde as doações e subsídios muitas vezes desaparecem na corrupção que os governos parecem incapazes – ou sem vontade – de impedir. E isso ajuda a ilustrar como o financiamento produziu relativamente pouco a partir do investimento produtivo que agora pode estar ajudando o sul da Europa enquanto ele tenta sair do buraco econômico.
Na Itália, o mau uso do dinheiro europeu “fez um tremendo estrago, porque os recursos foram mal utilizados e, como dizem alguns magistrados, eles também alimentaram o crime organizado”, disse Sergio Rizzo, coautor de best-sellers sobre a corrupção política. “As regiões do sul não têm capacidade de planejar e financiam projetos sem resultados. Esse é o problema.”
À medida que o debate na Europa se desloca na direção do crescimento, funcionários europeus citam uma necessidade cada vez mais urgente de prestação de contas.
“Quanto mais os fundos da União Europeia são entendidos como uma espécie de remédio para o crescimento, como uma estratégia de saída para lidar com a crise econômica”, mais controles são necessários, disse Giovanni Kessler, diretor do sindicato antifraude . “Isso não pode ser deixado apenas para a vontade e as capacidades das agências nacionais de fiscalização da lei.”
De 2000 a 2011, a Itália recebeu mais de US$ 60 bilhões em financiamento da UE para financiar uma grande variedade de programas, em áreas como agricultura e infraestrutura, a maior parte direcionada para o sul, com pouco, exceto uma estrada semiconcluída, para mostrar como resultado. A Espanha, que recebeu pouco mais de US$ 100 bilhões, pelo menos construiu uma rede ferroviária de alta velocidade e primeira qualidade. (A Grécia recebeu US$ 50 bilhões, uma quantia per capita enorme, também sem resultados claros.)
Em 2001, armada com aquele financiamento, a Itália embarcou num ambicioso projeto para construir uma nova A3 no lugar da antiga, que não tinha uma faixa de acostamento adequada. Desde então, quase US$ 10 bilhões foram gastos na estrada. Depois que tribunais italianos encontraram evidências generalizadas de corrupção, funcionários europeus exigiram neste verão que a Itália redirecione os US$ 500 milhões que a Europa tinha dedicado à estrada para outros projetos.
Dirigir pela A3 – a principal artéria em uma região sem trens de alta velocidade, quase 20% de desemprego e 40% de jovens desempregados – é, em muitos aspectos, viajar pelo lado escuro da história recente da Itália, em que um amálgama de corrupção e clientelismo político tem ajudado a aumentar a segunda maior dívida da Europa depois da Grécia.
É passar as sombrias casas de concreto inacabadas de Rosarno, uma área agrícola mais conhecida por distúrbios raciais violentos que eclodiram em 2010, e olhar para o mar a partir de Gioia Tauro, uma cidade portuária construída sobre uma antiga necrópole grega onde os túmulos quadrados do cemitério são mais bem cuidados do que algumas casas próximas.
Como o porto não está conectado a estradas ou a ferrovias adequadas, os navios precisam transferir contêineres para embarcações menores, e pouca atividade econômica permanece local. Para as autoridades, o porto é mais conhecido como o ponto de chegada para a maior parte da cocaína que entra na Europa vinda da América do Sul.
Desde que a estrada foi inaugurada, três gerações de empreiteiros – nomeadas por três gerações de políticos – ganharam a vida com ela. Desde 2000, promotores prenderam centenas de pessoas envolvidas com a rodovia, principalmente por acusações de corrupção e extorsão.
Da mesma forma que combater a crise da dívida na Europa meridional, consertar a rodovia significa ir contra uma cultura de clientelismo político profundamente resistente à mudança. Os problemas da Calábria são ainda mais obscuros. A região é dominada pela 'Ndrangheta (pronuncia-se Dran-gue-ta), um grupo de crime organizado que as autoridades dizem ser o mais poderoso da Itália.
“A 'Ndrangheta é um parasita”, diz Roberto di Palma, magistrado que realizou dois julgamentos por corrupção relacionados à autoestrada. “Onde há grandes obras públicas, a 'Ndrangheta tem um grande interesse.”
Os laços entre o crime organizado e os políticos locais são profundos. Hoje, três dos 51 membros do Conselho Regional da Calábria foram presos sob a acusação de ter ligações com a máfia. O presidente da região da Calábria, Giuseppe Scopelliti, está apelando de uma sentença em um tribunal menor em um caso de corrupção e está sob investigação por quatro acusações (nenhuma relacionada à estrada).
Numa entrevista em seu escritório em Catanzaro, Scopelliti negou qualquer irregularidade. Perguntado sobre qual era sua estratégia para melhorar o péssimo desempenho econômico da região, ele sugeriu apenas sua mais recente solicitação de um financiamento de Bruxelas: US$ 2,2 bilhões.
Sob vários aspectos, a Calábria ilustra a crise de responsabilidade da União Europeia. A Comissão Europeia não é como o Fundo Monetário Internacional, que pode colocar condições sobre um empréstimo, disse Massimo Florio, professor de economia da Universidade de Milão, e tampouco tem o poder de um governo federal de monitorar os gastos.
“No final, é como se os Estados membros achassem que o seu dinheiro é seu”, disse Florio.
Na Calábria, tem havido um convite aberto à corrupção. Em uma das várias tentativas, os promotores mapearam a A3 não só pelas obras, mas também pelos clãs da 'Ndrangheta. Usando escutas telefônicas, eles descobriram que nada menos do que uma dúzia de famílias fizeram “acordos de paz” para dividir o trabalho – e as propinas.
Num julgamento em que 22 pessoas foram condenadas por associação mafiosa e outros crimes, os promotores examinaram uma das seis grandes obras da rodovia, um trecho de 215 quilômetros. Promotores encontraram amplas evidências daquilo que chamam de “regra de 3%”, na qual as empresas subcontratadas cobram 3% a mais para o Estado – e os clãs do crime embolsam a diferença. Eles também documentaram a forma como os clãs ajudaram a escolher empreiteiros e ditaram quem contratar, normalmente seus amigos e parentes.
Ao longo dos anos, até 6.000 trabalhadores foram empregados por centenas de empresas subcontratadas. (Ninguém das grandes empresas de construção do centro italiano ou do norte foi condenado por nenhum crime.)
“O sul é uma terra de obras inacabadas porque as obras concluídas não rendem dinheiro”, disse Aldo Varano, jornalista e autor de vários livros sobre Calábria.
O trabalho atrasa toda vez que as autoridades sentenciam os subcontratados por corrupção. Mas o problema vai muito além da corrupção e passa pelo cerne dos sistemas políticos da maior parte do sul da Europa, onde os políticos tradicionalmente oferecem aos cidadãos trabalho financiado pelo Estado em troca de votos.
“O problema aqui é político”, comentou Varano, enquanto olhava para a Sicília do outro lado do estreito de Messina, a partir de Reggio Calabria. “Antes o sul era um reservatório de mão de obra, mas, na década de 1970, houve uma troca: tornou-se um grande reservatório de consenso”, acrescentou, referindo-se aos votos da Calábria que ajudaram todos os governos dos últimos 25 anos a ficarem no poder.
Para garantir esses votos, os governos “precisavam gastar dinheiro, e não com o investimento e o desenvolvimento, mas de uma maneira clientelista”, disse ele.
Em qualquer momento, cerca de mil pessoas estão empregadas na estrada e em projetos relacionados, de acordo com a autoridade italiana de estradas, a Anas. Mas, numa série de viagens recentes, não havia mais do que um punhado de trabalhadores à vista – e poucos estavam usando capacetes.
Esse sistema de empregos-por-votos está sob escrutínio depois de uma série de escândalos de corrupção recentes em toda a Itália, que abalou ainda mais a confiança dos italianos numa classe política cuja incapacidade de gerir a economia levou ao atual governo tecnocrata do primeiro-ministro Mario Monti.
Poucos calabreses acreditam em seus líderes, ou que a estrada será concluída.
"Eu não penso assim", disse Salvatore Emilio, um barman de Gioia Tauro. "Há porcos demais."
Ainda assim, o quadro não é totalmente sombrio. Hoje, 271 quilômetros dos 495 da estrada foram reconstruídos, e 395 quilômetros estão abertos ao tráfego. A Anas diz que mais 120 quilômetros serão concluídos até o final de 2013.
Questionado se achava que o prazo era viável, Sebastiano Wancolle, engenheiro que supervisiona a estrada para Anas, respirou fundo.
"O objetivo é um desafio", disse ele, "e nem tudo depende de nós".
Wancolle mostrou dois viadutos suspensos quase concluídos, passando por um desfiladeiro íngreme, com o azul do mar Tirreno lá embaixo. Logo o carro acelerou, passando por uma encosta onde um deslizamento de terra atingiu a estrada em 2010. Felizmente ninguém ficou ferido naquele dia, disse ele. "Era a festa de Nossa Senhora de Fátima", acrescentou.
Numa entrevista em Roma, Fabrizio Barca, ministro de coesão territorial do governo Monti, disse que, por muito tempo, o dinheiro para o sul foi mal gasto.
"O que o sul pede são os direitos de seus cidadãos", disse Barca. "A qualidade dos serviços básicos e essenciais é inadequada. Na Calábria, o problema é particularmente ruim.”
Questionado se tinha aliados políticos na Calábria, ficou constrangido.
"Digamos apenas que a renovação do sul não começará pela Calábria", disse ele.
* Gaia Pianigiani contribuiu com a reportagem.

Tradutor: Eloise De Vylder    

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