O fracasso impecável da Venezuela
Henrique Capriles Radonski não fez nada errado. O líder de oposição venezuelano de 40 anos realizou uma campanha presidencial quase impecável contra Hugo Chávez. Ele era o candidato certo –enérgico, criativo, passional e incansável– para enfrentar um líder enfermo que não esconde seu desejo de ser presidente por toda a vida.
Mas a quase perfeição não basta quando alguém compete contra um líder autoritário moderno como Chávez. Ao mesmo tempo, mesmo no fracasso, a oposição venezuelana está dando uma aula sobre como desafiar líderes autoritários no século 21 e um guia sobre como Chávez (ou algum de seus herdeiros políticos) provavelmente será removido no futuro.
A eleição presidencial venezuelana, realizada em 7 de outubro, nunca deveria ter sido tão apertada. O governo fez todo o possível para assegurar isso. Nos comícios, Chávez e seus comparsas usaram a imensa riqueza do petróleo do Estado para distribuir refrigeradores, máquinas de lavar, eletrodomésticos –até mesmo casas novas– para aqueles que professassem sua lealdade. Enquanto Capriles era limitado a três minutos de propagandas de TV por dia, o governo cobriu rádio e televisão com propagandas enaltecendo as realizações de Chávez. Todas as emissoras de rádio e televisão foram obrigadas a transmitir os discursos do presidente, que eram realizados quase todo dia. Funcionários públicos –cujas fileiras incharam na última década– foram lembrados de que seus empregos dependiam de votarem em Chávez. As pesquisas variam, mas com até metade da população duvidando do sigilo do voto, isso passa a ser uma ameaça poderosa. O medo e bens gratuitos são moedas duráveis para um líder autoritário moderno.
Capriles pode não ter feito nada errado, mas sua derrota ainda pode levar a um erro grave: a oposição venezuelana poderia abandonar a estratégia que iniciou apenas recentemente. Apesar de Chávez estar no poder há 14 anos, quase todos os avanços obtidos pela oposição ocorreram nos últimos dois anos. Foi preciso uma década para se livrar da velha geração de líderes políticos, responsáveis pelas políticas fracassadas dos anos 80 e 90, antes de Chávez ter sido eleito em 1998. Apesar da derrota de Capriles, ele e seu grupo de líderes mais jovens são o mais potente desafio a Chávez –note que na eleição de outubro, Chávez adicionou apenas 135 mil votos ao seu total da eleição de 2006; a oposição adicionou quase 1,9 milhão.
A maioria dos líderes autoritários modernos é mais parecida com Chávez do que com Muammar Gaddafi. Eles permitem uma pequena dose de oposição e às vezes uma chance de serem desafiados nas urnas. A oposição venezuelana entendeu três pontos básicos, essenciais para campanhas eficazes contra esses regimes.
Primeiro, a oposição deve se unir. Na Venezuela, isso significou a realização de eleições primárias, para estreitar o campo de candidatos a uma só pessoa, mais capacitada para liderar. É bem mais fácil para um homem forte manter seu governo quando seus oponentes estão divididos e disputando entre si.
Segundo, não basta ser contra o regime –é preciso oferecer soluções. Capriles se concentrou nas preocupações reais dos venezuelanos: aumento da criminalidade, inflação e corrupção. Ele propôs seguir o modelo econômico bem-sucedido do Brasil e lançar iniciativas de educação para combater a criminalidade entre os jovens. Em vez de remover todos os programas sociais de Chávez, Capriles atacou apenas aqueles que fracassaram. Enquanto Chávez condenava a ele e seus apoiadores como “fascistas”, Capriles respondeu com uma mensagem inclusiva, voltada para todos os venezuelanos.
E finalmente, a oposição apresentou um candidato com ligação direta com o povo. Capriles foi governador de Miranda, um grande Estado politicamente influente, onde 70% vivem na pobreza. Ele não poderia se tornar governador sem o apoio dos pobres. Como candidato à presidência, ele fez campanha por toda parte. Ele discursou para grandes públicos em redutos chavistas. Nos últimos dois meses de campanha, ele percorreu todo o país duas vezes.
No final, não foi suficiente. O fato de Chávez ter vencido em um campo de jogo desigual não causa surpresa. Nem a oposição do país deve se surpreender com o que virá a seguir: Chávez aumentará a pressão. Foi após a última eleição presidencial que ele realmente radicalizou sua agenda. Com a proximidade das eleições regionais, ele buscará destruir quaisquer avanços obtidos pela oposição. É possível esperar por investigações seletivas de corrupção, maior censura e qualquer coisa que possa semear a discórdia nas fileiras da oposição. Apesar da oposição ter fracassado em obter uma vitória chocante, ela chamou a atenção do caudilho. Se a oposição se mantiver fiel ao seu novo manual, quando ela tiver sucesso, não será uma surpresa para ninguém.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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