sábado, 20 de outubro de 2012

Os eurocéticos
GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
Enquanto François Holland se alegra com o fim da crise do euro, a União Europeia continua seu "caminho tranquilamente", mas esse caminho está repleto de altos e baixos, pedras, precipícios e perigos. Dois países, pelo menos, não compartilham o otimismo de Hollande e as certezas de Angela Merkel: Finlândia e Grã-Bretanha.
A Grã-Bretanha pertence à União Europeia, mas não à zona do euro. Em princípio, David Cameron, o primeiro ministro conservador, se diz favorável à União Europeia, mas apenas da boca para fora. Ele não perde uma ocasião para distender os elos entre Grã-Bretanha e União Europeia.
Pragmático, como todos os ingleses a partir de 1066, ele não dita princípios. Mas faz gestos. E esses gestos, se reunidos, conseguem desenredar, deixar mais nítidas as relações entre Bruxelas e Londres.
Assim, na segunda-feira, Londres manifestou a vontade de retirar sua adesão aos 130 dispositivos comunitários relacionados à Justiça e à polícia, como por exemplo, o "mandado de prisão europeu" e "o compartilhamento de arquivos de DNA".
A prazo mais longo, David Cameron está decidido a submeter a questão da União Europeia à aprovação dos seus concidadãos, por meio de um referendo em 2015, com o risco de, passado o prazo, o país sair da União.
É verdade que os ingleses têm uma preocupação: a zona do euro, a qual a Grã-Bretanha não pertence, assumiu tamanha importância por causa das ruidosas crises que se repetem, que em Londres o sentimento que impera é de que o país é considerado em Bruxelas como "membro do segundo escalão", o que os ingleses não suportam.
A Finlândia ocupa outra posição. Esse pequeno país bem mais ao norte da Europa faz parte da zona do euro e da União Europeia. O que exaspera os finlandeses é o caos, a complacência, o laisser-faire, o esbanjamento imprudente da zona do euro. Nos conselhos europeus, o premiê finlandês, Jyrki Katainen, representa a linha dura.
Jyrki Katainen detesta todos os dispositivos e artifícios inventados em Bruxelas. Rejeita o imposto sobre transações financeiras, a recapitalização dos bancos espanhóis, o orçamento comum na zona do euro. Para os finlandeses a zona do euro foi pervertida pelas teorias de John Maynard Keynes. "É preciso evitar o pensamento keynesiano americano. Não podemos ter um crescimento baseado na dívida", afirmou o primeiro-ministro finlandês.
Em resumo, quanto mais ao norte da Europa, mais os indivíduos são duros, intransigentes, racionais, luteranos virtuosos. O premiê finlandês é uma Angela Merkel mais aprimorado, uma Merkel pior.
Em ambos os casos, da Grã-Bretanha e da Finlândia, se os dirigentes se mostram tão combativos contra os desvios de rota da Europa, é porque estão ameaçados por um forte avanço dos eurocéticos. No Parlamento britânico, a União Europeia não é apreciada. A zona do euro menos ainda.
Na Finlândia, há o partido dos Verdadeiros Finlandeses, de extrema-direita, defensor dos "pequenos" frente à burocracia de Bruxelas. Eurocéticos resolutos, terceira força política do país.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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