sábado, 22 de fevereiro de 2014

Acordo para conter violência antecipa eleições na Ucrânia
Plano prevê volta à Constituição de 2004 e governo interino de unidade nacional
Assinado por governo e oposição, pacto inclui diversas reivindicações, após os confrontos que mataram ao menos 77 
DIOGO BERCITO - FSP
Governo e oposição assinaram ontem, na Ucrânia, um acordo político para encerrar o ciclo de hostilidades no país. O pacto, mediado pela União Europeia, foi selado após os violentos confrontos durante a semana, em Kiev, com ao menos 77 mortos.
O ajuste formal inclui diversas das reivindicações populares, como o retorno em 48 horas à Constituição de 2004 e a formação em dez dias de um governo interino de unidade nacional. O pleito presidencial foi antecipado em alguns meses e deve ser realizado até o fim deste ano.
O recuo à Constituição é especificamente importante, porque reduz os poderes presidenciais em um país marcado pela concentração das decisões em poucas mãos.
"Não há passos que não devamos tomar para restaurar a paz na Ucrânia", afirmou ontem o presidente Viktor Yanukovich ao tornar públicas as suas concessões.
Respondendo também aos manifestantes da praça da Independência, legisladores votaram pela libertação da ex-premiê Yulia Tymoshenko. Detida há 30 meses, ela é acusada de abuso de poder em processo visto como fraudulento pela comunidade internacional, incluindo a Rússia.
A medida --resultado de uma emenda na legislação criminal-- ainda precisa ser assinada por Yanukovich, aliado da Rússia e rival político de Tymoshenko. Não está claro qual é o cronograma para que ela deixe a prisão.
O Parlamento votou também pelo afastamento de Vitali Zakharchenko, ministro do Interior, visto como um dos responsáveis pela repressão violenta dos protestos.
A votação foi realizada após a renúncia de dezenas de legisladores do governista Partido das Regiões, segundo a agência de notícias Interfax. Após as decisões, parlamentares cantaram o hino nacional ucraniano.
FUTURO INCERTO
Apesar de os líderes da oposição terem aceitado o acordo, há dúvidas sobre sua capacidade de encerrar os meses de crise no país, que nos últimos dias pareceu aproximar-se da guerra civil.
Ontem à noite, manifestantes pareciam ignorar as cláusulas do acordo político que estipulam esforço conjunto de governo e oposição para trazer de volta a normalidade à capital ucraniana.
Os embates violentos desgastaram os manifestantes nas ruas, que exigem a renúncia de Yanukovich. É difícil, por ora, estimar o futuro da praça da Independência.
Não está clara também a real influência dos líderes da oposição sobre a população que tomou a praça em novembro em repúdio à manobra política que aproximou a Ucrânia da Rússia, afastando-a assim da União Europeia.
Organizados e defendidos por barricadas, os manifestantes parecem funcionar como uma espécie de entidade independente no país.
Em vez de levantar suas barracas e deixar o centro de Kiev, opositores reuniam-se durante a noite para celebrar o hino nacional e fazer vigílias pelos mortos, carregando velas acesas. Em diversas ocasiões, durante o dia, a Folha testemunhou velórios públicos ao redor da praça.
"Não acreditamos nas propostas do presidente", diz a agente de viagens Natalia Tolok, 31. "Só vamos para as nossas casas quando Yanukovich for para a casa dele."
A opinião é repetida por dezenas de manifestantes, que repetem que o pacto oferecido por Yanukovich é uma "armadilha" para que deixem as ruas e sejam, então, vítimas da repressão.
As manifestações, ainda que com um pano de fundo complexo, incluindo uma economia fragilizada, fizeram do país campo de combate para as disputas geopolíticas entre Europa e Rússia --com aparente vitória europeia ontem, por meio da mediação dos chanceleres de Alemanha, Polônia e França.
A crise ucraniana preocupa também os EUA, que durante a semana pressionaram o governo de Yanukovich para que interrompesse a violência. Ontem, fontes na Casa Branca afirmavam que o presidente Barack Obama tinha planos de telefonar ao presidente russo Vladimir Putin para discutir o assunto. 

Mérito do avanço nas negociações cabe à diplomacia europeia
SIMON TISDALL - "GUARDIAN"/FSP 
Se o acordo de paz entre o governo e a oposição da Ucrânia se firmar, o crédito caberá aos negociadores europeus, e não à Rússia e aos Estados Unidos, os dois grandes rivais da Guerra Fria cujos interesses tanto fizeram para tornar o país um campo de batalha.
A despeito da presença de um "enviado de direitos humanos" russo, foram os ministros do Exterior de França, Alemanha e Polônia que lideraram os esforços para conter a violência no país.
Quando Putin persuadiu Yanukovich, em novembro, a rejeitar uma associação mais estreita com a União Europeia em troca de um subsídio de US$ 15 bilhões pago pelo Kremlin, ele imaginou estar desferindo um golpe astuto contra um avanço da influência estrangeira no "exterior próximo" da Rússia.
Mas exagerou na jogada. Quando muita gente na Ucrânia rejeitou a decisão, o Kremlin fez pressão sobre Yanukovich para que reprimisse os manifestantes, se necessário com o uso da força.
Esta semana, a Rússia ameaçou suspender a assistência financeira se Yanukovich agisse como "capacho" durante o que o chanceler russo, Sergei Lavrov, descreveu como uma tentativa de golpe apoiada pelo Ocidente.
As táticas russas são parte do habitual jogo de soma zero que Putin adota nas relações internacionais. Na Ucrânia, sua inflexibilidade --produzida por uma mentalidade de Guerra Fria-- chegou perto de causar uma desastrosa queda à guerra civil.
Uma explicação para a atitude de Putin é a de que ele é simplesmente autoritário. Outros veem suas ações como parte de uma tentativa mais ampla de se posicionar como líder das forças mundiais do conservadorismo e porta-voz dos valores "tradicionais".
Putin também pode ter a motivação de impedir que as causas subjacentes da inquietação na Ucrânia --desgoverno crônico e corrupção endêmica-- se tornem justificativa para a derrubada do governo. Caso um precedente como esse fosse estabelecido, os russos teriam muito a temer.
O governo Obama tampouco fez um belo papel na crise. Esta semana, o americano se queixou de que o líder russo estava tratando a Ucrânia como parte do "tabuleiro de xadrez da Guerra Fria".
Mas é exatamente assim que Washington também continua a ver a Ucrânia, e é por isso que suas intervenções, como as de Moscou, foram tão pouco benéficas.

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