Marie Jégo -Le Monde
Baz Ratner/Reuters
Manifestante
antigoverno joga um pneu em chamas sobre uma barricada em Kiev,
Ucrânia. O presidente ucraniano, Viktor Yanukovytch, anunciou nesta
sexta-feira (21) que irá realizar eleições antecipadas até "dezembro, no
máximo". Nos últimos dias, ao menos 70 pessoas morreram nos confrontos
Manifestante
antigoverno joga um pneu em chamas sobre uma barricada em Kiev,
Ucrânia. O presidente ucraniano, Viktor Yanukovytch, anunciou nesta
sexta-feira (21) que irá realizar eleições antecipadas até "dezembro, no
máximo". Nos últimos dias, ao menos 70 pessoas morreram nos confrontos O movimento de protestos desencadeado no final de novembro de 2013, inicialmente pró-União Europeia, logo se tornou anti-Yanukovytch sob o impacto de uma repressão policial impiedosa. Na praça Maidan, ocupada no centro de Kiev, libelos, panfletos e videos ridicularizam o presidente, apelidando-o de "Yanucescu", em referência ao ditador romeno Nicolae Ceaucescu e a seu fim patético em dezembro de 1989.
Quando a estátua de Lênin, situada em frente ao mercado Bessarabski, foi destruída, ela foi substituída por um vaso sanitário pintado de dourado. Ele simboliza o sistema clânico, incompetente e corrupto instaurado por Viktor Yanukovytch desde que foi eleito à presidência em janeiro de 2010, pois dizem que o presidente teria mandado instalar uma descarga e maçanetas de ouro em sua pequena Versalhes de Medjugorje, nos arredores da capital ucraniana. Ainda que nenhum cidadão comum tenha jamais colocado os pés lá…
O estilo de vida presidencial é polêmico. A fulgurante ascensão do filho mais velho do presidente, Olexandre Yanukovytch, que construiu uma fortuna colossal desde que seu pai assumiu o comando do país, é outra fonte de indignação. No Oeste ucranófono e católico, assim como no Leste russófono e ortodoxo, a constatação é a mesma: "O clã de Donetsk se apropriou dos recursos do país."
Donetsk, a grande região mineradora e industrial do Leste, é o berço dos caciques do Partido Russófono das Regiões, majoritário no Parlamento. Viktor Yanukovytch é um de seus pilares.
Nascido no dia 9 de julho de 1950, no vilarejo de Enakievo, ele cresceu entre os montículos de carvão e as chaminés das fábricas. Sua vida não foi fácil. Órfão desde os 2 anos de idade, ele foi criado por sua avó. Quando adulto, sua estatura colossal (mais de 2 metros de altura) intimidava os desordeiros sempre dispostos a brigar. Aos 18 anos, ele foi condenado por roubo, e uma vez mais pela participação em um estupro coletivo. Essas condenações foram apagadas de sua ficha policial quando ele foi disputar a presidência em 2004.
Sua ascensão foi árdua. De gerente de uma companhia de ônibus, ele passou a diretor de empresa. Sua devoção ao clã de Donetsk não tinha limites. A cidade era então palco de acertos de contas entre clãs pelo controle das usinas metalúrgicas. Protegido por Rinat Akhmetov, que hoje é o homem mais rico da Ucrânia, o colosso iniciou uma grande carreira. Nomeado governador de Donetsk em 1997, ele "subiu" a Kiev em 2002, ao se tornar primeiro-ministro.
Na época ele era considerado "simples" e "próximo do povo", extremamente pragmático e nem tão pró-Rússia assim. Sua dicção era desastrosa, ele falava mal o ucraniano, tinha uma pronúncia péssima do russo, e acumulava gafes.
Por trás de seu aspecto de pai de família, com unhas e permanente impecáveis, se escondia um homem manipulador e dissimulado, dado a métodos expeditivos que fizeram seu sucesso no Leste.
Assim, no dia 29 de janeiro, quando os deputados das regiões, ao entenderem a gravidade da situação, se preparavam para fazer concessões (anistia, reforma constitucional) à oposição, Viktor Yanukovytch invadiu o Parlamento, lívido.
Aos xingamentos, ele acusou seu grupo parlamentar de ser conciliador demais. Choveram ameaças, e ele prometeu aos deputados que os "esmagariam no asfalto" e lembrou que ele possuía "dossiês comprometedores" sobre eles. É o estilo de Donetsk, o da máfia disfarçada de elite política, usando ternos feitos sob medida, jatinhos particulares e carros de luxo.
Em três anos que passou à frente do país, Yanukovytch serviu fielmente seu clã e sua família, em detrimento da Ucrânia, agora fadada ao calote e à guerra civil. Será que a promessa de novas eleições, conseguida pela "troika" europeia em visita a Kiev, na quinta-feira (20), bastará para acalmar a situação? "Yanukovytch é especialista em fraude de eleições", lembra um diplomata europeu alocado na Ucrânia.
Mas com a tragédia que vem ocorrendo hoje nas ruas de Kiev, o regime está desesperado. Chocados com as imagens das dezenas de cadáveres espalhado pelo centro de Kiev, doze deputados do Partido das Regiões, majoritário no Parlamento, se desligaram da legenda na quinta-feira (20). Ao mesmo tempo, os militares têm sido cada vez mais solicitados para irem socorrer o presidente.
Na quinta-feira (20), o chefe adjunto do estado-maior, o general Yuri Dumanski, renunciou, preocupado com o plano presidencial de envolver o exército na repressão. Na véspera, o chefe do estado-maior, Vladimir Zaman, fora destituído. Ele não havia manifestado muito entusiasmo diante da brilhante ideia do presidente, que estava decidido a mandar trazer 500 paraquedistas do interior para a capital ucraniana, caso as coisas degringolassem.
Em 22 anos de independência, o país nunca vira tanta violência, nem em 1991, durante a dissolução da URSS, nem em 2004, com a "revolução laranja" que não teve nem tiros, nem vidros quebrados.
A escalada da violência se deve muito ao presidente Yanukovytch, que acumulou gafe sobre gafe ao longo da crise. À incompetência da direção ucraniana, convém acrescentar a mediocridade da oposição, a ineficácia da União Europeia, a impotência dos diplomatas americanos, o jogo sujo de Moscou, a deterioração da situação no local, habilidosamente mantida por uma classe política irresponsável.
Esse terreno deu origem ao incêndio que hoje toma conta de Kiev e cerca de outras quinze regiões do país. A escalada de violência ameaça fazer da Ucrânia, país de 45 milhões de habitantes na junção de dois mundos --europeu e pós-soviético-- , uma nova Iugoslávia no coração do Velho Continente.

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