David Gelles - NYT
As empresas de tecnologia sempre foram paranoicas sobre perder a "próxima grande coisa", seja e-mail, comércio eletrônico ou mídia social. Mas hoje, com Google, Facebook e outras disputando os mesmos clientes e suas carteiras, a competição nunca foi mais intensa, e as grandes companhias nunca tiveram de agir tão rapidamente --e com tal convicção-- para não ficarem para trás.
Esta paisagem modificada
ajuda a explicar por que o Facebook fez na quarta-feira (19) o que
parece ser uma das maiores apostas da história recente da América
corporativa, concordando em comprar a startup de mensagens de texto
WhatsApp por US$ 19 bilhões.
Ao fazê-lo, o Facebook apostou um décimo de seu próprio valor de mercado na crença de que os telefonemas se tornarão cada vez mais obsoletos, enquanto mensagens curtas enviadas de dispositivos móveis permanecerão em ascensão.
Mark Zuckerberg, cofundador e executivo-chefe do Facebook, também está apostando que, em algum ponto da estrada, sua companhia conseguirá ganhar grandes somas com o WhatsApp, serviço que tem 450 milhões de usuários. Ao oferecer uma quantia tão incrível, o Facebook conseguiu um objetivo estratégico crítico: garantir que o WhatsApp permaneça fora das mãos de seu principal rival, Google.
A compra --um dos maiores acordos da internet já realizados e, de longe, o maior na história de dez anos do Facebook-- é um marco que indica o início de uma nova fase intensa de concorrência corporativa no Vale do Silício.
"Essas grandes companhias sentem que não podem perder participação de mercado e 'mind share' para as concorrentes", disse Aileen Lee, sócia da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers. "E elas estão dispostas a pagar muito dinheiro por grandes bases de usuários."
O Google estava entre as companhias que queriam comprar o WhatsApp e recentemente ofereceu US$ 10 bilhões pela empresa, que tem apenas 55 funcionários. O WhatsApp recusou o Google, e seu cofundador e executivo-chefe, Jan Koum, fez uma visita à casa de seu amigo Zuckerberg no subúrbio. Os dois compartilharam almoços e caminhadas nos últimos anos, e Zuckerberg também manifestou interesse em adquirir o WhatsApp. Então, no último fim de semana, enquanto os dois negociavam, Zuckerberg concordou em quase dobrar o preço oferecido pelo Google.
Existem preocupações de que, ao valorizar o número de usuários acima da receita, o Facebook esteja apenas inflando outra bolha das pontocom.
"Em 1999, quando começamos a ver valorizações em uma base 'por olho', foi o início do fim", disse Youssef Squali, um analista da Cantor Fitzgerald que acompanha o Facebook.
Mas, pela lógica única do Vale do Silício, o Facebook pode ter feito um bom negócio. O WhatsApp cresceu mais depressa que quase qualquer companhia na história da web, mais que o próprio Facebook. Está acrescentando um milhão de usuários por dia, prestes a alcançar um bilhão.
Enquanto o WhatsApp tem uma receita nominal neste momento --cobra dos usuários apenas US$ 1 por ano, com o primeiro ano de graça, outros serviços de mensagens ganham dinheiro com uma mistura de taxas de usuário, publicidade e venda de produtos virtuais.
"Os serviços no mundo que têm um bilhão de usuários são incrivelmente valiosos", disse Zuckerberg em uma entrevista por telefone na quarta-feira. "Vemos uma trajetória muito clara à frente e estamos muito entusiasmados por trabalhar juntos nisto."
Facebook, Google e outras já foram acusadas de pagar demais por startups não comprovadas. Mas esse saltos de fé ajudaram a definir as corporações mais bem-sucedidas do Vale do Silício.
Quando o Google comprou o YouTube por US$ 1,6 bilhão em 2006, os críticos chamaram o gigante de buscas de louco. O YouTube é hoje a plataforma de vídeo predominante na web.
Quando o Facebook adquiriu o Instagram por US$ 1 bilhão em 2012, também foi criticado pelo suposto mau investimento. Mas hoje, com o Instagram prosperando e começando a vender publicidade, esse negócio parece uma pechincha.
No WhatsApp, o Facebook não vê um tesouro de patentes ou um modelo de publicidade lucrativo, mas o futuro das comunicações --móvel, interplataformas, barato e internacional. Se a companhia conseguir aumentar o número de usuários do WhatsApp e o tempo que eles passam com o produto, teoricamente será capaz de ganhar dinheiro um dia. Afinal, quando um produto tem um bilhão de usuários precisa ganhar apenas alguns dólares por ano para ser uma empresa robusta.
"Embora pareça surpreendente o número de US$ 19 bilhões, quando você pensa no tamanho do mercado em jogo e no impacto que ele poderá ter na trajetória da empresa a longo prazo, você pode entender o preço", disse Josh Lerner, professor na Escola de Economia de Harvard.
Pelo preço que pretende pagar pelo WhatsApp, o Facebook poderia ter adquirido empresas como United Continental, Best Buy ou Sony. Em vez disso, gastou US$ 16 bilhões em dinheiro e ações e até mais US$ 3 bilhões em unidades de ações restritas em um serviço de mensagens de texto de rápido crescimento. A ação do Facebook subiu 2,3% na quinta-feira, enquanto os investidores apoiavam a filosofia de Zuckerberg de atrair os usuários primeiro e preocupar-se com os lucros depois.
"Tivemos vários casos de companhias que se concentraram em aumentar a base de usuários, aumentar o envolvimento e depois voltar-se para a monetização", disse Squali, da Cantor Fitzgerald. "O próprio Facebook é o maior exemplo disso e acabou recompensado tremendamente."
Mas, a aquisição do WhatsApp pelo Facebook também pode ser vista como uma janela para suas próprias inseguranças. Com novas empresas de internet sendo criadas todos os dias e os consumidores online notoriamente inconstantes, uma "próxima grande coisa" sempre estará surgindo para ameaçar o domínio do Facebook. Em consequência, esta e outras companhias tecnológicas mantêm um claro jogo de comprar seus mais novos concorrentes para manter aqueles usuários fora das mãos de seus adversários.
"Isso expõe a falácia estratégica por trás do Facebook, que foi a ideia de que haveria um monopólio no gráfico social e que o Facebook seria seu proprietário", disse Keith Rabois, sócio da firma de capital de risco Khosla Ventures. "Isso não é verdade, e não acredito que o Facebook possa constantemente comprar sua saída desse desafio estrutural."
Pelo menos por enquanto, o Facebook pode fazer exatamente isso. Depois de fracos primeiros trimestres como empresa de capital aberto, o Facebook é solidamente rentável. No mês passado, relatou US$ 523 milhões em renda líquida sobre US$ 2,6 bilhões de receitas no quarto trimestre, e a companhia pode se permitir alguns erros caros.
O Google também tem bilhões de dólares para gastar em negócios. Sua ação, como a do Facebook, está sendo negociada perto do recorde, tornando fácil pagar por negócios com ações. E outras companhias como Apple, Twitter e Microsoft estão todas igualmente poderosas.
Provavelmente não vai demorar muito para que anunciem o próximo grande negócio.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Ao fazê-lo, o Facebook apostou um décimo de seu próprio valor de mercado na crença de que os telefonemas se tornarão cada vez mais obsoletos, enquanto mensagens curtas enviadas de dispositivos móveis permanecerão em ascensão.
Mark Zuckerberg, cofundador e executivo-chefe do Facebook, também está apostando que, em algum ponto da estrada, sua companhia conseguirá ganhar grandes somas com o WhatsApp, serviço que tem 450 milhões de usuários. Ao oferecer uma quantia tão incrível, o Facebook conseguiu um objetivo estratégico crítico: garantir que o WhatsApp permaneça fora das mãos de seu principal rival, Google.
A compra --um dos maiores acordos da internet já realizados e, de longe, o maior na história de dez anos do Facebook-- é um marco que indica o início de uma nova fase intensa de concorrência corporativa no Vale do Silício.
"Essas grandes companhias sentem que não podem perder participação de mercado e 'mind share' para as concorrentes", disse Aileen Lee, sócia da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers. "E elas estão dispostas a pagar muito dinheiro por grandes bases de usuários."
O Google estava entre as companhias que queriam comprar o WhatsApp e recentemente ofereceu US$ 10 bilhões pela empresa, que tem apenas 55 funcionários. O WhatsApp recusou o Google, e seu cofundador e executivo-chefe, Jan Koum, fez uma visita à casa de seu amigo Zuckerberg no subúrbio. Os dois compartilharam almoços e caminhadas nos últimos anos, e Zuckerberg também manifestou interesse em adquirir o WhatsApp. Então, no último fim de semana, enquanto os dois negociavam, Zuckerberg concordou em quase dobrar o preço oferecido pelo Google.
Existem preocupações de que, ao valorizar o número de usuários acima da receita, o Facebook esteja apenas inflando outra bolha das pontocom.
"Em 1999, quando começamos a ver valorizações em uma base 'por olho', foi o início do fim", disse Youssef Squali, um analista da Cantor Fitzgerald que acompanha o Facebook.
Mas, pela lógica única do Vale do Silício, o Facebook pode ter feito um bom negócio. O WhatsApp cresceu mais depressa que quase qualquer companhia na história da web, mais que o próprio Facebook. Está acrescentando um milhão de usuários por dia, prestes a alcançar um bilhão.
Enquanto o WhatsApp tem uma receita nominal neste momento --cobra dos usuários apenas US$ 1 por ano, com o primeiro ano de graça, outros serviços de mensagens ganham dinheiro com uma mistura de taxas de usuário, publicidade e venda de produtos virtuais.
"Os serviços no mundo que têm um bilhão de usuários são incrivelmente valiosos", disse Zuckerberg em uma entrevista por telefone na quarta-feira. "Vemos uma trajetória muito clara à frente e estamos muito entusiasmados por trabalhar juntos nisto."
Facebook, Google e outras já foram acusadas de pagar demais por startups não comprovadas. Mas esse saltos de fé ajudaram a definir as corporações mais bem-sucedidas do Vale do Silício.
Quando o Google comprou o YouTube por US$ 1,6 bilhão em 2006, os críticos chamaram o gigante de buscas de louco. O YouTube é hoje a plataforma de vídeo predominante na web.
Quando o Facebook adquiriu o Instagram por US$ 1 bilhão em 2012, também foi criticado pelo suposto mau investimento. Mas hoje, com o Instagram prosperando e começando a vender publicidade, esse negócio parece uma pechincha.
No WhatsApp, o Facebook não vê um tesouro de patentes ou um modelo de publicidade lucrativo, mas o futuro das comunicações --móvel, interplataformas, barato e internacional. Se a companhia conseguir aumentar o número de usuários do WhatsApp e o tempo que eles passam com o produto, teoricamente será capaz de ganhar dinheiro um dia. Afinal, quando um produto tem um bilhão de usuários precisa ganhar apenas alguns dólares por ano para ser uma empresa robusta.
"Embora pareça surpreendente o número de US$ 19 bilhões, quando você pensa no tamanho do mercado em jogo e no impacto que ele poderá ter na trajetória da empresa a longo prazo, você pode entender o preço", disse Josh Lerner, professor na Escola de Economia de Harvard.
Pelo preço que pretende pagar pelo WhatsApp, o Facebook poderia ter adquirido empresas como United Continental, Best Buy ou Sony. Em vez disso, gastou US$ 16 bilhões em dinheiro e ações e até mais US$ 3 bilhões em unidades de ações restritas em um serviço de mensagens de texto de rápido crescimento. A ação do Facebook subiu 2,3% na quinta-feira, enquanto os investidores apoiavam a filosofia de Zuckerberg de atrair os usuários primeiro e preocupar-se com os lucros depois.
"Tivemos vários casos de companhias que se concentraram em aumentar a base de usuários, aumentar o envolvimento e depois voltar-se para a monetização", disse Squali, da Cantor Fitzgerald. "O próprio Facebook é o maior exemplo disso e acabou recompensado tremendamente."
Mas, a aquisição do WhatsApp pelo Facebook também pode ser vista como uma janela para suas próprias inseguranças. Com novas empresas de internet sendo criadas todos os dias e os consumidores online notoriamente inconstantes, uma "próxima grande coisa" sempre estará surgindo para ameaçar o domínio do Facebook. Em consequência, esta e outras companhias tecnológicas mantêm um claro jogo de comprar seus mais novos concorrentes para manter aqueles usuários fora das mãos de seus adversários.
"Isso expõe a falácia estratégica por trás do Facebook, que foi a ideia de que haveria um monopólio no gráfico social e que o Facebook seria seu proprietário", disse Keith Rabois, sócio da firma de capital de risco Khosla Ventures. "Isso não é verdade, e não acredito que o Facebook possa constantemente comprar sua saída desse desafio estrutural."
Pelo menos por enquanto, o Facebook pode fazer exatamente isso. Depois de fracos primeiros trimestres como empresa de capital aberto, o Facebook é solidamente rentável. No mês passado, relatou US$ 523 milhões em renda líquida sobre US$ 2,6 bilhões de receitas no quarto trimestre, e a companhia pode se permitir alguns erros caros.
O Google também tem bilhões de dólares para gastar em negócios. Sua ação, como a do Facebook, está sendo negociada perto do recorde, tornando fácil pagar por negócios com ações. E outras companhias como Apple, Twitter e Microsoft estão todas igualmente poderosas.
Provavelmente não vai demorar muito para que anunciem o próximo grande negócio.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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