O gosto da traição
A crise ucraniana é um repto à UE, que precisa definir se ainda pretende encarnar o 'sonho europeu'
Demétrio Magnoli
FSP
"Europa" nunca foi o nome de um bloco econômico, de um mercado comum ou de uma união monetária. O "sonho europeu" invocado em Kiev nasceu em 1950 como uma dupla negação: não a Hitler (isto é, aos nacionalismos desenfreados que deram à luz as duas grandes guerras do século 20) e não a Stálin (isto é, ao totalitarismo comunista que se espraiava pelo leste europeu no rastro da destruição do pós-guerra). A Europa imaginada por Jean Monnet era um edifício de paz e democracia erguido sobre o alicerce da reconciliação franco-alemã. É nessa Europa que, desafiando a utopia neo-imperial de Vladimir Putin e seu próprio governo, a maioria do povo da Ucrânia quer viver.
A Europa de Monnet evidenciou sua vitalidade na hora da queda do Muro de Berlim, quando ofereceu a saída democrática para os satélites soviéticos situados no lado errado da Cortina de Ferro. O rio das revoluções populares de 1989 desaguou num estuário comum porque Helmut Kohl e François Mitterrand tomaram a decisão política da ampliação da União Europeia (UE). Os ucranianos do oeste e do centro do país (mas não as minorias russófonas do leste e da Crimeia) almejam a mesma oportunidade. Essa maioria traduz "Europa" como um sistema político e econômico aberto, sustentado por instituições e por leis, não como um mercado comum ou uma união monetária. No fim das contas, a crise ucraniana é um repto à UE, que precisa definir se ainda pretende encarnar o "sonho europeu".
A mitologia nacional russa diz que a Ucrânia é o berço da Grande Rússia. O catecismo geopolítico de Moscou diz que, sem a Ucrânia, a Rússia perde sua identidade europeia, retrocedendo à condição de país asiático. O drama ucraniano decorre da circunstância de que a tenaz vontade do russa de preservar sua influência sobre o vizinho contrasta com a tibieza dos sucessores de Kohl e Mitterrand. Sob intensa pressão de Washington, e somente quando começaram a se acumular cadáveres na praça de Kiev, os líderes europeus desenharam os contornos das primeiras sanções diplomáticas --que, aliás, não alcançam o governo russo. Mais uma vez, repetindo a desonrosa história das guerras étnicas na antiga Iugoslávia, quando operou como apêndice dos EUA, a UE revela-se incapaz de agir no calor da crise.
Os ucranianos querem ter a chance de, com um quarto de século de atraso, seguir a vereda dos poloneses, dos tchecos e dos húngaros. A "Europa" de Angela Merkel e François Hollande ofereceu um tratado de comércio e cooperação com a Ucrânia, mas não avançou o sinal da prudência cinzenta, delineando um caminho de acesso do país à própria UE. Na hora decisiva, os líderes europeus parecem sofrer de uma conveniente amnésia. A "Europa" emergiu dos destroços da guerra sob o impulso indispensável do Plano Marshall. Contudo, trágica ironia da história, não foi Bruxelas, mas Moscou que tomou a iniciativa de arquitetar a miniatura de um Plano Marshall para a Ucrânia.
O compromisso incerto obtido ontem não garante nada. Se ceder à vontade do Kremlin, a UE estará confessando que 1989 indica apenas um ponto luminoso apagado na névoa do passado. Que os valores pelos quais se morre em Kiev não valem o preço do gás natural russo. Que o "sonho europeu" não passa de uma invocação decorativa em discursos oficiais. Que, agora, "Europa" é, exclusivamente, o nome de um mercado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário