Os fora da lei
Sylvia Colombo - FSP
O fenômeno não é novo na América Latina. Quando o Estado não consegue
ser eficaz para garantir a segurança da população (ou quando quer
afirmar seu poder usando a força sem respeitar as leis e os direitos
humanos), apoia-se em grupos paramilitares. Alguns destes surgem
espontaneamente entre os civis, outros são estimulados e financiados
desde o princípio.
Foi assim com esquadrões da morte em vários países. Também com os
temidos Tonton Macoute, do Haiti, que ajudaram a manter o poder
ditatorial dos Duvalier. Ou com as Autodefesas Unidas da Colômbia, cujo
objetivo inicial era lutar contra as Farc. Ainda com as Rondas
Campesinas, destinadas a combater os terroristas do Sendero Luminoso, no
Peru.
Além de ferirem mortalmente a ideia de Estado de Direito, esses grupos
deixaram para trás um legado de sangue e injustiça, em alguns casos
criando novas forças criminosas que ameaçaram as democracias e
desacreditaram o Estado.
Os erros do passado parecem não ter servido de lição. Agora, em pelo
menos dois países do continente, essa estratégia volta a ser adotada. No
México, são as "autodefesas". Na Venezuela, os "coletivos".
No país do norte, elas ganharam força nos últimos dois anos, na região
do Golfo e no sul. Cansados de sofrer os abusos de narcotraficantes, que
praticam extorsão, sequestram e matam a população local, grupos de
civis decidiram se armar e atacar os criminosos por conta própria. Hoje,
já estão em mais de 11 Estados mexicanos.
Em Michoacán, onde o poder público não consegue atuar devido à força do
cartel dos Cavaleiros Templários, as "autodefesas" são a única esperança
de Enrique Peña Nieto para manter o controle da região. Seu governo
acaba de fazer um acordo com as milícias, integrando-as às guardas
rurais do Exército. A oposição combate firmemente a proposta, uma vez
que significa a legalização de uma milícia paramilitar armada de fuzis e
tanques.
Na Venezuela, os "coletivos" não são novidade e vêm sendo base de apoio
dos governos Chávez e Maduro. Só nos últimos dias, encapuzados e a bordo
de suas motos, espalharam medo e terror nas ruas de Caracas, ajudando a
polícia na repressão dos protestos antigoverno e causando mortes.
A oposição, entidades de direitos humanos e ONGs no México e na
Venezuela vêm alertando para a ameaça que esses grupos representam.
Esses exemplos deveriam iluminar o debate medieval que se instalou no
Brasil depois do caso do adolescente preso num poste no Flamengo, no
Rio. Aos setores da sociedade que apoiam a criação de milícias contra a
criminalidade, vale o convite a conhecer o final dessas tristes
experiências, que terminaram com a criação de entidades monstruosas,
armadas e sem nenhum controle.
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