A complexa relação entre novelas, caos e chavismo
Ibsen Martínez - NYTComo escritor em Caracas nesse momento caótico, vivo em dois mundos diferentes. De dia escrevo roteiros para uma novela, uma coprodução mexicana-venezuelana para a Telemundo. À noite escrevo comentários policiais, principalmente para o Tal Cual, um dos poucos jornais de oposição que restaram na Venezuela.
Levei 30 anos para perceber que as novelas são meramente uma metáfora dramatizada para o populismo latino-americano. Esses programas não tratam tanto de amor não correspondido quanto tratam de mitos de redenção social tão imortais quanto o de Evita Perón.
O tema mais frequente prescreve a redistribuição da renda entre os pobres com pouca consideração sobre como a riqueza é criada, o que de certa forma explica a maior parte da história recente da Venezuela e é um tipo peculiar de socialismo conhecido como Chavismo. Muitos populistas demagogos latino-americanos empreenderam essas "soluções" para a pobreza e a desigualdade inspiradas em Robin Hood desde os anos 30.
Eu queria escrever uma história diferente, a história de uma jovem mulher, uma empreendedora, que ascende da pobreza para a prosperidade através da inovação, da astúcia, uma pitada de capital inicial e muito trabalho duro. O fato de que a América Latina abriga 17% das start-ups do mundo tornou a ideia palatável para os produtores.
No início de janeiro passado, nossa produção se deparou com uma verdadeira tragédia. Monica Spear, uma atriz de 29 anos que era a principal candidata para o papel-título de Nora, e seu marido inglês foram mortos a tiros numa rodovia litorânea.
Foi o tipo de assassinato chocante que normalmente não é noticiado em um dos países mais assassinos da terra, mas dessa vez a mídia não podia ignorar uma vítima que foi Miss Venezuela, baleada na frente de sua filha de 5 anos, que foi atingida na perna mas sobreviveu.
No set de "Nora", México, Colômbia e Venezuela, todos países que sofrem da violência endêmica, estão representados no elenco e equipe. Durante um recente intervalo de almoço, ouvi uma perspicaz atriz mexicana parafrasear a sentença de abertura de "Anna Karenina" de Leon Tolstoy:
"Todos os países pacíficos são parecidos, mas cada país latino-americana violento é violento à sua própria maneira". Na Venezuela, a violência é causada por quadrilhas que eram, originalmente, organizadas em torno de mesquinhas operações de tráfico nas favelas. Uma dessas quadrihas assassinou Monica Spear.
Muitas das quadrilhas foram cooptadas pelo governo chavista e receberam um nome inócuo: coletivos, uma palavra equivocada com tons progressistas de solidariedade comunitária.
De fato, os coletivos agora são temidas forças paramilitares que atormentam manifestantes nas ruas e são responsáveis por muitas das 39 mortes durante os protestos recentes.
Esta violência parece muito distante dos estúdios climatizados e elegantes onde nossa novela é produzida, mas a escassez de bens essenciais, inexplicável num país petroleiro rico, afeta a todos nós.
De vez em quando, as gravações são interrompidas quando um ator ou integrante da equipe recebe um alerta por mensagem de texto dizendo que algum item básico está disponível no supermercado próximo. O estúdio esvazia antes que o estoque racionado de papel higiênico, leite ou farinha de milho acabe.
Muitos atores de novela venezuelanos também fazem teatro, mas os sequestros rampantes e assaltos à mão armada estabeleceram um toque de recolher melancólico sobre a noite antes glamourosa de Caracas, limitando o que os atores podem fazer fora do set.
Enquanto os principais teatros começaram a fechar suas portas, alguns atores decidiram ler seus papeis em praça pública. As linhas vieram de "Jazmines en el Lídice", uma peça premiada de Karin Valecillos, uma das autoras de "Nora". Ela baseou sua peça nos testemunhos de 54 mães venezuelanas que perderam filhos para a violência criminal.
Eu escrevo uma coluna semanal de opinião para o Tal Cual, o corajoso tabloide que Teodoro Petkoff fundou em 2000, no início da era Chávez. Petkoff, 82, é um ex-comandante da guerrilha venezuelana que realizou repetidas fugas espetaculares da prisão nos anos 60 e eventualmente deixou o Partido Comunista para escrever denúncias enérgicas contra a ocupação soviética da Tchecoslováquia e o estalinismo.
Petkoff, que tem ascendência búlgara, tornou-se um ícone dos revisionistas do marxismo latino-americano quando, junto com um pequeno grupo de ex-jovens comunistas, fundou um novo partido em 1971.
Seu ativismo político chegou ao fim quase 30 anos mais tarde, quando ele renunciou para protestar contra a decisão de seu partido de nomear Hugo Chávez como candidato à eleição presidencial de 1998. Ele então começou uma nova carreira - aos 68 anos - como editor-fundador do Tal Cual.
Apesar da pequena circulação, o Tal Cual logo se tornou o jornal de opinião mais influente da Venezuela. Ele publica a marca pessoal dos escritos sociais-democratas à esquerda do centro de Petkoff, bem como vozes mais conservadoras da oposição democrática.
Petkoff lutou incansavelmente contra o regime de Chávez e de seu sucessor. No último conflito, ele enfrenta até quatro anos de prisão e multas multimilionárias em dólares se for considerado culpado por difamação num processo movido por Diosdado Cabello, o segundo homem mais poderoso da Venezuela.
Petkoff admitiu num editoral que o Tal Cual havia repetido um erro cometido por um site de notícias online, mas Cabello não ficou satisfeito e entrou com o processo.
É inspirador observar o velho homem confrontar Cabello. Ele já está planejando colocar o conteúdo na Internet caso o governo cumpra com as ameaças de silenciar o Tal Cual cortando seu fornecimento de papel. "Iremos para a internet", disse aos escritores do jornal. "Nós nunca nos calaremos!", vociferou.
Em uma recente entrevista por rádio, ele disse: "eu não rompi com o comunismo do século passado para acabar aceitando qualquer outra forma de tirania neste século", disse.
Como escrito, posso ouvir a rotina noturna dos tiros e latas de gás lacrimogêneo sendo lançadas pelas tropas de choque no bairro vizinho de Chacao.
Tudo acontece no escuro, enquanto a Guarda Nacional invariavelmente deixa no escuro o reduto de manifestantes jovens e enraivecidos antes que os tanques cheguem.
Pergunto-me como Nora se sairia como uma empreendedora na Venezuela da vida real, um país que está em 175º lugar no Índice Internacional de Liberdade Econômica, acima da Coreia do Norte, Cuba e Zimbábue. Meu melhor palpite é que ela iria para as ruas e se juntaria aos manifestantes.
Tradutor: Eloise De Vylder
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