quarta-feira, 2 de abril de 2014

Comunidade chinesa cresce nas universidades espanholas
Elisa Silió - El País
Wikimedia Commons
Vista de Madri, na Espanha Vista de Madri, na Espanha
Óscar - não existe um chinês sem nome em castelhano - veio à Espanha para estudar comércio há três anos. Quando ele enumera os motivos que o levaram a fazê-lo, o primeiro é o futebol. "Sou madridista", esclarece. Para demonstrá-lo, manda pelo WhatsApp uma autofoto com Cristiano Ronaldo. Define-se como "um profissional do ioiô" que se diverte nas lojas Corte Inglés e tocando saxofone. Mas por trás dessa imagem há um bom estudante que conta com o carinho de seus colegas espanhóis. "É o mais envolvido", dizem sobre ele. Teve que aprender espanhol à força em Valladolid, onde não tinha muitos compatriotas. Isso foi uma grande vantagem. Agora está cercado de outros chineses e não progride tanto.
Na Faculdade de Comércio e Turismo da Universidade Complutense há 320 alunos chineses, de um total de 2.800. Quase todos se concentram no curso de Comércio, onde representam 20% do total. Uma porcentagem assombrosa, mas distante dos 80% do mestrado em Pesquisa em Jornalismo. A comunidade chinesa já é o maior grupo estrangeiro não comunitário na universidade.
São tantos que os cartazes na cafeteria estão em mandarim. Na classe, esses alunos, na maioria produto da política de filho único, sempre se sentam juntos no mesmo banco, na primeira fila, para se ajudarem e entenderem entre todos o máximo possível. O problema é que às vezes compreendem o vocabulário, mas não o conceito da frase inteira. Há os abastados - com a intenção de abrir uma agência de viagens no bairro Salamanca, por exemplo - e também os humildes, que choram por não poder pagar uma disciplina. Filhos de empresários, vestem roupas modernas e esportivas e costumam ter a mais recente tecnologia. Alguns não se separam de seu celulares, que utilizam em uma aula ancorada nos anos 1970 e, quando estão sozinhos, tendem a isolar-se com música.
As garotas, extremamente tímidas, se espantam quando a jornalista se aproxima. Mas Flora e Felipe não correspondem a esse perfil assustadiço. Falam com segurança e sem parar de sorrir. Vêm de províncias distantes de Pequim, onde até há pouco tempo não havia cursos de castelhano. "Há mais estrangeiros em nossa classe que espanhóis. Da França, Ucrânia, América do Sul...", relatam.
Aos trancos e barrancos, ambos vão fechando matérias, mas outros sem um bom nível de espanhol estão muito perdidos. "Vêm me procurar porque não passam, e eu lhes digo: 'Não vão passar nunca se não entenderem as perguntas. Arrumem um namorado espanhol'", relata Ana Rosado, professora de comércio internacional. "Querem aprender critérios da economia ocidental para adaptá-lo à China. Poder passar de resolver um contrato com um aperto de mãos a fazê-lo com um papel e uma assinatura. Em alguns anos terão seus próprios professores e não precisarão sair por esse motivo, mas o idioma continuará lhes interessando", afirma.
Apesar de ter uma média de 9 sobre 10 na China muitos atiram a toalha. No exame da matéria direito civil de setembro estavam convocados 65 alunos, 28 deles chineses. Apresentaram-se dez e três foram aprovados, segundo as listas publicadas. Para eles também é um trampolim para fazer negócios na América Latina. Na Espanha, os estudantes chineses passaram de 500 a 5.722 em uma década, fruto do esforço de quase todos os reitores e dos últimos três ministros, que peregrinaram à China para vender a excelência acadêmica.
"O espanhol logo será o segundo idioma estudado na China, à frente do japonês ou do russo", explica Inmaculada González Puy, diretora do Instituto Cervantes em Pequim. Ela chegou lá há 30 anos, quando não era possível aprender chinês na Espanha, e não pretende voltar. E está "apaixonada" por sua cultura milenar.
Oitenta por cento de seus 4.000 alunos pretendem estudar na Espanha. As tentativas de fomentar a integração não costumam dar certo. "Eles se isolam. Primeiro nos obrigavam mais a trabalhar em grupo com eles", contam os espanhóis Mario, Marcos e Álvaro e o alemão Björn, enquanto comem.
Conhecem o popular Óscar e falam da "chinesa", uma garota bilíngue, como se não houvesse outra entre uma centena de mulheres. "No trimestre passado tive de fazer um trabalho com dois chineses e escrevi cem páginas sozinho, porque são incapazes de redigir", conta um deles, entre resignado e divertido. "O normal é que um fale espanhol e o resto não."
Por isso a professora Rosado montou em 2011 o programa Buddy (colega), que põe em contato 50 duplas de toda a Complutense. Eles ensinam seu idioma nativo e se ajudam. Muitos acabam amigos.
Os alunos espanhóis na cafeteria não acreditam que a presença dos orientais atrase o resto da classe. Outros, por sua vez, acreditam que isso tem um preço. "Você não pode cobrir matrículas à custa de baixar a qualidade, porque um título da Complutense na América Latina tem prestígio", confia uma docente desse campus. "Estão mais pendentes de suas maquininhas que de escutar", afirma o professor da Universidade Rey Juan Carlos, que chegou a ter 50% de alunos desse país em um mestrado de Ciências Humanas.
No outono passado, na Feira da Educação em Pequim, o ministro José Ignacio Wert reconheceu o problema idiomático e prometeu estratégias para solucioná-lo. Inmaculada Delgado, diretora do Centro Complutense para o Ensino do Espanhol, gosta de dividir o coletivo em dois. "Garanto que quem segue nosso programa de 800 horas de espanhol consegue 100% de sucesso na graduação. Temos um aluno chinês número 1 em matemática, outro em química... O que acontece é que há chineses muito ousados, que querem comer o mundo sem saber."
E por que vêm tantos? Em 2007 foi assinado um acordo de reconhecimento de títulos e diplomas, incluindo a Seletividade chinesa (Gaokao). Além disso, se conseguirem no Cervantes um nível A2 de castelhano (o segundo menor de seis), no escritório consular não lhes pedem nenhum papel a mais. A diretora do instituto em Pequim tem certeza de que em longo prazo se exigirá mais nível, "porque não discriminar vai contra as universidades".
Há os críticos. "O que ocorre é uma busca desesperada de financiamento, depois dos cortes em nossos orçamentos", raciocina o docente da URJC, que concentra 666 alunos chineses. Essa universidade, com 11 convênios bilaterais, tem um campus em Fuenlabrada, onde fica o maior polígono chinês da Espanha, por isso parte dos alunos é bilíngue.
O mestrado de Investigação em Jornalismo, com 67 de seus 90 alunos chineses, cumpre esse padrão econômico. "Quando há dois cursos aumentaram as taxas de 1.700 para 4 mil euros, foram-se os europeus e os latino-americanos e parte dos espanhóis", conta María Jesús Casals, sua diretora, contente com a experiência porque "eles têm um compromisso muito grande com suas famílias ou seu governo". Ela desfruta dando aulas de Retórica: "Faz parte de sua cultura. Aprendemos muito quando falam de seus filósofos".
Alcalá de Henares (504 alunos) e a Pontifícia de Salamanca (104) abriram escritório comercial. Granada, com 105, também se destaca. Em poucos anos, 600 milhões de chineses serão classe média. O negócio apenas começou.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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