quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ficaria o Reino Unido mais forte no cenário internacional depois do "Brexit"?
Philippe Bernard - Le Monde
Xinhua/Zhou Lei
Será que o Reino Unido ficaria mais forte no cenário internacional se ele saísse da União Europeia? A questão divide seriamente os britânicos, e estará entre os temas principais da campanha pelo referendo sobre a saída da União Europeia ("Brexit", "British exit") decidido pelo primeiro-ministro David Cameron, e que poderá ser programada a partir do outono de 2016.
O argumento segundo o qual o "Brexit" permitiria que a potência britânica, hoje restringida pela UE, se desenvolvesse plenamente, é usado por políticos eurocéticos e eurófobos. "Não aceito o argumento segundo o qual a saída da UE enfraqueceria nosso país", declarou em junho, ao "Le Monde", o deputado Steve Baker, copresidente do grupo de parlamentares que está preparando a campanha pelo não no referendo. "Se sairmos da UE, só vamos reconquistar influência."
Em 1973, na época da adesão britânica, a Comunidade Econômica Europeia (CEE) era vista como uma zona de prosperidade que iria trazer novas oportunidades de crescimento a um reino atrasado. Hoje, ainda que os indicadores econômicos mascarem graves desigualdades, eles são brilhantes - com um crescimento anual de  2,4% e uma redução de 5,4% do desemprego - em comparação com os do continente.
O dinamismo insolente de Londres e a preeminência do mercado financeiro da City reforçam, para alguns, a ideia segundo a qual a UE teria se tornado um fardo, sobreposta por uma certa nostalgia pós-imperial: Nigel Farage, líder do partido pela independência do Reino Unido (UKIP, eurófobo e xenófobo), mas também muitos parlamentares conservadores acreditam que a zona de influência natural do país não é a Europa, mas sim a Ásia, a África e sobretudo os Estados do Commonwealth, que seriam zonas de crescimento mais desejáveis do que a Europa, segundo eles. Contrários à livre-circulação dos europeus, eles chegam ao ponto de defender a ideia de dar prioridade aos cidadãos do Commonwealth em matéria de imigração.
Instituições e personalidades favoráveis à permanência na UE têm se mobilizado contra essa corrente, organizando debates que alertam para as consequências de um "Brexit". O prestigioso instituto de relações internacionais Chatham House organizou, no final de junho, uma conferência sobre "o lugar do Reino Unido no mundo", que poderia ser interpretado como uma réplica aos argumentos, amplamente disseminados na mídia, a favor de uma saída "por cima" e benéfica da Europa.

Os três círculos de Churchill

A visão pragmática de Churchill segundo a qual o Reino Unido poderia exercer sua influência no mundo na intersecção de três círculos – seu império, o mundo anglófono (EUA) e a Europa – não vale mais há muito tempo, explicou Robin Niblett, diretor da Chatham House. A pretensão imperial acabou com a crise de Suez em 1956 e o país se reposicionou como aliado fiel dos Estados Unidos durante a guerra fria. O declínio econômico dos anos 1960 e 1970 fez com que Londres se conscientizasse da necessidade de se reaproximar da CEE, como era chamada a comunidade europeia à época. Mas o país nunca rompeu com a ambição de apostar nas três frentes, inclusive reivindicando uma "influência pós-imperial", o que explica sua "relação difícil com a Europa."
Cameron, explicou Niblett, tentou manter a concepção churchilliana transpondo-a "para o terreno da diplomacia comercial". Mas essa ambição de fazer o papel de "hub" internacional no cruzamento de grandes redes ativas sobre assuntos cruciais como o mercado financeiro, a governança da internet e o meio ambiente "não funciona mais" devido ao declínio das capacidades materiais de influência. A política de austeridade conduzida desde 2010 resultou em uma redução de 19% do orçamento da Defesa e de 16% do Foreign Office.
O diretor da Chatham House, por não estar sujeito à punição dos eleitores, pode afirmar uma opinião que somente pouquíssimos políticos expressam: "O Reino Unido deve começar a considerar a Europa como seu primeiro círculo, os Estados Unidos como o segundo e as relações bilaterais ou multilaterais – com o resto do mundo – como o terceiro." Enquanto figuras do setor patronal, contrárias às regulamentações europeias, afirmam que a grama seria mais verde uma vez fora da UE, Niblett lembrou o interesse que haveria em o país ser integrado a um mercado de mais de 500 milhões de habitantes: "É pouco provável que o Reino Unido obtenha por si mesmo melhores condições de acesso para seus serviços nos mercados emergentes."
O fato de que seja necessário relembrar tais evidências, diante de uma plateia muitas vezes cética, dá uma ideia do clima de desconfiança no qual terá início a campanha do referendo. A ilusão de que o Reino Unido conquistará uma influência muito maior depois de ter se "livrado" da UE é reforçada pela constatação de que ele tem um peso cada vez menor dentro de União. Segundo uma pesquisa de opinião, para dois em cada três britânicos, o país tem "pouca ou nenhuma" influência na UE, e a França e a Alemanha é que a conduzem. São muitos os que querem acreditar que a ameaça do "Brexit" permitirá que o Reino Unido de repente volte a ocupar o centro do jogo. A começar por Cameron.
Quantos bilionários teriam de fazer uma vaquinha para ajudar a Grécia?
A fortuna dos cinco homens mais ricos do mundo seria quase suficiente para pagar toda a dívida grega (cerca de US$ 351 bilhões). Juntos, Bill Gates, Carlos Slim, Warren Buffett, Amancio Ortega e Larry Ellison (da esquerda para a direita) têm US$ 347,8 bilhões, segundo cálculos da revista "Forbes" Arte/UOL

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