Flatulências excessivas
Se alguém é gordo ou negro, por que não usamos as palavras exatas para traduzir a realidade exata?
João Pereira Coutinho - FSP
Anos atrás, entrei num restaurante de Lisboa para um almoço de trabalho
com um jornalista português. Cheguei com 20 minutos de atraso. O espaço
estava lotado.
Deambulei pelas mesas e não havia sinal do meu comparsa. Falei com o
maître. Disse que tinha um encontro com um colega e perguntei se havia
algum cavalheiro sozinho no espaço, à minha espera. Ou, pelo menos, se
alguém ali estivera e resolvera ir embora.
O funcionário perguntou-me como era o camarada. Gelei. Comecei por
considerações vagas. Moreno. Quarenta e tal anos. Altura média. "Isso
não é grande ajuda", disse ele, gracejando. Subi a parada.
- Gordinho.
Nada.
- Gordo.
Nada.
- Uma coisa monstruosa.
Mentira. Fiquei pelo "gordinho", pronunciado a medo, e o rosto do homem
iluminou-se. "Sim, senhor: creio que está no bar". E estava.
Foi a primeira vez que senti o demônio da autocensura sobre as minhas
inocentes palavras. Não é elegante descrever fisicamente alguém para
identificação. Mas, aqui entre nós, não é elegante por quê? Se alguém é
gordo (ou magro); negro (ou branco); deficiente (ou atleta olímpico),
por que motivo não usamos as palavras exatas para traduzir uma realidade
exata?
Não serão os eufemismos ("ele parece um lutador de sumô"; "ele tem um
tom de pele mais noturno"; "ele tem limitações na locomoção física") um
insulto ainda pior? Gordo, negro, deficiente: por que motivo as coisas
não são simplesmente como são?
O linguista John H. McWhorter, em artigo para o "The Wall Street
Journal", ajuda a responder: porque todas as eras têm as suas
"profanidades".
Na Idade Média cristã, as palavras proibidas eram invariavelmente de
natureza religiosa. Invocar o nome de Deus em vão era pecado capital e
os nossos antepassados, para evitarem o "Oh God!", optavam pelas
variantes "Oh gosh!" ou "Oh golly!", que ainda hoje sobrevivem na
linguagem coloquial anglo-saxônica.
As coisas começaram a mudar na Idade Moderna: com a emergência de uma
burguesia fluente e afluente, que procurava refinar os seus hábitos e
comportamentos, as "profanidades" interditas começaram a lidar com
matérias físicas, e não metafísicas. Alusões sexuais (ao ato e aos
órgãos respectivos) ou escatológicas (ao ato ou às matérias expelidas)
quase desapareceram do linguajar.
De fato, confere: quando olhamos para os textos medievais, a genitália
de ambos os sexos era usada e abusada sem sentimento de culpa. O que se
entendia: se o corpo era matéria perecível e pecaminosa, o que saía dele
(ou entrava) não merecia grandes pudores.
Foi preciso esperar pelo século 18 para que o temor a Deus se
convertesse no temor à vulgaridade: criticar a Igreja e os seus
prelados, tudo bem; gastar o latim com a fornicação e a flatulência,
tudo mal. E hoje?
Hoje, as "profanidades" contemporâneas lidam com a sensibilidade de
"grupos" ou "minorias", sobretudo quando repousa sobre eles a sombra das
discriminações presentes ou passadas. Blasfemar contra Deus ou
apimentar a conversa com as intimidades do quarto é moeda corrente.
Falar sobre negros, mulheres, gays ou anões é caminhar sobre campo
minado.
Não admira que, na visita ao Quênia, o discurso mais aplaudido de Barack
Obama tenha sido uma defesa dos direitos dos homossexuais no país.
Fato: denunciar um sistema judicial que criminaliza a homossexualidade
com penas de prisão é um ato nobre do presidente.
Mas Obama não se limitou a falar desse assunto: a endêmica corrupção do
país, por exemplo, foi outra das suas preocupações. A corrupção no
Quênia é um dos principais motivos para que a ONG Freedom House
considere o país como "parcialmente livre". Alguém notou?
No seu ensaio sobre a história das "profanidades", John McWhorter mostra
como os tabus de ontem –Deus, sexo, escatologias várias– deixaram de
fazer sentido no século 21.
O que permite concluir que a preocupação histérica com a sensibilidade
de "grupos" ou "minorias" será incompreensível para os homens do século
22. Que, por sua vez, terão novos tabus que somos incapazes de imaginar
ou antever. Porque seremos sempre incapazes de imaginar ou antever
aquilo que nos irá amedrontar no longo prazo.
No fundo, talvez esta seja a moral da história: não vale a pena marchar
com indignação pela causa politicamente correta do momento. Ela estará
morta no futuro e você, leitor, será apenas lembrado como piada.
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