Investigações da Lava Jato avançam no setor elétrico
Almirante da reserva é acusado de receber R$ 4,5 mi em propina em Angra 3
Nova frente cria riscos para o PMDB, que é apontado por delatores do esquema como beneficiário de propina
BELA MEGALE, ESTELITA HASS CARAZZAI E GRACILIANO ROCHA - FSP
A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira (28) o presidente licenciado
da Eletronuclear, o almirante da reserva Othon Luiz Pinheiro da Silva,
acusado pelos procuradores da Operação Lava Jato de receber propina de
empreiteiras que participam da construção da usina nuclear de Angra 3.
Segundo o Ministério Público Federal, as construtoras Andrade Gutierrez,
Camargo Corrêa, Engevix, Techint e UTC pagaram nos últimos seis anos R$
4,5 milhões em propina a uma firma de consultoria que pertenceu a
Othon, que assumiu a presidência da Eletronuclear em 2005 e se licenciou
em abril deste ano.
Batizada pelos policiais de Radioatividade, a operação desta terça marca
a abertura de mais uma frente de investigação para os procuradores que
conduzem a Lava Jato. Eles acreditam que os desvios encontrados na
Petrobras se reproduziram em Angra 3 e outras obras do setor elétrico.
O avanço das investigações nessa área cria riscos para o PMDB, que
controla o Ministério de Minas e Energia, e pode criar desconforto para a
presidente Dilma Rousseff, que chefiou o ministério no início do
governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tem aliados em
postos-chave nas estatais do setor.
"É um primeiro passo da investigação na área de energia", disse o
delegado Igor Romário de Paula, ao comentar os resultados da operação.
Segundo o Ministério Público, Othon recebeu parte da propina paga pelas
empreiteiras em dezembro do ano passado, quando as investigações sobre
corrupção na Petrobras já tinham avançado muito e havia mais de uma
dúzia de executivos de empreiteiras presos em Curitiba.
"A corrupção no Brasil é endêmica e está em processo de metástase",
disse o procurador Athayde Ribeiro Costa, da força-tarefa da Lava Jato.
DELATOR
As investigações sobre Angra 3 começaram após o depoimento do
ex-presidente da construtora Camargo Corrêa Dalton Avancini, que em
março decidiu colaborar com as investigações para se livrar da cadeia e
obter pena reduzida.
Ele disse aos procuradores que a Camargo Corrêa e outras empreiteiras
pagaram propina para garantir seus contratos em Angra 3 e na usina
hidrelétrica de Belo Monte. As duas obras têm orçamentos bilionários e
estão entre as maiores em execução no país.
Segundo o delator, a propina em Angra 3 era equivalente a 1% do valor da
obra, que tem custo estimado em R$ 15 bilhões, e os destinatários do
dinheiro eram o PMDB e dirigentes da Eletronuclear.
Preso em caráter temporário, por cinco dias, o almirante Othon está
afastado da Marinha desde 1994, quando se aposentou e abriu uma empresa
de consultoria para trabalhar em projetos do setor privado na área de
energia.
Nas décadas de 70 e 80, ele liderou o programa secreto da Marinha que
levou ao desenvolvimento das centrífugas de enriquecimento de urânio que
hoje produzem parte do combustível das usinas nucleares de Angra dos
Reis.
Othon assumiu a presidência da Eletronuclear quando o PMDB passou a
controlar o Ministério de Minas e Energia e conduziu as negociações que
permitiram retomar as obras de Angra 3 em 2009.
Também foi preso em caráter temporário nesta terça um executivo da
Andrade Gutierrez, Flávio Barra. Além da Andrade Gutierrez e da Engevix,
outras empresas que atuam nas obras foram alvo de buscas: MPE,
Odebrecht, Queiroz Galvão e Techint.
Em um de seus depoimentos, Dalton Avancini disse também que pagou R$ 10
milhões em propina ao senador Edison Lobão (PMDB-MA), que chefiou o
Ministério de Minas e Energia até o ano passado. Lobão, que nega as
acusações, é alvo de um dos inquéritos conduzidos pelo STF (Supremo
Tribunal Federal).
O dono da UTC, Ricardo Pessoa, outro empreiteiro que passou a colaborar
com as investigações, também disse que pagou propina a Lobão em troca de
facilidades nas obras de Angra 3. Pessoa afirmou ainda que pagou
suborno de R$ 1 milhão para obter uma decisão favorável do Tribunal de
Contas da União às construtoras envolvidas com a obra.
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