Reinaldo Azevedo - VEJA
Bem,
bem, bem… Então vamos pensar um pouco, né?, coisa mais complexa do que
acender a fogueira da demagogia. João Vaccari Neto, então tesoureiro do
PT, informa a força-tarefa da Lava Jato, esteve 53 vezes na sede da
Andrade Gutierrez entre 2007 e 2014. Ex-bancário, sindicalista, petista
etc., vai ver o homem ia lá tomar algumas aulas sobre concreto armado,
estai, pilar, vão livre, essas coisas da engenharia… Sabem como é a
curiosidade intelectual…
Ir à sede de
uma empreiteira não é crime. Por si, não é prova de que Vaccari fosse
tratar de algum assunto ilegal. O problema é que pelo menos cinco
delatores dizem que ele era destinatário de propinas decorrentes de
obras contratadas pela Petrobras: Alberto Youssef, Paulo Roberto Costa,
Pedro Barusco, Eduardo Leite e Augusto Mendonça. O “companheiro” diz que
só recebia doações legais, devidamente registradas. Mas 53 vezes em
oito anos? Só entre 2 de julho de 2012 e 7 de abril de 2014, ele se
encontrou com Flávio David Barra, que foi preso ontem, nada menos de 20
vezes, 17 delas em dez meses. Haja assunto lícito, não é mesmo?
Diz o
Ministério Público que a Andrade Gutierrez fez da corrupção um modelo de
negócio. Acho, sinceramente, um exagero retórico. Não creio que se
construa a segunda empreiteira do país, uma das grandes do mundo, tendo a
falcatrua como meta e horizonte, o que não impede, obviamente — e a
Lava Jato está aí, com uma porção de descalabros revelados —, que se
apele a esse expediente. Quando um único ex-funcionário da Petrobras, do
escalão intermediário, aceita devolver US$ 97 milhões, a gente tem uma
medida de como andavam as coisas.
Os meus
leitores sabem que não compro a tese do cartel de empreiteiras — o que
leva alguns oportunistas a inferir que eu esteja negando os crimes
cometidos pelas empresas. Quem lê o que está escrito, não o que gostaria
que eu escrevesse para endossar a sua crítica pilantra, sabe que não é
isso. Aliás, Vaccari parece ser um bom exemplo. Ele visitou a Andrade
Gutierrez 57 vezes, não o tal “clube das empreiteiras”. Há uma penca de
evidências de que o direcionamento das obras tinha origem na Petrobras,
que estava subordinada a um controle político, do qual, agora sim,
Vaccari fazia parte porque, afinal, era e é uma das autoridades do
partido do poder.
Quando nego a
tese do cartel, aponto, de fato, algo bem mais grave do que isso. Eu
realmente não acredito que uma empresa do porte da Andrade Gutierrez
faça do roubo um modelo de negócio, mas acredito, sim, que associada a
um poder delinquente — falo em tese — possa delinquir como forma de
realizar ao menos parte dos seus negócios. Não que se organize com esse
fim — porque aí o Ministério Público teria de afirmar que a própria
empresa é uma quadrilha, o que parece difícil de provar —, mas é
evidente que pode cometer crimes para obter um determinado fim. E isso
vale para todas as outras empreiteiras.
Peço que o leitor raciocine com calma e responda em silêncio a algumas perguntas:
1) quem fazia os preços das obras da Petrobras, da Eletronuclear ou de qualquer outro ramo do estado? Eram as empreiteiras, organizadas em cartel, ou o poder público e suas franjas?;
2) quem detinha e detém os marcos regulatórios para definir a concorrência ou para eliminá-la?;
3) quem dispunha do poder discricionário de tirar do negócio as empresas que eventualmente dissentissem das práticas dominantes?;
4) um cartel se impõe por força do seu domínio econômico: eram as empreiteiras ladravazes que se impunham a um estado inerme ou era o estado, tomado por ladrões, que impunha os seus critérios?;
5) o leitor já procurou a definição técnica do que é “cartel” para aplicar ao caso em questão? Recomendo que o faça.
1) quem fazia os preços das obras da Petrobras, da Eletronuclear ou de qualquer outro ramo do estado? Eram as empreiteiras, organizadas em cartel, ou o poder público e suas franjas?;
2) quem detinha e detém os marcos regulatórios para definir a concorrência ou para eliminá-la?;
3) quem dispunha do poder discricionário de tirar do negócio as empresas que eventualmente dissentissem das práticas dominantes?;
4) um cartel se impõe por força do seu domínio econômico: eram as empreiteiras ladravazes que se impunham a um estado inerme ou era o estado, tomado por ladrões, que impunha os seus critérios?;
5) o leitor já procurou a definição técnica do que é “cartel” para aplicar ao caso em questão? Recomendo que o faça.
A resposta a
essas perguntas não minimiza os crimes eventualmente cometidos pelas
empreiteiras; apenas os define segundo a sua natureza, não segundo a
natureza de uma tese que, por enquanto, vai absolvendo os criminosos que
realmente tinham, se me permitem a licença, o domínio do fato político.
Se não
acredito que uma empresa possa ter como propósito e modelo de negócio o
cometimento de ilícitos — a menos que seja um tentáculo do crime
organizado —, acredito, no entanto, agora sim, que uma estrutura
criminosa possa se assenhorear do poder e, então, impor seus hábitos,
suas regras, suas leis. Se não há um estado criminoso do outro lado do
balcão, ele próprio vai criar as defesas contra eventuais práticas
deletérias dos agentes privados. E puni-las exemplarmente quando houver.
Em vez de eu
ouvir o Ministério Público a dizer que uma empreiteira fez do crime o
seu modelo de negócio, gostaria de ouvi-lo a anunciar aquilo que,
parece-me, evidenciam os fatos: um grupo político fez do crime o seu
modelo de conquista do estado. Aí sim! Por enquanto, os agentes desse
delito de lesa-pátria estão por aí… E essa é a minha principal
restrição à forma que tomou a Lava Jato.
Há um risco
nada desprezível de que se chegue à constatação, ao fim da operação, de
que agentes privados, tomados pela sanha do lucro a qualquer custo,
corromperam um estado originalmente ético e de que esse estado será
tanto mais ético quanto menos relações mantiver com entes privados. Se
triunfar essa versão, estaremos apenas preparando as condições para os
desastres futuros.
É evidente
que um liberal ou um conservador com um mínimo de respeito à história do
pensamento não pode ficar satisfeito com essa perspectiva. Por
enquanto, os que cometeram crimes contra a democracia brasileira estão
distantes da cadeia e dos tribunais. Quando é que a Operação Lava Jato
vai alcançá-los, Rodrigo Janot?
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