quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tensões étnicas em Xinjiang complicam os laços entre China e Turquia
Edward Wong - NYT
Osman Orsal/Reuters
Manifestantes queimam a bandeira da China durante protesto contra o país asiático nas proximidades do consulado chinês em Istambul, na Turquia, no início de julho
Manifestantes queimam a bandeira da China durante protesto contra o país asiático nas proximidades do consulado chinês em Istambul, na Turquia, no início de julho
Para muitos chineses, as imagens vindas da Turquia neste mês são ferozes e assustadoras.
Videoclipes e fotos online de Istambul mostram manifestantes turcos e de etnia uigur queimando uma bandeira chinesa do lado de fora do consulado da China; homens furiosos correndo ameaçadoramente na direção de turistas coreanos, aparentemente achando que eram chineses; e uma turba de maioria uigur quebrando vidraças do consulado tailandês, depois que a Tailândia enviou mais de 100 uigures de volta à China contra a vontade deles.
Os chineses podem se perguntar se esta é a mesma Turquia que está atraindo os turistas de seu país em grande número –ou, a propósito, a que concordou em comprar um sistema de defesa antimísseis de uma empresa chinesa, ou a que pagou a empresas estatais chinesas pela construção de uma ferrovia de trem-bala entre suas duas maiores cidades.
A Turquia, herdeira do Império Otomano, há muito se vê como protetora dos povos de língua túrquica por todo o arco da Ásia Central –e que inclui os uigures de maioria muçulmana de Xinjiang, na região oeste da China, onde tensões étnicas e explosões de violência entre os uigures e os hans, o grupo étnico dominante na China, estão crescendo devido ao que os uigures dizem ser repressão oficial, enquanto as autoridades chinesas culpam a ideologia terrorista.
Alguns analistas se perguntam se esta questão, uma que há muito ferve na Turquia, poderia minar os crescentes laços econômicos e diplomáticos entre os dois países e manchar a imagem de cada país aos olhos do outro. As perguntas surgem enquanto o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, deixou Ancara, a capital turca, na terça-feira para uma visita de Estado à China.
"O comércio bilateral está crescendo, a China vendeu à Turquia algumas armas e a cooperação tem ocorrido em vários campos", disse Yin Gang, um pesquisador do Oriente Médio da Academia Chinesa de Ciências Sociais. "Mas o problema uigur de alguma forma está se colocando no caminho. O público turco tem se mostrado hostil em relação à China por causa disso e não há muito que possamos fazer."
O gabinete de Erdogan não forneceu detalhes na terça-feira sobre sua viagem à China. Os jornais turcos próximos do governo noticiaram que o presidente será acompanhado por um grupo de empresários turcos. Eles não disseram se Erdogan, que também está lidando com a escalada do combate da Turquia contra o Estado Islâmico e contra os militantes curdos, pretende tratar da questão uigur com os chineses.
Dois desdobramentos trouxeram à tona nas últimas semanas a questão uigur no relacionamento entre os dois países. No início de julho, turcos e uigures protestaram nas ruas de Istambul e Ancara, a capital turca, após ouvirem que a China estava forçando os uigures em Xinjiang a comerem durante o mês de jejum muçulmano do Ramadã –e, possivelmente, matando os violadores. (Não houve confirmação de que mortes ocorreram.) As manifestações de rua foram associadas a um partido político turco conservador e nacionalista.
Dias depois, turcos e uigures protestaram contra a repatriação forçada de uigures pela Tailândia, um ato também condenado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e por organizações de direitos humanos. As autoridades chinesas insistem que os uigures planejavam ir para a Síria e para o Iraque, via Turquia, para se juntarem ao Estado Islâmico.
A China e a Turquia também tiveram alguns atritos diplomáticos recentes em torno do tratamento dado aos uigures em Xinjiang. Em 30 de junho, o Ministério das Relações Exteriores turco disse que relatos de proibição do jejum do Ramadã e limitações a outras observâncias religiosas "causaram tristeza entre a população turca" e que a Turquia transmitiu suas "profunda preocupação" ao embaixador chinês.
A China respondeu que aquilo era apenas uma campanha de propaganda: Hua Chunying, uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, disse em Pequim que "os uigures vivem e trabalham em paz e contentes, e desfrutam de liberdade religiosa segundo as regras da Constituição".  As agências de notícias estatais chinesas publicaram artigos e postaram no Twitter sobre uigures jejuando durante o Ramadã na China.
"Atualmente há rumores e distorções que causam tensão no relacionamento bilateral", disse Yang Shu, um ex-emissário chinês para a União Soviética e chefe do Instituto para Estudos Centro-Asiáticos da Universidade de Lanzhou, na China. "Por exemplo, a suposta proibição ao Ramadã em Xinjiang, que levou aos protestos em Istambul, não pode ser verdadeira. Nenhum governo é capaz de declarar essa proibição a quase 15 milhões de muçulmanos em Xinjiang."
Mesmo assim, há base factual para as preocupações da Turquia. Nos últimos anos, as autoridades em Xinjiang proibiram funcionários do governo, professores e estudantes em áreas predominantemente uigures de jejuarem durante o período diurno. Mas a proibição não se aplica a toda a sociedade.
Erdogan adotou uma posição comedida a respeito do assunto, tentando atender às simpatias domésticas em relação aos uigures e ao mesmo tempo tranquilizar a China. Em uma reunião de 9 de julho com embaixadores em Ancara, ele disse: "Nós expressamos no mais alto nível nossa preocupação com nossos irmãos que vivem na Região Autônoma Uigur e continuaremos a fazê-lo. Mas os incidentes provocativos em Istambul não condizem com nossa hospitalidade e nem são uma solução para os problemas de nossos irmãos uigures".
Ele acrescentou que "as alegações sobre pressão da China sobre nossos irmãos na Região Autônoma Uigur de Xinjiang provocaram sensibilidade junto a nosso público", segundo o "Hurriyet", um jornal turco. "No entanto, em grande medida, as imagens e relatos circulando na mídia tornaram essa sensibilidade propensa a exploração, deliberada ou não."
Os chineses tanto daqui quanto na Turquia estão cientes da hostilidade. Wang Xiao, 26, que estava viajando na Turquia com seu namorado neste mês, disse que encontrou uma manifestação anti-China perto do Palácio de Topkapi em 4 de julho –o mesmo evento no qual alguns manifestantes tentaram atacar turistas coreanos. Ela disse que apesar de ter considerado a maioria dos turcos amistosa, os manifestantes estavam realizando protestos "hostis e perigosos".
Outra turista, Zhu He, 23, disse por telefone da Turquia que acredita que os "radicais religiosos" eram minoria, mas acrescentou: "Eu não viria à Turquia se pudesse escolher de novo".
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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