quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Estratégia perigosa
FSP
A tensão no Oriente Médio exacerbou-se nos últimos dias com o rompimento das relações entre a Arábia Saudita e o Irã.
Rivais na disputa geopolítica da região, os dois países são os polos atuais de um milenar conflito entre as duas principais vertentes do islã: a maioria sunita, corrente seguida na Arábia Saudita, e a minoria xiita, predominante no Irã.
Embora exista esse pano de fundo religioso, e apesar de a crise ter sido deflagrada pela execução do principal clérigo xiita na Arábia Saudita, Nimr al-Nimr, seria um erro ignorar as razões profanas que parecem estar por trás da escalada.
Primeiro porque a monarquia saudita decerto antevia as consequências políticas de determinar a morte de Al-Nimr e de outras 46 pessoas. Depois porque as presumíveis consequências servem aos interesses de Riad tanto no plano doméstico quanto no internacional.
Dificilmente a rara execução de um proeminente religioso xiita deixaria de ser recebida pelo Irã como um desafio direto –algo ainda mais previsível no caso de Al-Nimr, acusado de apoiar terroristas e condenado à pena capital num julgamento em torno do qual pairam sérias dúvidas.
Como era de esperar, o país persa reagiu com retórica inflamada. Seu líder supremo, Ali Khamenei, declarou que os políticos sauditas sofrerão um castigo divino, enquanto manifestantes incendiaram a embaixada árabe em Teerã.
Em resposta, a Arábia Saudita anunciou o rompimento das relações diplomáticas com o Irã, no que foi seguida por aliados como Kuait, Bahrein e Sudão.
Alimentada pelo sectarismo religioso, a crise ajuda a monarquia a desviar a atenção da população dos problemas econômicos resultantes da prolongada queda nos preços do petróleo –uma política decidida pelo próprio país–, bem como de erros estratégicos, caso da fracassada intervenção no Iêmen.
Na frente internacional, atende ao propósito de mobilizar uma espécie de coalizão antixiita a fim de manter o isolamento de Teerã. Com o sucesso do acordo nuclear entre o Irã e os EUA, a Arábia Saudita receia que sua posição no Oriente Médio termine ameaçada pela reinserção do país persa –e fará de tudo para atrapalhar esse processo.
O uso do sectarismo religioso para fins políticos não constitui novidade, mas o expediente suscita particular apreensão na atual conjuntura. As guerras civis, o fortalecimento de facções terroristas e o rescaldo da Primavera Árabe tornam os desdobramentos da estratégia mais perigosos e mais imprevisíveis do que em outros tempos. 

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