sábado, 13 de outubro de 2012

População da Escócia em meio a dúvidas sobre independência em relação ao Reino Unido
Frances Cairncross  - Prospect
O político mais inteligente das ilhas britânicas, o primeiro-ministro escocês, Alex Salmond, tem jogado com uma mão nada promissora com extraordinária habilidade. O Partido Nacionalista Escocês, cuja conferência terá início em 18 de outubro em Perth, continua sendo de forma esmagadora o partido mais popular do país. Mas defender a independência tem se tornado mais difícil em um momento em que deveria ser mais fácil. Daí o atual impasse entre os nacionalistas e Westminster sobre se deve ser oferecida simplesmente a independência à Escócia ou adicionar uma segunda opção menos assustadora, uma espécie de devolução, para aqueles de inclinação mais nervosa. Michael Moore, o secretário de Estado britânico para a Escócia, disse firmemente: “Não há uma segunda pergunta a ser feita”. 
Esse esfriamento ocorreu não apenas pelos Jogos Olímpicos terem deixado os escoceses se sentindo mais calorosos em relação ao Reino Unido. Eles também começaram a pensar um pouco mais sobre os riscos econômicos da independência. Um levantamento realizado no final do ano passado apontou que apenas 21% dos escoceses votariam pela independência se isso os fizesse perder 500 libras de sua renda ou mais. Reescrevendo a esplêndida Declaração de Arbroath de 1320, que declarou a independência escocesa: “É na verdade nem por glória, nem por riquezas e nem por honras que lutamos, mas pela liberdade –desde que não custe mais que 500 libras a cada um”. 
É claro, a liberdade parece menos atraente quando não há necessidade de rechaçar uma invasão pelo rei Eduardo 2º para assegurar muitos de seus benefícios. De fato, o governo escocês oferece vantagens que não estão disponíveis ao sul da fronteira: os escoceses dispõem de assistência pessoal universal gratuita, além de universidade gratuita; fala-se sobre creches gratuitas e melhores aposentadorias. Mas o imposto do conselho local está congelado e outras taxas não são mais altas do que no sul. Os gastos públicos per capita na Escócia foram 14% mais elevados do que no Reino Unido como um todo em 2010-2011, e o setor público proporciona um quarto dos empregos escoceses, em comparação com um quinto no Reino Unido como um todo. 

Não é de se estranhar que os escoceses se sintam ambivalentes em relação à promessa de seu governo de cortar os laços com os sulistas que financiam essa mágica. Em julho, antes do brilho das Olimpíadas alterar o sentimento, 30% dos escoceses disseram ao YouGov, a agência de pesquisas, que a Escócia deveria ser um país independente; 28% gostavam do status quo; e 29% eram favoráveis a uma maior fatia dos impostos. 
À medida que o referendo prometido se aproxima em 2014, os escoceses terão de descer do muro. A decisão àquela altura será ainda mais difícil, pois o Reino Unido como um todo está apenas iniciando a desgastante redução dos gastos públicos. Por mais de uma geração –sob os conservadores, trabalhistas e agora a coalizão– a arrecadação fiscal do Reino Unido não subiu muito acima de 38% do produto interno bruto. E não há motivo para esperar que o percentual aumente –nem mesmo com o imposto sobre riqueza do vice-primeiro-ministro Nick Clegg. Poderia cair ainda mais, caso o 1% dos contribuintes do imposto de renda que é responsável por 28% da receita decida se aposentar. 
Independente de a Escócia permanecer dentro ou fora do Reino Unido, a revolução nas medidas públicas ao longo dos próximos 20 anos transformará sua economia, assim como transformará outras partes do país que dependem muito de dinheiro e empregos públicos. Por ora, a ameaça de sair da união ajudou a rechaçar parte da dor dos cortes, como na recente redução de pessoal militar. Mas isso não pode durar. Quando os gastos públicos precisarem ser cortados entra ano, sai ano, a Escócia sofrerá mais do que o sul. Reclamar das decisões tomadas em Londres será mais fácil do que assumir a responsabilidade pelo que precisa ser feito. 
Os escoceses precisam decidir eles mesmos o que cortar e como pagar pelo que desejam manter. Há dois anos, uma revisão orçamentária independente corajosa e ponderada, realizada por sir Crawford Beveridge, estabeleceu as prioridades desconfortáveis na frente dos gastos. O princípio de universalidade “não é mais viável”; o quadro de funcionários do setor público precisa ser reduzido; o congelamento do imposto do conselho precisa terminar; um esforço orquestrado é necessário para identificar economias nos gastos públicos em todos os níveis. Nada disso aconteceu.
Para preservar esses serviços, a única opção seria mais impostos –muito mais impostos– e o petróleo sozinho não poderia fornecê-lo. Mas quando os escoceses tinham o poder para aumentar ou diminuir o imposto de renda em 3%, o “imposto tartan” nunca foi usado, e agora esse poder acabou. A soberania econômica, quando oferecida, de repente pareceu pouco atraente. 
É claro, há uma alternativa: tornar-se um paraíso fiscal. Os escoceses anseiam por copiar os baixos impostos para pessoas jurídicas da Irlanda para atrair as empresas para o norte. A União Europeia pode muito bem proibir isso. E também existem os ricos do Reino Unido: se eles pagam muito mais impostos per capita do que a classe média, pode fazer sentido também atraí-los. Uma Escócia independente teria um bom início. Não apenas a segunda maior aglomeração de gestão de riqueza do Reino Unido se encontra na Charlotte Square de Edimburgo e arredores, como a capital escocesa também educa uma maior proporção de crianças em escolas particulares do que qualquer outra cidade no Reino Unido. Estranhamente, os escoceses igualitários nunca alardearam nenhum das duas como vantagens nacionais. 
Uma Escócia independente poderia oferecer um bônus de 500 libras para todos seus cidadãos. Ela poderia contemplar algumas concessões desagradáveis de soberania; uma estratégia tributária para atrair os plutocratas insatisfeitos da Inglaterra, ou um grupo de universidades autorizadas a cobrar as taxas que quisessem. 
Seria muito melhor os escoceses tomarem suas próprias decisões sobre como cortar os gastos públicos e aumentar impostos do que ver seu país como um Estado cliente da Inglaterra. Mais algumas toalhas de chá estampadas com a Declaração de Arbroath poderiam lhes dar coragem para concordar. 
*Frances Cairncross é reitora da Faculdade Exeter da Universidade de Oxford e ex-editora-gerente da revista “The Economist”.
Tradutor: George El Khouri Andolfato    

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