Quando os balbucios dos bebês ganham viés político
Quando uma mãe exausta escreveu em um fórum da internet, no ano passado, que pretendia encaminhar sua filha deficiente para o sistema de assistência social porque as autoridades locais haviam recusado seu pedido de auxílio financeiro, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, expressou sua preocupação no dia seguinte, em uma entrevista coletiva.
Quando as mães exigiram, no mesmo site, que os varejistas acomodassem as “revistas masculinas” mais saidinhas fora da vista das crianças, grandes redes de supermercados rapidamente anunciaram planos de fazer isso.
Esse é o poder do Mumsnet, site voltado à educação das crianças que tem amplificado sua considerável presença on-line e a transformado em uma voz alta o suficiente para que seja ouvida no cenário nacional – e nos escritórios dos líderes políticos do Reino Unido.
Os meios de comunicação britânicos apelidaram as eleições parlamentares de 2010, as primeiras da era das mídias sociais, de “a eleição do Mumsnet”. Tanto Cameron quanto Gordon Brown, que era primeiro-ministro à época desse pleito, participaram de bate-papos on-line com os usuários do site, respondendo a perguntas sobre temas tão variados quanto impostos, bônus dos banqueiros, amamentação e creches.
Uma mulher até pediu que Brown a ajudasse a escolher o nome de seu novo filho a partir de uma lista de opções. “Todos os seus nomes soam bem!”, hesitou ele. Brown elogiou os usuários do site por fazerem perguntas inteligentes e difíceis e disse que o Mumsnet estava “mudando a maneira de viver do Reino Unido”.
O Mumsnet é uma combinação eclética de elementos mundanos, interesses capitalistas e temas íntimos, do tipo que só existe on-line. Os usuários do site batem papo sobre como fazer as crianças usarem o peniquinho e sobre a fada do dente e aprofundam seus vínculos falando sobre problemas mais graves, como depressão e divórcio, além de fazerem barulho sobre grandes questões sociais, como o estupro. Resenhas de produtos, como carrinhos de bebê, e perguntas e respostas sobre aspiradores de pó e máquinas de lavar geram receita para o site.
É uma mistura que parece atrair os poderosos e dar ao site – fundado no ano 2000 por duas profissionais britânicas que são mães – uma voz que é mais ouvida do que as de sites semelhantes de outros países.
O Mumsnet é formado por “pessoas reais que conversam umas com as outras sobre coisas reais que interessam a elas”, disse Jo Phillips, que recentemente escreveu sobre o site para a “Total Politics”, uma revista política. Segundo a “Total Politics”, o site proporciona aos políticos uma maneira de “olhar pela janela, ouvir pelo buraco da fechadura” as preocupações dos eleitores.
Quando Alan Johnson, à época secretário da Saúde, participou de um bate-papo com o Mumsnet, em 2008, os usuários o questionaram sobre o tratamento insensível concedido pelo Serviço Nacional de Saúde às mulheres que sofriam aborto natural.
“O Mumsnet me informou que eu não poderia me esquecer dessa questão”, disse ele. Logo, o departamento dirigido por Johnson começou a trabalhar em novas diretrizes para tratar mulheres que sofrem aborto natural. Hoje em dia, Johnson diz que só teve conhecimento desse problema quando os usuários Mumsnet o alertaram.
O site não foi fundado com a intenção de alcançar influência política, disse Justine Roberts, cofundadora e principal executiva do Mumsnet.
Ela e Carrie Longton, amigas de um curso pré-natal, lançaram o site bem no momento em que a bolha das pontocom estava estourando. Depois de um período de férias desastroso com seus gêmeos pequenos, Roberts pensou que poderia haver pessoas interessadas em um site que proporcionaria aos pais uma maneira de compartilhar conselhos e experiências sobre educação infantil, disse ela.
O timing se mostrou terrível. As taxas dos anúncios publicitários on-line despencaram meses após o site entrar no ar.
“Todos os planos de negócios que eu havia criado eram, essencialmente, um desperdício de papel”, disse Roberts, que já havia trabalhado como operadora do mercado financeiro e jornalista esportiva free-lancer.
O dinheiro era escasso e as parceiras administraram a companhia de suas casas durante anos – foi só em 2008 que elas conseguiram alugar um escritório.
“Nós constantemente recebíamos e-mails de usuárias dizendo: ‘Esse site salvou a minha vida. Eu estava em um estado deplorável, eu estava amamentando, eu ia deixar o meu marido’. Ou dizendo: ‘O site me ajudou a deixar o meu marido’”, ela rememora. “Parecia que o site estava funcionando bem em todos os quesitos, menos no sentido comercial.”
O Mumsnet disse que hoje recebe mais de 5,7 milhões de visitas por mês, incluindo 2,7 milhões de usuários únicos. As receitas são provenientes da publicidade tradicional e também da cobrança direcionada a empresas que querem ter acesso aos usuários que dão feedback sobre produtos ou falam sobre eles a outros usuários. A empresa se recusou a revelar seu lucro líquido.
Roberts disse que os membros do Mumsnet, que entram para a rede após se cadastrarem no site, têm poder de veto sobre todas as suas decisões mais importantes.
Por exemplo: o site não aceita anúncios da Nestlé devido ao receio de que a promoção da fórmula de leite para bebês da empresa possa estar prejudicando a amamentação com leite materno. Os anúncios do McDonald’s também foram barrados durante três anos – até que os usuários do site mudaram de opinião no ano passado e votaram pelo retorno dos anúncios da empresa de fast-food ao site.
Os usuários também impulsionam as campanhas temáticas do Mumsnet. O esforço de conscientização em relação ao estupro, batizado de “Nós acreditamos que você”, começou com um post perguntando quantas usuárias do Mumsnet haviam sido estupradas ou abusadas sexualmente. Chocadas com a avalanche de mensagens emotivas, as administradoras do site realizaram sua própria pesquisa, e os membros do Mumsnet logo começaram a escrever em blogs e a postar mensagens no Twitter sobre o assunto.
“Eram páginas e páginas de mulheres que contavam suas histórias, algumas delas pela primeira vez”, disse uma blogueira que usa o nome de Lynn Schreiber e que fez parte do esforço. Ela mantém sua verdadeira identidade em sigilo devido à natureza pessoal de seus textos.
Roberts disse que o site utiliza seu poder de comunicação com cuidado. O Mumsnet não endossa causas políticas e apenas faz campanhas sobre questões que recebem o apoio quase unânime de suas salas de bate-papo.
“O poder está na democracia desse processo”, disse ela. “Nós não queremos mudar o mundo. Mas, certo dia, políticos vieram bater em nossa porta, querendo falar com o nosso público. Seríamos negligentes se não tentássemos.”
A influência do Mumsnet veio de sua combinação de tamanho e conhecimento prático, disse Christine Cheng, que dá palestras sobre as mulheres na política no King’s College de Londres.
“Você tem de ter a massa crítica e você tem de optar por usá-la de forma política”, disse ela, observando que a maioria dos sites para pais não participa de debates públicos. O Mumsnet, disse ela, dá às pessoas uma maneira de serem ouvidas em seu papel de pais.
Ela comparou papel público do site britânico ao da AARP (American Association of Retired Persons), organização dos EUA voltada para os idosos e as pessoas de meia-idade, que ganhou força ao unir os eleitores em torno de questões ligadas à sua faixa etária.
“Se você tivesse um equivalente desse site nos EUA, e que se baseasse nas ideias que as pessoas têm sobre o que significa ser pai e mãe, talvez houvesse uma licença-maternidade melhor nos EUA”, disse ela.
Embora os sites voltados para a educação das crianças sejam abundantes em todo o mundo, há poucos sites em outros países ocidentais que tenham o mesmo domínio de mercado e a mesma influência política que o Mumsnet.
Enquanto sites como o BabyCenter e o Circle of Moms, dos Estados Unidos, oferecem espaço para que os pais conversem e compartilhem ideias, nenhum deles possui uma influência significativa para além da web. O grupo MomsRising se envolveu no debate político dos EUA, hospedando bate-papos em vídeo com senadores e se manifestando a respeito de questões como assistência médica e igualdade de remuneração, mas não consegue atrair nem de longe o mesmo tipo de atenção que tem o Mumsnet.
Na Alemanha, a força de atitudes tradicionais significa que as mães não se veem como politicamente poderosas, disse Imke Henkel, correspondente da revista alemã “Focus” em Londres.
As mulheres francesas não se organizam em torno de seu papel de mãe porque elas relutam em ser rotuladas e reduzidas a essa identidade, disse Franck Mathevon, correspondente da Radio France. “Não é possível imaginar na França um grupo como o Mumsnet”, disse ele.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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