sábado, 22 de fevereiro de 2014

Restauração de igreja une cipriotas gregos e turcos em país dividido há décadas
Liz Alderman em Kontea- NYT
Quando esta ilha ainda não tinha sido dividida entre o controle grego e turco, a igreja de St. Charalambos nesta pequena aldeia era um lugar de encontro para todos. Mas depois de décadas de divisão e negociações infrutíferas entre os líderes políticos, a população se cansou de ver sua tinta descascando e seu altar decadente. E tomou o assunto em suas próprias mãos.
Como a igreja, as relações entre as duas comunidades tinham desmoronado depois que a ilha foi dividida com a invasão militar turca de 1974. Mas neste mês, as brocas dos artesãos turcos entraram em operação. Marceneiros gregos esculpiram floreios no altar. Depois de dois anos de trabalho, os artesãos de ambas as comunidades apressadamente poliram a igreja em tempo para uma grande crisma que uniu quase 500 cipriotas gregos e turcos em uma celebração sob suas abóbadas altas -a primeira vez que a igreja foi usada em 40 anos.
"Depois de todo esse tempo, as pessoas estão prontas para se reconciliarem", disse Xenios Konteatis, 79, cipriota grego aposentado. Konteatis morava em Kontea antes de a invasão turca obrigar sua família a fugir em prantos ao que é hoje o sul controlado pelos gregos.
"É claro que ainda há um monte de lembranças dolorosas", acrescentou Konteatis, que precisa passar pelos guardas turcos e por barreiras de arame farpado para chegar à aldeia, onde sua antiga casa permanece ocupada por colonos turcos. "Mas temos a vontade de nos unir".
O esforço popular extraordinário para restaurar St. Charalambos está entre pelo menos 40 projetos de cooperação que foram iniciados em toda a ilha para restaurar monumentos gregos e turcos, inclusive mesquitas, que se deterioraram com a divisão de Chipre.
Os projetos talvez sejam o sinal mais tangível que as recriminações antigas nas pequenas comunidades da ilha se suavizaram e se tornaram um desejo de cura, que vai além dos progressos feitos pelos políticos cipriotas gregos e turcos.
Na semana passada, o presidente Nicos Anastasiades do Chipre e o líder cipriota turco, Dervis Eroglu, reuniram-se em Nicósia, a capital, pela primeira vez desde que as negociações foram interrompidas pela última vez, em 2012. Eles declararam que a situação atual é inaceitável.
Várias negociações de paz entraram em colapso em meio a disputas sobre a partilha do poder, a redefinição das fronteiras e as reivindicações de milhares de pessoas que tiveram que deixar suas casas. No entanto, mesmo que os esforços políticos tropecem, os projetos de paz liderados pelos cidadãos, como o de Kontea, estão prosperando.
"Kontea representa um esforço popular genuíno no sentido de encontrar um propósito comum", disse John M. Koenig, embaixador dos EUA no Chipre. "É uma história inspiradora, e outras estão acontecendo".
A leste de Kontea, cipriotas turcos na cidade portuária de Famagusta se uniram aos gregos que tiveram que ser deslocados para exigir a reabertura de Varosha, uma praia espelhada que atraiu Elizabeth Taylor e outras estrelas. Hoje, ela se deteriorou e se transformou em uma verdadeira cidade fantasma sob arame farpado e os rifles dos soldados turcos.
Qualquer renovação dependeria de um avanço nas negociações de paz. Mas os moradores estão fazendo planos de transformar Varosha em uma cidade ecológica, na esperança de estimular o desenvolvimento econômico.
"Antes, havia acusações de ambos os lados –sobre quem destruiu o quê, quem é o responsável", disse Takis Hadjidemetriou, cipriota grego que lidera o Comitê Técnico da ONU de Patrimônio Cultural com um colega turco. "Estamos decididos a mudar o clima de confronto para um clima de cooperação, para o bem de todos os cipriotas".
"O povo cipriota não têm ódio em seu coração", continuou ele. "Cada um entende a dor do outro, que é considerada a dor de Chipre".
Esse é o caso em Kontea, uma aldeia que fervilhava de atividade até a invasão expulsar os gregos. Em 2003, as proibições de travessia da Linha Verde foram aliviadas, e Charalambos S. Pericleous, um ex- morador, foi cativado pela possibilidade de trabalhar com os turcos que hoje moram aqui e restaurar a vila à sua antiga glória.
"Foi a primeira vez que entrei em contato com os cipriotas turcos nesse nível", disse Pericleous, atual presidente da Fundação Kontea Heritage. "Tínhamos medo que eles reagissem negativamente. Ficamos surpresos com a resposta muito positiva".
Nem todos estavam a bordo. "Tivemos alguns problemas, porque nem todo mundo pensava como nós", disse Ali Tayip, cipriota turco que é supervisor da restauração. "Havia pessoas que contra a paz e contra qualquer interação entre gregos e turcos. Mas o projeto ajudou a formar uma ligação, e agora eles estão mais próximos uns dos outros".
Tradutor: Deborah Weinberg

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