segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Apesar de rumores, nem tudo é que é de ferro é de Eiffel
William Neuman - NYT 
Meridith Kohut/The New York Times
Em Arica, no Chile, pilar tem nscrição com marca da empresa de Gustave Eiffel Em Arica, no Chile, pilar tem nscrição com marca da empresa de Gustave Eiffel
Os moradores locais a chamam de Ponte de Ferro, uma passagem estreita e charmosa por cima do rio Chili, entre plantações de alho de um verde pálido e o cume rachado do vulcão Misti levantando-se à distância. Livros de viagem, guias turísticos e moradores apontam com orgulho para a ponte, uma expressão fluente da Revolução Industrial, como sendo uma obra de Gustave Eiffel, o engenheiro do século 19 que construiu a Torre Eiffel e projetou o esqueleto de ferro dentro da Estátua da Liberdade.
Acontece que ela não é. Assim como muitos outros prédios e pontes no Peru e no resto da América do Sul que são popularmente atribuídos ao francês famoso.
"Qualquer coisa feita de metal na América do Sul, as pessoas dizem que foi feita por Eiffel", diz Darci Gutierrez, professora de arquitetura em Arequipa, a segunda maior cidade do Peru, que passou anos tentando derrubar o que ela chama de "mito Eiffel".
O mito tem um pouco de verdade. Quando jovem, anos antes de se tornar famoso por sua torre para a Feira Mundial de Paris de 1889, Eiffel comandou uma empresa de engenharia bem sucedida na França, projetando prédios e pontes para clientes do mundo todo e enviando as estruturas em peças de ferro pré-fabricadas, para serem montadas no local como um Lego.
Banqueiros franceses o encorajaram a buscar oportunidades no Peru, um país que estava enriquecendo com as exportações de fertilizante de guano, mas ainda não tinha as fundições e o conhecimento técnico para a construção de ponta com ferro. Eiffel enviou um representante em 1871.
Sua companhia perdeu um contrato lucrativo para desenvolver o principal porto marítimo do Peru em Callao, mas Eiffel foi escolhido para pelo menos dois outros projetos no sul do Peru, que estava passando por uma reconstrução depois de um terremoto devastador em 1868 – uma igreja em Tacna, e um píer e alfândega em Arica, que hoje faz parte do Chile.
O empreendimento sul-americano não durou muito, contudo. De acordo com o biógrafo francês de Eiffel, Bertrand Lemoine, o representante de Eiffel morreu em 1873. A companhia aparentemente não teve projetos no continente depois disso, embora tenha continuado os que estavam em andamento.
Tudo isso é história, construída com pedras, tijolos e ferro e sustentada por documentos guardados em arquivos. Mas é também onde o mito começa.
Em Arequipa, conhecida como a Cidade Branca por causa da cor da pedra usada em muitas de suas construções do período colonial, o mito persiste apesar de provas claras contra ele. Além da Ponte de Ferro, muitas pessoas aqui acreditam que Eiffel projetou e construiu uma estação de trem e o movimentado mercado de San Camilo – uma atribuição que "não tem base em fatos", segundo um dos principais historiadores da cidade, Eusebio Quiroz.
É fácil imaginar que a ponte é obra do criador da Torre Eiffel, mas a própria estrutura revela sua verdadeira origem. Gravadas em suas vigas estão as palavras "Phoenix Iron Co. Philada". A Phoenix era uma companhia da Pensilvânia especializada em pontes ferroviárias, e Philada é uma abreviação de Philadelphia.
Gutierrez diz que a ponte é parecida com outras construídas pela Phoenix, e que não há provas de qualquer ligação de Eiffel com a companhia ou a ponte.
Ainda assim muitos moradores de Arequipa, conhecidos como arequipenhos, preferem acreditar em um pedigree mais ilustre.
"Esta ponte foi construída pelo cara que construiu a Torre Eiffel", diz Lucio Gonzalez, 60, agricultor que tem uma pequena casa de pedras bem debaixo da ponte.
Mesmo nos poucos casos em que o envolvimento de Eiffel é indiscutível, a história pode não ser nada simples. No caso da igreja em Tacna, documentos e fotos remanescentes mostram que Eiffel conseguiu um contrato para a construção, que as colunas de ferro e outras peças chegaram, e que duas torres de pedra para os sinos da igreja foram erguidas parcialmente.
Mas a obra foi interrompida em 1879 quando estourou a guerra do Peru com a Bolívia, de um lado, e com o Chile do outro. Os chilenos tomaram Tacna e não a devolveram para o Peru até 1929. Quando a obra na igreja recomeçou nos anos 50, os planos de Eiffel estavam perdidos ou esquecidos, e um novo projeto foi desenhado.
O Chile também tomou o desordenado porto de Arica, perto de Tacna, e o manteve quando a fronteira com o Peru foi redesenhada depois da guerra. Em uma indicação de que a inimizade permanece mais de um século depois, uma placa na estrada do lado chileno da fronteira alerta: "Perigo - Minas terrestres".
Aqui, diz Gutierrez, os documentos históricos mostram que a alfândega de tijolos vermelhos e brancos – hoje usada como um centro cultural – foi de fato projetada e construída pela companhia de Eiffel antes da guerra.
Mas ela levantou dúvidas sobre o marco arquitetônico mais aclamado da cidade, a Igreja de San Marcos. Uma placa de bronze diz que a igreja, feita quase que totalmente de ferro, é um monumento nacional, e declara que foi construída por Eiffel em 1875.
O biógrafo Lemoine disse que embora uma fotografia da igreja apareça entre os registros de Eiffel, as provas para a atribuição não são conclusivas.
Tradutor: Eloise De Vylder

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