Estados Unidos vivem segunda onda de legalização da maconha
Kirk Johnson - NYT
Leah Nash/The New York Times
30.out.2014
- Mandi Puckett, diretora da campanha ''Não a Medida 91'', segura
pacotes com maconha mostrando a diferença na quantidade de maconha
permitida pela lei do Colorado (esq.) e na legislação proposta no OregonDois anos depois que os eleitores do Colorado e Washington quebraram o gelo como os primeiros Estados a legalizar as vendas de maconha para uso recreativo para adultos, moradores do Oregon, Alaska e Washington, D.C., votarão propostas baseadas nas desses dois Estados pioneiros. O significado de serem os segundos da fila, dizem pessoas de ambos os lados da questão, é que essas propostas podem determinar se haverá uma onda nacional de legalização.
E os democratas descobriram que apoiar a legalização – antes um convite para ser rotulado de leniente com o crime – não carrega mais o risco de antigamente, à medida que a discussão pública sobre a superlotação das prisões e orçamentos para as polícias colocou a questão em outra perspectiva.
Grupos nacionais que há muito defendiam a legalização forneceram militantes e dinheiro, junto com a ajuda de um setor legal de produção de maconha que não existia em 2012. A antiga coalizão antidrogas, enquanto isso, teve dificuldades de conseguir apoio e dinheiro. Os defensores da legalização fizeram mais eventos para levantar fundos do que seus oponentes em Oregon, com mais de 25 para 1, e no Alaska, com 9 para 1.
"A coalizão de apoio é definitivamente maior, e a oposição se dividiu", diz Corey Cook, professor associado de política na Universidade de San Francisco que acompanha o debate sobre maconha.
O contraste entre as forças favoráveis e contrárias à legalização ficou aparente esses dias em Oregon. No centro de Portland, hipsters com pranchetas distribuíram broches para os passantes, registraram eleitores e argumentaram para que votassem sim para a Medida 91, enquanto consultores políticos davam os retoques finais em uma campanha publicitária de US$ 2 milhões.
Enquanto isso, os oponentes organizaram um de seus maiores eventos em Keizer, subúrbio de Salem, capital do estado. Intitulado "A maconha e nossos jovens", a sessão teve duas horas de apresentações em Power Point e denúncias veementes da droga. Mas ninguém nem mesmo mencionou a Medida 91: os participantes e organizadores, muitos deles de grupos sem fins lucrativos financiados pelo governo e envolvidos em serviços de tratamento para dependentes, temiam violar as leis que proíbem fazer política com dinheiro público.
Os oponentes estavam, segundo eles próprios admitiram, atrasados na formação de uma organização unida, e sua campanha tinha cerca de apenas US$ 10 mil para propaganda, que começou no final de semana passado com spots em duas rádios de Portland.
"Eles fizeram um bom trabalho em deixar todo mundo quieto", disse Joshua K. Marquis, promotor público em Clatsop County e oponente da legalização, referindo-se às forças pró-91.
A campanha a favor da legalização em Oregon e no Alaska é financiada em grande parte por organizações nacionais. No Alaska, 84% dos US$ 867 mil levantados pelos proponentes da legalização na Yes on Ballot Measure 2, vêm do Marijuana Policy Project, um grupo com sede em Washington, D.C., com um conselho que inclui atores, músicos e políticos, entre eles Gary Johnson, candidato do Partido Libertário para presidente em 2012. Oponentes da legalização no Alaska levantaram apenas US$ 97 mil.
No Oregon, a Drug Policy Alliance, com sede em Nova York e apoiada pelo investidor bilionário George Soros, saiu à frente, contribuindo com pelo menos US$ 780 mil este ano, de acordo com dados do Estado, o equivalente a cerca de 35% do dinheiro levantado pelo principal comitê de apoio à legalização.
Empresas relacionadas à maconha e investidores no Colorado, Washington e Califórnia contribuíram com pelo menos US$ 60 mil. Entre os contribuintes estão O.penVAPE, uma companhia com sede em Denver que vende produtos concentrados para o consumo como óleo de haxixe, a Privateer Holdings, uma firma de investimento em maconha de Seattle, e Vicente Sederberg, que se autointitula "a firma de advocacia da maconha".
Houve alguma oposição bem financiada contra a legalização, especialmente na Flórida, onde os eleitores decidirão se vão se tornar o primeiro Estado no sul do país a permitir a maconha para certos usos médicos. Lá, Sheldon G. Adelson, executivo de cassinos de Las Vegas, contribuiu com US$ 5 milhões para os oponentes da maconha medicinal, cerca de 86% do total levantado pelo comitê que luta contra a legislação.
Mas no Oregon não houve um "papai rico", como coloca Marquis, promotor do condado. Os oponentes levantaram apenas cerca de US$ 179 mil. A Iniciativa 71, em Washington, D.C., pode permitir que os moradores carreguem menos de 60 gramas de maconha para uso pessoal e cultivem até seis pés da planta em casa. A Medida 2 no Alaska permitiria a adultos o porte de menos de 30 gramas e o cultivo de até seis plantas.
Apoiadores da legalização no Oregon e no Alaska disseram que o dinheiro foi essencial para superar o que, segundo eles, foram anos de informações incorretas e distorções por parte da polícia de grupos antidrogas sobre os riscos da maconha.
"A oposição fez uma campanha forte por 50 anos, e ela foi construída em torno das prisões de pessoas. Uma indústria massiva foi construída em torno disso", disse Richard Branson, empresário fundador do Virgin Group e membro do conselho de honra internacional da Drug Policy Alliance.
Oponentes dizem que estão enfrentando, pela primeira vez, um complexo industrial emergente.
"Isso não diz respeito aos habitantes do Alaska fumarem maconha em suas casas, mas sim a uma comercialização e industrialização por parte de uma indústria", diz Charles Fedullo, porta voz do Big Marijuana Big Mistake, que se opõe à Medida 2 no Alaska.
Quer a coalizão antidrogas do passado esteja morta ou apenas dormindo, ambos os lados concordam que os velhos argumentos não funcionam mais.
"Os pais de hoje são os filhos de ontem que fumavam maconha e têm uma experiência pessoal. Portanto, o tipo de propaganda que mostra ovos fritos não funciona com eles", disse Soros em uma entrevista no início deste ano, referindo-se a uma campanha de televisão antidrogas que mostrava um ovo fritando em uma frigideira e o enunciado "este é o seu cérebro sob efeito das drogas".
Mas também há pressão sobre os proponentes das medidas para não fracassarem, porque cada novo estado é uma espécie de teste, dizem eles.
"Se ganharmos, acho que isso mostrará que a opinião pública decididamente mudou – ganhamos em dois ciclos eleitorais", diz Peter Zuckerman, porta-voz da New Approach Oregon, o principal grupo apoiando a legalização. "Se perdermos, acho que ficará muito mais difícil", disse ele. "Temos de manter o ímpeto."
Tradutor: Eloise De Vylder

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