Na nova equipe de Dilma, o velho loteamento
Reeleita, a presidente
começa a montar sua nova equipe com reedição dos "três porquinhos",
substituto de Mantega e nomes indicados por aliados
Gabriel Castro - VEJA
Em 5 de setembro, quando Marina Silva ainda ameaçava seriamente a
reeleição de Dilma Rousseff e a Bolsa de Valores tornava evidente a
desconfiança do mercado com o programa do PT, a presidente e então
candidata deu o primeiro sinal de que faria mudanças significativas em
sua equipe no segundo mandato: "Eleição nova, governo novo, equipe
nova", disse ela em entrevista. Na ocasião, o que estava em pauta era a
possibilidade de demissão do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Hoje,
com a saída anunciada, Mantega é um raro caso de ministro demitido que
segue no cargo. Resta escolher o sucessor – e decidir em quantas das
outras 38 pastas haverá trocas.
Dilma está de folga na Base de Aratu, na Bahia. Quando retornar de
viagem, a presidente deve se reunir com aliados para fazer um balanço
das eleições. O vice-presidente, Michel Temer, também aguarda um
posicionamento da chefe do Executivo para conversar com os aliados sobre
a divisão dos cargos. A próxima semana deve ser a hora de avaliar quem
se empenhou pela reeleição e quem, na avaliação do governo, não se
comprometeu com a aliança.
Como é comum em casos de reeleição, não haverá uma equipe de
transição. As trocas na equipe devem ser anunciadas ainda neste ano. A
crise econômica e a ameça de crise política não permitem que Dilma
espere o início do segundo mandato para anunciar os novos nomes. Hoje, o
ministro da Fazenda, Guido Mantega, está com os dias contados para
deixar o cargo. E boa parte dos ministérios é comandada por interinos,
já que os titulares deixaram o cargo para disputar as eleições.
Muitos nomes citados como eventuais ministros da presidente são
tentativas, do PT e de outros partidos, de emplacar um nome na equipe de
Dilma; além disso, a própria presidente costuma surpreender ao escolher
seus ministros. Dito isso, é inevitável que as especulações ganhem
corpo.
Durante a campanha de 2010, Dilma apelidou de "três porquinhos" o grupo
de auxiliares mais próximos a ela: José Eduardo Cardozo, hoje ministro
da Justiça, Fernando Pimentel, eleito governador de Minas Gerais e seu
ex-ministro, e José Eduardo Dutra, então presidente do PT. Agora, o trio
é outro: Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário, Jaques
Wagner, ex-governador da Bahia, e Aloízio Mercadante, ministro da Casa
Civil. Os três devem estar em postos-chave da administração no próximo
mandato: ou na área econômica, ou na "cozinha" da presidente. O mesmo
vale para Giles Azevedo, o discreto chefe de gabinete da petista.
Nelson Barbosa, ex-secretário executivo da Fazenda, está ao lado de
Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, e de Luiz Carlos
Trabuco, presidente do Bradesco, na lista de cotados para o Ministério
da Fazenda. Mas Aloizio Mercadante é uma alternativa. Esta escolha é a
mais sensível para Dilma, porque dela depende o sucesso do governo no
esforço para escapar da crise e tirar a economia da estagnação. Os três
primeiros nomes foram sugeridos pelo ex-presidente Lula. Mercadante
seria uma escolha pessoal da presidente.
Aliados – Feita
a avaliação sobre o papel dos aliados na campanha, o PMDB tem mais a
perder: em estados importantes como o Rio de Janeiro e Rio Grande do
Sul, o partido caminhou com a oposição. Por outro lado, Dilma depende
dos peemedebistas para governar. O partido tem hoje cinco ministérios:
Agricultura, Previdência, Minas e Energia, Turismo e Aviação Civil. Para
a Agricultura, a candidata mais forte é Kátia Abreu. O atual ocupante
do cargo, Neri Geller, é da conta dos peemedebistas da Câmara. Se ele
perder o posto para a senadora, os deputados devem cobrar a nomeação de
um representante para outra pasta. Henrique Eduardo Alves chegou a ser
cotado para assumir para a Previdência Social, hoje comandada pelo
senador peemedebista Garibaldi Alves. Mas ele não deve aceitar a
nomeação.
Na pasta das Minas e Energia, o desgastado ministro Edison Lobão não
deve sobreviver à reforma. O titular do Turismo é Vinícius Lage, um
técnico apadrinhado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB). A
permanência dele também é incerta.
Ainda insatisfeitos pela forma como o PT agiu em alguns estados
durante as eleições, os peemedebistas dizem que cabe ao governo dar o
primeiro passo nas conversas: "Não estamos tratando disso agora, até
porque não cabe. A origem (da negociação) está do outro lado", diz o
líder do PMDB, Eduardo Cunha, nome da sigla para presidir a Câmara no
ano que vem. A cúpula do PMDB deve se reunir na semana que vem para
traçar uma estratégia comum daqui por diante, o que passa por uma
maneira mais "organizada" de decidir quais nomes estarão no governo.
No segundo mandato, a aliança de Dilma tem algumas diferenças em
relação a 2011, quando tomou posse pela primeira vez. O PSB está fora do
governo. Quase todos os partidos aliados tiveram algum tipo de cisão:
parte do PMDB, PP, PR e PDT apoiaram Aécio Neves na disputa. Por outro
lado, dois novos partidos entraram na briga pela divisão do bolo: PSD e
Pros.
O PSD já tem a pasta da Micro e Pequena Empresa, de peso simbólico e
orçamento quase inexistente. Agora que o partido fez parte da coligação
presidencial de Dilma, deve ser contemplado com um ministério. O
candidato natural é o presidente da sigla, Gilberto Kassab, um
sem-mandato que se esforçou para colocar o partido na aliança petista
apesar das defecções em alguns estados. Ele é cotado para o Ministério
das Cidades. O líder do PSD na Câmara, Moreira Mendes (RO), diz que o
cargo está à altura do partido, que, entre os partidos aliados, tem a
maior bancada depois de PT e PMDB. Mas pede mais: "É um ministério
importante, relevante, e está à altura do PSD. Mas acho pouco. É preciso
ter um espaço proporcional ao tamanho do partido", diz ele.
No Pros, o único nome em jogo é o de Cid Gomes, ex-governador do Ceará.
Ele deixou o PSB justamente para manter seu apoio à reeleição de Dilma, e
agora pode ser premiado com o Ministério das Cidades. O PCdoB, que
tradicionalmente comanda o Ministério do Esporte, deve continuar tendo
seu espaço com Aldo Rebelo – a sigla tem interesse na pasta pelas
Olimpíadas de 2006 no Rio de Janeiro. O mesmo vale para o PDT,
que comanda o Ministério do Trabalho. O PR tem nas mãos o Ministério dos
Transportes e é outra sigla que tem sido beneficiada com o direito de
nomear ministros de forma quase autônoma. Governo novo, equipe nova, mas
métodos velhos.
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