Reinaldo Azevedo - VEJA
A
capacidade que tem a presidente Dilma Rousseff de errar, especialmente
quando se esforça para acertar, chega a ser comovente. É a sua falta de
jeito. E também está muito mal cercada. Eu sou do tempo em que
presidentes recusavam pessoas que se candidatavam a ministérios, mas o
contrário jamais acontecia. E a razão era simples: antes que um convite
fosse tornado público, fazia-se uma sondagem para saber se o indicado
aceitava a empreitada; se não, então o chefe do Executivo não pagava o
mico. Mas eis o governo Dilma.
Luiz
Carlos Trabuco, presidente executivo do Bradesco, rejeitou o convite
para assumir o Ministério da Fazenda. Não está se fazendo de rogado,
não. Ele nunca disse que queria o cargo. As especulações surgiram
primeiro nos círculos palacianos. Ainda que fosse um desejo pessoal seu,
e não consta que fosse, o que mais se ouvia nos bastidores é que
“Doutor Brandão não vai deixar”. “Doutor Brandão” é Lázaro Brandão,
presidente do Conselho de Administração do Bradesco e comandante
inconteste do potentado.
Dilma
conversou com os dois, que lhe devem ter dito que Trabuco está destinado
a ser o sucessor de Brandão. Sabem como é… O governo Dilma passa, o
Bradesco fica. Os governos petistas passam — os sensatos torcem por isso
—, e o banco fica. A menos que Trabuco estivesse tocado pela chama
militante, a troca parecia improvável. “Ah, mas e pelo bem do Brasil?”
Fiquem certos: ele colabora mais com o Brasil no comando do… Bradesco.
De resto, seria trocar uma posição em que é especialista por outra em
que seria amador: um formulador de política econômica. Por mais capaz
que ele seja em sua área, governo é outra coisa.
É evidente
que Dilma não precisava dessa recusa em seu currículo, não num momento
como este, evidenciando a dificuldade para formar uma equipe econômica.
Para tanto, bastaria que tivesse um ministro da Casa Civil que fizesse
as devidas consultas prévias. Ocorre que seu articulador político é
Aloizio Mercadante. Esperar o quê? Sim, antes dele, já foi Ideli
Salvatti. Mas não fique com a sensação, leitor, de que o mundo não
presta.
O novo
nome da economia pode sair ainda nesta sexta. Alexandre Tombini é cotado
para permanecer na presidência do Banco Central. Nelson Barbosa,
ex-secretário-geral da Fazenda, e Joaquim Levy, secretário do Tesouro no
governo Lula e hoje administrador dos fundos de investimento do
Bradesco, podem assumir a Fazenda e o Planejamento — ainda seria
preciso, nessa hipótese, definir quem faria o quê.
Ironias
Pois é… Nem parece que a Dilma que apela ao presidente de um banco e que tende a ficar com um alto executivo dessa mesma instituição é aquela senhora que demonizou o setor bancário durante a campanha eleitoral e que associou a independência do Banco Central à cupidez dos banqueiros e à consequente fome dos brasileiros. Que vexame!
Pois é… Nem parece que a Dilma que apela ao presidente de um banco e que tende a ficar com um alto executivo dessa mesma instituição é aquela senhora que demonizou o setor bancário durante a campanha eleitoral e que associou a independência do Banco Central à cupidez dos banqueiros e à consequente fome dos brasileiros. Que vexame!
Campanhas
eleitorais mundo afora comportam um tanto de farsa, sim. No Brasil, elas
se transformaram em estelionatos escancarados.
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