quarta-feira, 29 de julho de 2015

A homenagem ao ambientalista Fernando Pereira 30 anos após o Rainbow Warrior
James Machu, coordenador local do Greenpeace Nice e Daniel Fimbel, diretor da CANAM (Comissão Antinuclear dos Alpes-Maritimes) - Le Monde
Ross White/AFP
As duas minas magnéticas acionadas por agentes franceses dilaceraram a embarcação, mas também causaram a morte do fotógrafo da tripulaçãoAs duas minas magnéticas acionadas por agentes franceses dilaceraram a embarcação, mas também causaram a morte do fotógrafo da tripulação
Na noite de 10 de julho de 1985, o Rainbow Warrior, o navio do Greenpeace International, foi bombardeado e em seguida afundou no porto de Auckland, na Nova Zelândia. Esses acontecimentos ficaram na memória de todos.
As duas minas magnéticas acionadas por agentes franceses dilaceraram a embarcação, mas também causaram a morte do fotógrafo da tripulação, um homem de 35 anos chamado Fernando Pereira. Ele era um dos ativistas da Operação "Pacífico" que estava sendo realizada nessa época e nessa parte do mundo pela célebre ONG.
Nascido em Portugal, Fernando havia fugido do regime ditatorial do presidente Salazar para não ser convocado à força para as guerras coloniais. Em seguida ele foi morar na Holanda, onde colocou seus conhecimentos técnicos e seus talentos artísticos a serviço das campanhas de ação direta não-violenta do Greenpeace.

Fotógrafo e militante da causa ambiental

Assim, algumas semanas antes da data fatídica, ele participava de uma expedição no Pacífico sul chamada de operação "Êxodo", que consistia em remover através do mar os habitantes do atol de Rongelap (contaminado pelos testes americanos) e em reinstalá-los em ilhas que haviam sido poupadas, como Ebeye e Mejato. Alguns anos antes, ele também havia participado das incursões do navio arco-íris nas águas territoriais que ainda se chamavam União Soviética. Por fim, em julho de 1985, ele se preparava junto com seus colegas para protestar contra os testes nucleares franceses em Mururoa, e a operação também pretendia apoiar as negociações em andamento para definir uma "zona isenta de armas nucleares no Pacífico Sul" (o Tratado de Rarotonga foi efetivamente assinado em 6 de agosto por cerca de quinze Estados da Oceania).
Fernando Pereira era realmente um militante sincero, convicto e impecável da causa ambiental. Era também um fotógrafo entusiasta, que se empenhava em defender as belezas desse mundo contra as devastações infligidas pela indústria e pela lógica militarista. E por fim, ele era o jovem e atencioso pai de duas crianças, Marelle e Paul. Esses valores positivos, que ele pretendia ao mesmo tempo representar e defender, hoje lhe valem o respeito incontestável de todos.
E por isso parece ter chegado o momento de acolher esse homem em nossa memória coletiva e de lhe ceder o lugar que ele merece. É nesse espírito que nos parece desejável que seu nome seja dado a uma rua de uma comuna dos Alpes-Maritimes, ou que a ele seja dedicado qualquer outro espaço municipal. Seria um belíssimo gesto de reconciliação que contribuiria, trinta anos após os acontecimentos, para a superação de antagonismos ultrapassados.

2 mil testes nucleares em 40 anos

As controvérsias do passado de fato já não cabem mais: a França indenizou a Nova Zelândia, a associação Greenpeace e a família da vítima nos dois anos após a tragédia. O tabu sobre a radiação das antigas instalações dos testes nucleares, sobretudo na Polinésia Francesa, caiu desde que o exército francês saiu e com o grande número de ações na Justiça iniciadas pela população local.
Felizmente os testes nucleares agora foram banidos pelas convenções internacionais ("Tratado de Interdição Completa" de 24 de setembro de 1996). Cerca de 2 mil testes nucleares foram conduzidos entre 1945 e 1996 em todo o mundo, segundo a ONU.
Diante dos danos causados ao planeta, cabe a nós lembrar como Fernando Pereira, às custas de sua vida, foi um exemplar mensageiro da verdade.
Nesse sentido, a França está se preparando para orquestrar uma negociação mundial dedicada a outras importantes questões ambientais (a COP 21 sobre o clima, em dezembro de 2015, em Paris). Só que o fracasso desse encontro passaria uma mensagem desastrosa, e por todas essas razões, agora o que importa é nos engajarmos todos juntos, e decretar que nenhuma razão superior de Estado possa se sobrepor a essa perspectiva essencial que é o salvamento da Terra, nosso berço natural e nosso bem comum.

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