quarta-feira, 29 de julho de 2015

Paz com curdos é impossível, diz Erdogan
Declaração de presidente da Turquia, somada à retomada de ataques entre as partes, ameaça frágil cessar-fogo
Partido pró-curdo HDP acusa chefe de Estado de querer minar apoio ao grupo para retomar maioria no Parlamento
FSP
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou nesta terça-feira (28) encerrar o processo de paz com militantes curdos e fez um apelo ao Parlamento para que retire a imunidade judicial de políticos ligados a "grupos terroristas".
A declaração vem à tona no mesmo dia em que a Otan (aliança militar do Ocidente) expressou seu apoio à Turquia nas ações contra o Estado Islâmico (EI).
"Não é possível para nós continuar o processo de paz com aqueles que ameaçam nossa unidade nacional", disse Erdogan em entrevista coletiva na capital, Ancara.
A declaração de Erdogan é a mais contundente até o momento de uma autoridade sobre o conflito. Ela também indica que, apesar de não ser mais chefe de governo desde agosto de 2014, quando deixou o cargo de premiê, Erdogan ainda é a voz mais forte do alto comando da Turquia.
A Turquia iniciou negociações com os curdos em 2012 para tentar acabar com uma insurgência do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, considerado uma organização terrorista pelo governo turco). Os curdos reivindicam a criação de um Estado autônomo que abrangeria parte do território turco.
Após o pronunciamento de Erdogan, o porta-voz da sigla governista AKP, Besir Atalay, disse que o processo de paz pode continuar caso "elementos terroristas" baixem suas armas e deixem o país.
Um frágil cessar-fogo vinha se mantendo desde março de 2013, mas as tensões entre o governo e os curdos voltaram a se intensificar na semana passada –os curdos acusam Erdogan de apoiar o Estado Islâmico.
A Força Aérea da Turquia bombardeou campos do PKK no norte do Iraque em resposta a atentados contra policiais e soldados. O grupo condenou a ação, mas não chegou a anunciar a sua saída da mesa de negociação.
Alguns curdos dizem que, ao reavivar o conflito aberto com o PKK, Erdogan busca elevar o sentimento nacionalista e minar o apoio ao partido de oposição pró-curdo HDP antes de uma possível eleição antecipada.
O HDP ganhou cadeiras no Parlamento pela primeira vez nas eleições de junho, enquanto o AKP perdeu sua maioria, num importante revés para o governo.
"Nós não cometemos crimes imperdoáveis. Nosso único crime foi ganhar 13% dos votos", disse nesta terça o presidente do HDP, Selahattin Demirtas.
OTAN
A Otan expressou nesta terça-feira "forte solidariedade" com a Turquia após uma reunião de emergência em Bruxelas, na Bélgica.
Embora tenha reafirmado seu apoio, representantes exigiram que o país não faça uso excessivo da força ao combater o EI e que continue seus esforços de paz com a minoria curda, segundo a Associated Press.
Desde a semana passada, a Turquia tem realizado ataques aéreos contra posições do EI, sendo que as tropas curdas têm representado a principal frente no batalha por terra contra o EI na Síria.

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