sábado, 26 de dezembro de 2015

O ministro que o PT ama e os mercados odeiam
João Almeira Moreira - DN
Barbosa, conta quem o conhece bem, adora dialogar e trocar sorrisos e abraços com os congressistas em Brasília. Tudo ao contrário do antecessor  |  REUTERS/Ueslei Marcelino
Nelson Barbosa, o novo titular das Finanças, representa um desvio à esquerda no governo Dilma. É conciliador, dizem os apoiantes. É um demagogo, protestam os rivais
É uma tarde de fim de novembro. No dia seguinte, Dilma Rousseff vai anunciar o novo ministro das Finanças do Brasil. Nelson Barbosa, membro das últimas equipas económicas da presidente, com bom trânsito no Partido dos Trabalhadores (PT), principal sustento político do governo, e na banca, com a qual manteve relações próximas nos períodos em que esteve fora do executivo, sonha há anos com o cargo. Mas Dilma sabe que precisa de domar a crise económica e piscar o olho aos mercados: escolhe o austero Joaquim Levy e oferece a Barbosa o Ministério do Planeamento. Estávamos em 2014. Um ano e uns dias depois, o segundo substitui o primeiro e cumpre o sonho de uma vida: foi por fim anunciado como ministro das Finanças do Brasil.
No PT festeja-se. No Instituto Lula também. E entre os movimentos sociais que amparam o governo - os sindicatos e os movimentos sem teto e sem terra - idem. "O Nelson encarna uma ideia de economia que representa melhor o partido", disse o presidente do diretório petista em São Paulo, Emídio de Souza. "Tem mais capacidade e sensibilidade para fazer uma política de desenvolvimento e criação de emprego", disse Paulo Okamotto, o presidente do instituto que leva o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também ele um defensor da "solução Barbosa". Nas próximas manifestações a favor de Dilma, os movimentos sociais deixarão de transportar os incómodos cartazes com a inscrição "fora Levy".
No mercado, a reação é contrária. E sem palavras, com números: dólar volta a bater nos quatro pontos e a Bovespa, Bolsa de São Paulo, perde quase três pontos num dia, com o auge a coincidir com a hora do anúncio oficial de Barbosa. Em Nova Iorque, fundos com ativos brasileiros apresentam as maiores quedas bolsistas. Editorialistas de publicações anglo-saxónicas e tubarões do mercado nacional e internacional usam a expressão "desilusão" para definir a troca de ministros. As perdas recentes de grau investimento na Standard & Poor"s e na Fitch são o pano de fundo. A crise no Brasil é, aos olhos do mercado e da maioria dos brasileiros, sobretudo económica. Mas na essência é política, fruto de uma relação entre executivo e poder legislativo que bloqueia o país. Ora Barbosa, 46 anos, professor e investigador nas principais universidades brasileiras, doutorado em Economia pela New School for Social Research, de Nova Iorque, é economista e político. Ao contrário de Levy, que era apenas economista. Barbosa, contam os próximos, adora dialogar e trocar sorrisos e abraços com os congressistas em Brasília. E estes adoram quem lhes dê abraços e um sorriso. O antecessor fazia-o raras vezes e a contragosto.
Desenvolvimentista e keynesiano, como é definido pela imprensa, o carioca Barbosa também é acusado de demagogo pelos rivais, como a revista Veja, declaradamente anti-PT. Com o liberal, austero (e um bocadinho burocrata demais) Levy, travou um braço de ferro permanente, com o primeiro a vociferar "corta" e o segundo a rosnar "abranda" a cada questão, a cada conta, a cada meta, a cada número. "Eu sou do Vasco, ele é do Botafogo, eis a divergência", disse Barbosa, tentando suavizar, com jogo de cintura e uma frase de efeito, a relação com Levy. Deste, a única frase futebolística que se ouviu foi um "oh, que pena...", quando lhe disseram que se não aprovasse uma medida para ajudar os clubes de futebol o seu amado Botafogo iria falir.
Mudança
Barbosa tem experimentado, no entanto, um discurso que o afaste do estereótipo de brando a lidar com as contas públicas. "Não acredito num debate macroeconómico baseado em rótulos", disse na posse; deu entrevistas à imprensa estrangeira a falar em "reforma na Segurança Social e nas leis laborais"; de repente, surgiram notícias a detalhar os cortes que realizou enquanto ministro do Planeamento na máquina do Estado. "Ele empenha-se em refazer a própria imagem, na busca de uma confiança há muito perdida, não deu certo nem poderia dar, exceto se houvesse um surto de amnésia", escreveu O Estado de S. Paulo, crítico do governo. Barbosa começa a perceber que o cargo de ministro das Finanças do Brasil, que consumiu o seu antecessor, não é o emprego dos sonhos.

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