O
nevoeiro, na opinião dos ingleses, por vezes isola a Europa. Não parece
que alguma vez lhes ocorra que é o Reino Unido que fica isolado pelo
nevoeiro
Adriano Moreira - DN
As
mudanças da estratégia interna da relação entre poderes do eleitorado e
poderes do legislativo eleito não exige alteração dos textos
constitucionais em todas as circunstâncias, como designadamente se tem
passado durante a vigência da Constituição Portuguesa atual, que já
assistiu a uma realidade de presidencialismo do primeiro- -ministro, à
sobreposição do executivo ao legislativo pelo uso da combinação entre
maioria absoluta e obrigatoriedade de voto, ao predomínio do inesperado
uso eficaz do carisma pelo Presidente da República, e agora ao facto de o
poder legislativo usar os poderes legais para alterar a prática de o
governo pertencer ao partido mais representado. Na vida internacional as
coisas passam-se de maneira semelhante, não necessariamente idêntica,
porque o pousio é o fenómeno mais inquietante da mudança, o que parece
evidente em mais de um aspeto da ONU, designadamente no que toca ao
Conselho Económico e Social perante a crise financeira e económica
mundial, e ao Conselho de Segurança quanto àquilo que analistas já
chamam "a guerra por toda a parte". Neste quadro, que pode ler-se de
desordem da ordem legal que vai tornando difícil ver os contornos da
estrutura de facto que se vai desenvolvendo, há uma espécie de mito que
ganha especificidade, e diz respeito à União Europeia, à sua
circunstância específica, e à crise estrutural em progresso. Trata-se de
a evolução interna de alguns países membros, como a Grécia, Portugal e a
Espanha, subitamente se afastar da habi- tualidade da leitura das
Constituições por alterações das práticas que respeitam a letra mas
respondem, legalmente, às mudanças sociais evidentes, que indiretamente
despertam inquietações, e até exigências internas e do regionalismo
europeu, este com expressão formal no Tratado, e real no predomínio da
hierarquia interior, a discutir o respeito pelas novas governanças
internas pelos tratados. Coisa que não tem qualquer novidade
surpreendente, salvo a de imaginar que os tratados não são modificáveis
pelo processo normal da negociação, esta imposta pela mudança das
circunstâncias.
O caso do Reino Unido e
das recentes intervenções do seu primeiro-ministro no Conselho é
paradigmático, porque a imprensa resumiu o acontecimento salientando que
ele saíra da reunião do Conselho, de 15 de dezembro, vencido nas
pretensões de limitar o acesso de novos imigrantes aos benefícios
sociais, deixando em silêncio a sua intenção de impedir o progresso de
uma Europa mais unificada, isto é, mais centralizada, e acrescentamos
mais dependente da eurocracia. Ora o facto importante é que um Estado,
cumprindo o que está em vigor, levante no lugar próprio as questões
relacionadas com a mudança de circunstância de que a União parece
considerar-se, por vezes, como gozando de imunidade. Assim como os
países se vão revigorando, e, quando conseguem dirigentes atentos e
capazes, adotam o exercício dos que continuam a chamar soberania à
oposição que assumem, assim também as regionalizações, que incluem
modelos diferentes desde a simples Aliança à Federação, e esta com
formas intermédias dependentes da criatividade, é coisa de que a União
tem experiência, bastando recordar a evolução sofrida. E por isso não é
possível confundir obediência aos tratados a que cada aderente deve
respeito, com o dever de todos e cada um estar atento à circunstância e
no uso legítimo da sua voz discutir as mudanças que lhe pareçam
necessárias. Para isso é que serve o diálogo, instrumento da
autenticidade, e do respeito e lealdade para com os tratados. Diálogo de
estadistas, não com empregados, como nos aconteceu com a troika.
A
questão ganhou algum relevo com a reunião do último Conselho Europeu em
que teve ou mereceu atenção dominante a intervenção do
primeiro-ministro Cameron, que ali foi discutir as reformas que o seu
governo considera necessárias para continuar membro do grupo. A questão
que mais ocupou os noticiários foi a inquietação com as migrações em
curso, que desafiam a conciliação entre a segurança e os deveres
humanitários. Segundo algum noticiário, o tema de Cameron era o de
limitar o acesso dos imigrantes aos benefícios do Estado social inglês, e
ali teria a oposição, benevolente mas firme, dos habituais Angela
Merkel e do presidente Donald Tusk. Expressões não muito lisonjeiras
preencheram os noticiários sobre a chamada frustração dos propósitos do
primeiro-ministro. Talvez fosse porém mais importante averiguar a
importância do primeiro-ministro inglês ir ao Conselho discutir factos
que inevitavelmente apontam para uma repercussão no trajeto da União, à
qual não faltam desafios da circunstância em que vive, e avaliar alguns
deles. Em primeiro lugar, o facto de um membro do Conselho saber e
praticar que é ali, e não a discutir com funcionários como é método da
troika, que os responsáveis políticos levantam a sua voz
concordante-discordante. Não se trata em primeiro lugar de lastimar,
trata-se de exercer o direito de crítica, de exigir meditação, de
entender que é necessário mudar. É uma contribuição para a evolução
pacífica das instituições, e por isso mesmo é que não se conhecem
tratados eternos. No Conselho só está vencido quem ali vai apenas
recolher decisões, e talvez seja mais preocupante para a União que no
Conselho se imagine que alguém pode falar com o primeiro-ministro inglês
como com o Sul da Europa pobre, não tomando em consideração que
possivelmente pesa mais no pensamento inglês, sem diferença de partidos,
a Comunidade, o Atlântico e os EUA. O nevoeiro, na opinião dos
ingleses, por vezes isola a Europa. Não parece que alguma vez lhes
ocorra que é o Reino Unido que fica isolado pelo nevoeiro.
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