sábado, 25 de fevereiro de 2017

A morte poupou Juquinha de ver o fim do fundador da Cabrair
O cachorro voador foi atropelado por um carro da família antes que a Lava Jato atropelasse seus donos
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Em julho de 2013, uma reportagem de VEJA revelou a farra aérea que tornara ainda mais desfrutável a vida mansa de Sérgio Cabral. Para os deslocamentos entre o Rio e a casa de praia em Mangaratiba, o governador requisitava helicópteros oficiais com espaço suficiente para abrigar também a primeira-dama Adriana Ancelmo, dois filhos, duas babás e o cachorro Juquinha. Caprichando na pose de inocente injustiçado, Cabral declarou-se vítima de perseguição da imprensa. Dali a pouco, revidou um post aqui publicado, Juquinha iria protestar contra o bullying que lhe moviam os cães da vizinhança, mortos de inveja do único exemplar da espécie que passeava no helicóptero do governo todos os sábados e domingos.
A coluna errou feio, informou a subsecretaria militar da administração fluminense num relatório solicitado pela Polícia Federal: as idas e vindas de Juquinha e seus parceiros entre os muitos endereços da família na capital e a mansão no litoral não se limitaram aos fins de semana ─ e por pouco não atingiram a extraordinária marca de 1.500 voos. A Cabrair começou a operar com regularidade em 2007. Intensificou o ritmo em 2011, depois que o fundador comprou por 15 milhões de reais um portentoso Agusta igualzinho ao que lhe emprestara o empresário Eike Batista. As incursões foram reduzidas pela reportagem de VEJA, mas só cessaram de vez em abril de 2014, quando Cabral antecipou a entrega do gabinete no Palácio Guanabara ao vice Luiz Fernando Pezão.
Entre um pouso e uma decolagem na rota Rio-Mangaratiba, o governador encontrou tempo para divertir-se nos jantares em Paris com a Turma do Guardanapo, transformar a primeira-dama numa vitrine ambulante de joalheria, bajular Lula e Dilma nas frequentes visitas presidenciais ao Rio, achacar empresários, fraudar licitações bilionárias, inaugurar obras inventadas por Eike Batista, abrilhantar comícios de delinquentes e gerenciar uma das maiores lavanderias de dinheiro sujo do mundo. Até o momento, as investigações da Operação Calicute, um dos desdobramentos da Lava Jato, descobriram 332 casos de lavagem criminosa. Com tantos afazeres, é compreensível que Cabral não tenha reservado espaço na agenda para cuidar do Rio.
Agora engaiolado em Bangu, nosso Usain Bolt da bandidagem está menos gordo e bem mais triste. “Ele sente muita falta da vida aqui fora”, confirmou um amigo depois da recente aparição de um Cabral claramente abatido. Faz sentido. A mesma síndrome de abstinência estendeu as sombras da depressão a Adriana Ancelmo, presa a poucos metros do marido. A morte poupou de tais dissabores o cachorro Juquinha, atropelado em dezembro de 2014 por um carro da família pilotado por um segurança desatento. Se continuasse vivo, o cão voador decerto acharia muito sofrido o sumiço do helicóptero (e dos donos). E estaria latindo de medo da Lava Jato.

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