Brasil se mantém à margem do comércio mundial
Enquanto várias nações e potências se
articulam por meio de acordos bilaterais e blocos estratégicos, país
permanece preso ao emperrado Mercosul por vício ideológico
O Globo
Um acordo no Congresso americano anunciado na semana passada colocou
os EUA mais perto do que poderá se configurar no maior bloco comercial
do planeta. Trata-se da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em
inglês), que reúne 11 países da Ásia e das Américas, cerca de 40% do PIB
mundial e quase 800 milhões de consumidores. Republicanos e democratas
chegaram a um consenso para autorizar o presidente Barack Obama a
concluir as negociações pelo sistema fast-track, isto é, sem
possibilidade de emendas do Legislativo, que terá que aprovar ou
rejeitar em bloco o projeto.
Se por um lado, a medida é estratégica para o governo americano, que
tenta conter o avanço da influência chinesa — cujo sinal de vigor mais
recente está na adesão de economias europeias ao Banco Asiático de
Investimento em Infraestrutura (AIIB) —, por outro, ela ilumina velhos
equívocos da política de comércio externo do Brasil. Tangido por
interesses ideológicos que remontam aos tempos da Guerra Fria, o governo
do PT resiste a firmar acordos bilaterais vantajosos, que poderiam
integrar o país a regiões comercialmente importantes e ajudar nossa
indústria, já fortemente afetada pela queda dos preços das commodities,
baixo crescimento, tributações exorbitantes e os erros da política
econômica do governo.
Em vez disso, o Brasil insiste no Mercosul como principal via de seu
comércio externo. E justamente num momento em que o bloco sul-americano
se isola cada vez mais, abatido por crises internas — como o calote
argentino e a crise econômica e política venezuelana — que dificultam as
conversações em andamento, sobretudo com a UE.
Quando Colômbia, Chile, Peru e México anunciaram a criação da Aliança
do Pacífico, o governo brasileiro reagiu prometendo refundar o
Mercosul, para integrá-lo ao processo crescente de acordo multilaterais.
Até agora, porém, os países do bloco mal conseguiram resolver problemas
internos, querelas tarifárias e desentendimentos gerados pela adoção de
medidas protecionistas de suas indústrias, como é o caso das alíquotas
argentinas impostas a produtos brasileiros.
Enquanto o país fica para trás, ancorado no Mercosul, o mundo vê
surgir inúmeras iniciativas de acordos comerciais, bilaterais e
multilaterais, como alternativa às negociações no âmbito da Organização
Mundial do Comércio. Questões como serviços, investimentos, convênios
tecnológicos e propriedade intelectual, que emperraram na OMC, ganham
nova possibilidade por meio dessas negociações, mais diretas e simples.
Blocos de vários tamanhos e importância se formam e dão a seus membros
ganhos de produtividade e competitividade. Os exemplos são muitos, assim
como as vantagens. O Brasil, porém, continua preferindo se manter à
margem.
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