Harold Thibault - Le Monde
Carlos Barria/Reuters
É à beira desses campos secos de tons amarelados que a China vem travando uma difícil guerra contra o avanço do deserto. Aqui, a areia ameaça ir tomando aos poucos cada pedaço de terra; basta caminhar um tanto além dos últimos hectares cultivados para se deparar com uma área desértica a perder de vista. O oásis de Minqin está ameaçado pelo avanço do Tengger a leste e pelo Badain Jaran a oeste, dois desertos que emanam do vasto deserto de Gobi e que, nos últimos anos, vêm se aproximando. Aqui há pouquíssimas chuvas, 120 milímetros por ano, enquanto a região é um corredor de vento.
Ruptura
A parte mais controversa dessa política está no deslocamento das populações dos vilarejos do condado situados na linha de frente. Foi o que aconteceu em 2007, no vilarejo de Huanghui. A areia vinha chegando até seus limites, e o governo decretou que era necessário fazer recuar a atividade humana e o bombeamento nos lençóis freáticos que ela requeria para conseguir conter o avanço do deserto. Zheng Julian, uma fazendeira de 65 anos, vivenciou o deslocamento forçado como uma ruptura. "Quando precisei ir embora, chorei tanto que quase fiquei cega", lembra essa senhora cuja última vontade é ser enterrada em seu antigo vilarejo, seja ele engolido pelo deserto ou não.Isso porque os deslocados da desertificação não escapam das características falhas dos processos de mudança conduzidos pela administração chinesa. Enquanto as fazendas tradicionais dessa região do Oeste chinês são feitas de tijolos grossos recobertos de taipa, as paredes das novas casas são tão finas que o interior acaba ficando gelado nos duros meses de inverno. O kang, que é uma plataforma aquecida por baixo, da família de Zheng, afundou pela metade e as paredes de uma outra casa na rua principal correm o risco de desabar. A nova moradia é bem distante da estrada principal, mas, paradoxalmente, muito próxima do deserto do qual eles deveriam ter se afastado. Seus moradores não se cansam de repetir que o lugar foi muito mal escolhido.
Pior, os campos que cercam o novo vilarejo são tão secos quanto os antigos e costumam sofrer com as tempestades de areia. Muitos pesquisadores chineses hoje reconhecem que esses deslocamentos de populações só produziram efeitos ambíguos. "As migrações só transferem o problema. Resultados positivos podem ser obtidos em certos lugares, mas a degradação se agrava em outros", avalia a pesquisadora Xue Xian, do Laboratório de Estudos da Desertificação, situado em Lanzhou, capital da província de Gansu, que inclui Minqin. Ainda mais pelo fato de que os fazendeiros não conseguirão necessariamente produzir o suficiente nessas novas terras, e assim alguns deles deverão abandonar o trabalho na terra.
A algumas dezenas de quilômetros dali, a velha Huanghui agora não passa de um vilarejo de quatro casas, das famílias que conseguiram dizer não quando as autoridades foram obrigá-las a se mudarem oito anos atrás, uma dispensa que elas mesmas não conseguem explicar. Mas elas estão pagando um preço alto pela rebeldia. Os subsídios lhes foram cortados, e elas não têm mais direito de cultivar. "Eles não nos deixam plantar mais nada, enquanto antes tínhamos melancias deste tamanho", conta Li Ya, de 78 anos, abrindo os braços, ao lado de seu marido e seu filho. O fim de suas rendas agrícolas obrigou este último a se tornar operário migrante. Talvez tenha sido o temor de que esses descontentamentos repercutam o que levou a agência local da propaganda a seguir nossa reportagem durante três dias, em dois carros.
Minqin e o coração seco da China estão primeiramente pagando por erros bem humanos de gestão. A partir dos anos 1970, o governo central incentivou o desenvolvimento agrícola da região, cujos solos são ricos apesar da falta de água. "Toda essa agricultura depende do rio Shiyang", diz Xue. É um tanto de água a menos para Minqin, oásis irrigado por um único canal, que tira seus recursos de um grande reservatório destinado à toda a região, ele mesmo preenchido pelo fluxo do Shiyang. Por não conseguirem água suficiente do rio, os agricultores de Minqin perfuraram uma quantidade enorme de poços para extraírem dos lençóis freáticos. As reservas aquíferas rapidamente diminuíram, impedindo a sobrevivência das plantas que constituíam uma barreira natural.
Dilema de Minqin
Hoje, placas ao longo da estrada que atravessa o condado lembram que é estritamente proibido abrir novos poços, e 3.000 deles já foram fechados. Apesar disso, as famílias de Changxing, um vilarejo do condado, mobilizaram um de seus membros nessa manhã de primavera para ajudar nas obras de abertura de um novo ponto de bombeamento que desce a 60 metros nos lençóis freáticos, com a aprovação das autoridades locais. Antes de serem descidos, os canos são envoltos em duas camadas de um tecido especial que deve limitar a subida de areia no futuro poço, explica Chen Guozhi, um morador de 35 anos. Ele conhece o dilema de Minqin: "Nós sabemos bem que assim corremos o risco de agravar a desertificação, mas sem perfurar poços não conseguimos cultivar nada."A esses fatores humanos se soma uma dúvida sobre o papel que a mudança climática poderá ter, não especialmente em Minqin, mas nos outros desertos do Norte da China, em geral. O argumento já foi utilizado pelas autoridades no passado para se isentarem de responsabilidade. Para Sun Qingwei, um especialista em clima que trabalha na edição chinesa da "National Geographic", "as causas da desertificação são primeiramente a política de gestão dos solos, e também o desenvolvimento e a mudança climática. As quedas de chuva e de neve mudaram nos últimos anos devido ao clima."
O Estado comemora por hoje estar conseguindo resultados positivos em torno desse oásis. Para frear o avanço do deserto, foi necessário que o governo central interviesse entre os diferentes condados da região que disputavam o pouco de água disponível. Também foi preciso mobilizar em massa voluntários para plantar arbustos capazes de sobreviver em condições desérticas na barreira que protege os campos do avanço das dunas. "Alguns dos métodos empregados não são perfeitos, sobretudo as migrações," observa a pesquisadora Xue Xian. "Mas outros dão resultados. O número de tempestades de areia está caindo, o índice de umidade está aumentando. São dados, não histórias, o ambiente está melhorando."
Mas já há novos problemas surgindo nesse pequeno condado, a começar pela forma de incentivar os camponeses locais a manterem a barreira verde que cerca Minqin. Nada cresce ali, então ela não lhes dá nenhum retorno, mas apesar disso é preciso irrigá-la um mínimo e garantir que os quadrados de palha não sumam por baixo da areia. Depois que o primeiro-ministro da época, Wen Jiabao, visitou a região em 2007 e prometeu que Minqin não se tornaria um "segundo Lop Nur", referência a um lago que desapareceu com o deserto, Pequim havia dedicado 4 bilhões de yuans (R$ 1,9 bilhão) à recuperação de Minqin. Hoje essa verba está esgotada.
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