quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dilma e Obama discutirão ensino técnico
Cooperação cujo modelo seriam 'community colleges' deve estar na pauta de visita de brasileira aos EUA em junho
Líderes devem também anunciar acordo para a redução de emissões de carbono, nos moldes do feito entre EUA e China
PATRÍCIA CAMPOS MELLO - FSP
A presidente Dilma Rousseff e o presidente americano Barack Obama devem aproveitar a visita da líder brasileira a Washington, em 30 de junho, para anunciar duas iniciativas --um programa focado em ensino técnico, com inspiração nos "community colleges" dos EUA, e um compromisso para redução de emissões de carbono, segundo a Folha apurou com fontes dos governos brasileiro e americano.
Durante a Cúpula das Américas no Panamá, no início de abril, Dilma disse ao presidente norte-americano que gostaria de uma cooperação para ampliar o ensino técnico no Brasil, momento em que Obama mencionou os "community colleges". 
A ideia seria usar no Brasil a experiência que os americanos têm com o ensino profissionalizante dos "community colleges" --faculdades de apenas dois anos, que podem ser cursos técnicos ou uma fase inicial para quem quer completar os estudos em uma universidade depois.
Os líderes também podem fazer declaração de intenções semelhante ao acordo anunciado por EUA e China em novembro de 2014, com compromissos para redução de emissões de carbono.
"Talvez por causa do trabalho prévio do vice-presidente [Joe Biden], temos muitos objetivos comuns, entre eles a cooperação em questões como a mudança climática", disse uma autoridade do governo americano.
De acordo com um representante do governo brasileiro, "há uma grande chance de o Brasil assinar uma declaração [de metas de redução]; o que os EUA fizeram com a China foi muito positivo, embora ainda achemos que os países desenvolvidos tenham uma responsabilidade histórica e que nós não podemos pagar essa conta."
Depois de dois anos de relações estremecidas por causa do escândalo de espionagem, o governo brasileiro já fez um gesto de boa vontade.
Na semana passada, o Executivo enviou ao Congresso o acordo de cooperação em defesa, que estava parado havia cinco anos. Agora, os americanos esperam que Dilma envie ao Congresso o acordo de compartilhamento de informações militares.
Juntos, os acordos permitem que o Brasil compre equipamento com tecnologia sensível dos EUA. As empresas americanas têm grande interesse nisso, e o Brasil quer ter acesso às tecnologias.
Os EUA querem apoio do Brasil para lidar com a crise venezuelana, porque Obama não pretende ter nenhum protagonismo na questão, após a reação que as sanções causaram. A Casa Branca espera que o Brasil ajude para assegurar que não haverá mais opressão a opositores.
Já a prioridade dos brasileiros é reduzir o deficit comercial com os EUA e atrair investimentos para energia renovável e pré-sal.
O pleito brasileiro a um assento permanente num Conselho de Segurança da ONU reformado não morreu."Vamos repetir o pedido, e não descarto os EUA nos apoiarem; Obama tem feito lances ousados em política externa, vide a reaproximação com Cuba e Irã", diz uma autoridade. A Casa Branca mantém silêncio sobre o assunto.


Modelo expande ensino nos EUA, mas com resistências
FÁBIO TAKAHASHI - FSP

Os "community colleges" são vistos por especialistas como forma interessante de expandir o ensino superior no Brasil. Mas o modelo sofre resistência nos EUA e aqui.
Essas escolas oferecem formação geral ou algo parecido a um curso técnico, com duração de dois anos.
O diploma serve tanto como qualificação profissional (é a parte que interessa ao governo Dilma) como passo preparatório para ingresso numa universidade tradicional.
São voltadas especialmente a populações desfavorecidas. Um grupo representativo é o dos que não conseguiram chegar ao ensino superior na idade esperada.
A média de idade no modelo é 28 anos, segundo a associação do setor. Idealmente, o aluno chega ao ensino superior perto dos 20 anos.
As escolas não têm a estrutura cara das universidades (com laboratórios e professores renomados). O custo para o aluno é bem mais baixo do que numa universidade. A anuidade média está na casa dos R$ 10 mil; na Universidade Harvard, R$ 135 mil.
Com tal modelo barato, os "community colleges" atendem a quase metade dos alunos de graduação nos EUA.
No sistema brasileiro, predomina o formato de cursos de ao menos quatro anos de duração, já voltados a uma profissão específica.
Basicamente, aqui fica de fora quem não pode arcar com esse curso ou procura uma formação geral.
De acordo com dados da OCDE (organização dos países desenvolvidos), 15% da população brasileira entre 25 e 34 anos possui ensino superior. Nos EUA, são 45%.
A adoção de modelo semelhante ao de "community colleges" tem sido debatida nos meios acadêmicos no Brasil.
Em 2012, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) chegou até a propor esse formato no Estado de São Paulo, que teria apoio técnico da USP, da Unesp e da Unicamp. As universidades não toparam, e o projeto emperrou. Parte da comunidade viu os cursos como de "segunda linha".
Essa impressão existe também nos EUA. Foi retratada inclusive no seriado americano "The Big Bang Theory", sucesso mundial. Em um dos episódios, a garçonete Penny tenta esconder o fato de ter feito "community college". Temia ser desprezada pelo namorado, o físico Leonard. 
Ao saber desse histórico, ele sugere que ela volte aos estudos. Penny fica brava e termina o namoro. 

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