Benjamin Barthe e Jacques Follorou - Le Monde
EPA/EFE
Na parte diplomática, o ditador mostrou uma constância igualmente notável. Ele reconheceu ter "contatos" com as agências de inteligência francesas, mas não "cooperação", e fez um apelo para que os países ocidentais parem de apoiar "os terroristas", denominação que ele usa para todos seus opositores, antes de considerar qualquer concessão. Assim como outros entrevistadores antes dele, David Pujadas procurou uma brecha, e, assim como eles, se deparou com um muro de negação.
No entanto, o apresentador do jornal da France 2 demonstrou tenacidade. Para as perguntas sobre as bombas de barris, cilindros cheios de pregos e de TNT lançados às cegas sobre bairros habitados, ele argumentou apresentando uma foto que capturava uma dessas devastadoras bombas caindo de um helicóptero. "Isso não é uma prova", respondeu Assad, com o fleumático tom que ele gosta de usar com seus visitantes estrangeiros. "Em nosso exército só usamos bombas convencionais."
O presidente sírio também negou que suas forças tenham recorrido a gás cloro, apesar dos inúmeros relatos nesse sentido, entre eles uma investigação da Human Rights Watch, sobre casos de intoxicação na província de Idlib, durante a segunda quinzena de março. Sobre a questão mais geral da repressão, o chefe do Estado sírio a justificou alegando que está combatendo um suposto complô internacional, um refrão que ele vem repetindo desde o início do levante em 2011, apesar do aumento do número de mortos, que já ultrapassou 200 mil. "Desde as primeiras semanas do conflito, terroristas se infiltraram na Síria, com o apoio de países ocidentais e regionais", afirmou Assad.
A respeito da organização Estado Islâmico (EI), Assad negou ter qualquer conluio com ela, argumentando que o EI "foi criado em 2006 sob supervisão dos americanos" e que em seguida ele se propagou pela Síria pois "o caos é um terreno fértil para os jihadistas". Essa afirmação, cronologicamente exata, ignorou dois fatos: de um lado, a ajuda dada por Damasco aos extremistas sunitas que, nos anos 2000, transitavam em seu território para chegar até o campo de batalha iraquiano; de outro, a complacência que as forças lealistas por muito tempo manifestaram em relação aos jihadistas.
Assad, mencionando os "contatos" com agentes franceses, confirmou aquilo que o "Le Monde" havia escrito em outubro: membros da DGSI, a agência de inteligência interna francesa, tentaram na primavera de 2014 retomar um diálogo com Damasco. Os homens das "agências" tinham como missão obter informações sobre os cidadãos franceses que fossem fazer a jihad na Síria. A iniciativa não durou, uma vez que o regime de Assad exigia como condição a reabertura da embaixada da França que estava fechada desde 6 de março de 2012, algo inaceitável para a presidência e o Ministério das Relações Exteriores da França.
Indesejável
Todas as declarações do presidente sírio durante a entrevista, em especial sua insistência em minimizar o envolvimento de Teerã na Síria, visavam manter a imagem de um líder em posição de força e autoconfiante. Os partidários de uma retomada do diálogo com Damasco, que marcaram pontos desde a chacina do "Charlie Hebdo", sobretudo quando três parlamentares franceses se encontraram com Assad em fevereiro, certamente comemorarão essa nova "jogada." Segundo eles, o "carrasco de Damasco", antes uma figura indesejável, estaria voltando a se tornar "inevitável".
A bem da verdade, a menos que se confunda cenário midiático com cenário diplomático, a posição de Assad não está de fato mais confortável hoje do que estava dois anos atrás, antes da expansão do Estado Islâmico. As micro-inflexões retóricas, contidas nos últimos tempos nas declarações de certos líderes ocidentais, entre eles o secretário de Estado americano John Kerry, não mudaram em nada a posição fundamental desses países. Para Washington, Paris e Londres, Assad não tem mais futuro no comando da Síria.
Revelações
Na prática, sua posição chegou a piorar nos últimos meses. As grandes ofensivas lançadas neste inverno contra Aleppo, no norte, e Deraa, no sul, duraram pouco. Ainda que auxiliadas pelo Hezbollah e pelo Irã, as forças governamentais perderam recentemente Idlib, capital de uma província no noroeste, e o terminal de Nassib, na fronteira com a Jordânia.
As revelações do novo número da "Vanity Fair", nas bancas esta quarta-feira, relativizam a hipótese de que ele venha a se recuperar. A revista traz uma longa reportagem sobre o assassinato do ex-premiê libanês, Rafic Hariri, em 2005. Com base em documentos confidenciais do Tribunal Especial para o Líbano, a "Vanity Fair" afirma que um dos primeiros telefonemas dos membros do Hezbollah, acusados do assassinato de Hariri com base na geolocalização de seus celulares e atualmente julgados à revelia em Haia, logo após a explosão fatal, havia sido para a presidência síria.
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