terça-feira, 21 de abril de 2015

Nós, que gozamos de liberdade, devemos fazer ouvir nossas vozes, diz presidente de Malta
Marie Louise Coleiro Preca - Prospect
Reprodução/Facebook
Marie-Louise Coleiro Preca, presidente de Malta
Marie-Louise Coleiro Preca, presidente de Malta
Durante toda a minha vida, senti o sofrimento humano em suas diversas formas: uma mãe que abraça seu filho com uma doença terminal; um pai que não consegue alimentar sua família; uma criança que acaba de ver toda a sua família se afogar no mar na busca por uma vida melhor; o rapto de meninas e meninos de suas famílias para exploração sexual; garotas que têm de sofrer a terrível prática da mutilação genital feminina; crianças que se tornam vítimas da violência e da crueldade. As histórias não param --essa é a realidade para muitas pessoas hoje. No entanto, por que deve ser assim? Por que as injustiças e desigualdades ainda são toleradas hoje?
A pobreza traz muito sofrimento. Não tenho a ilusão de que a pobreza possa ser prontamente resolvida, diante da sociedade em que vivemos, as políticas que a informam e os interesses econômicos que conduzem a essas políticas. Entretanto, a pobreza não é uma questão de opção ou deficiência individual, familiar ou comunitária; ela tem raízes nas injustiças políticas, sociais e econômicas. É por isso que os governos devem agir efetivamente para abordar essa ameaça social. As políticas necessárias são internacionais, já que estamos lidando com fenômenos globais.
Também de particular importância são os números bíblicos de pessoas deslocadas que fogem de países assolados pela guerra para viajar em direção à Europa continental, muitas vezes passando por meu país, Malta. Meus pensamentos estão constantemente com essas pessoas, especialmente com os milhares que perdem a vida durante uma jornada difícil, que deveria lhes dar uma vida segura e digna. Nosso lindo mar Mediterrâneo tornou-se um cemitério para milhares de pessoas em busca de uma vida melhor para si mesmos e suas famílias.
Essa devastação humana é intensificada pelo fato de que os que sobrevivem à dificuldade enfrentam uma vida de pobreza, aumentada por narrativas racistas que os retratam como uma ameaça aos empregos. Muitos se veem explorados como uma "força de trabalho de reserva" grosseiramente mal paga e possivelmente até não paga. O processo de marginalização produz mais pobreza e se torna completo. A única saída para a maioria dos migrantes parece ser a economia informal, mal remunerada e insegura, que constitui uma característica importante de vários países europeus. Precisamos mudar o discurso, permitindo que as pessoas compreendam por que os migrantes deixam seus países, se quisermos tentar mudar a vida dessas pessoas perseguidas.
As comemorações de um século do fim da Primeira Guerra Mundial e 25 anos da queda do Muro de Berlim deveriam servir como lembrete de que existem os que acreditam que as guerras e os muros ainda são viáveis hoje. Para minha grande decepção, o banho de sangue continua em países perto de casa, que eu condeno fortemente, com conflitos que dão origem ao terrível crescimento do extremismo, que resulta em atrocidades em massa contra a humanidade.
As questões dos desempregados há muito tempo e dos "trabalhadores pobres" ainda existem na Europa. Uma solução deve ser urgentemente buscada para esta praga social que afeta o bem-estar de um em cada cinco europeus e 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo.
Não pode haver qualquer compromisso quando a vida humana está envolvida. Precisamos ter em mente que a violência não conhece classe social, cor da pele, sexualidade, idade, religião, capacidade ou nacionalidade. Nós, que gozamos de liberdade, devemos fazer ouvir nossas vozes, celebrando nossas diferenças. Eu gostaria que meu tempo como governante do mundo seja lembrado por estabelecer um diálogo pacífico e duradouro entre povos de diferentes culturas. Esta é uma luta em curso, que existe juntamente com as lutas por democracia, maior justiça social e acesso a melhores serviços de educação e saúde para todos.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves           

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